Na Moita


08/06/2007


BONASSI FAZ METAFORA DE SUA GERAÇÃO

Apesar de escrito em forma de monólogo, nada no texto "O Incrível Menino na Fotografia" indicava que poderia render uma boa encenação. Acometido pela angústia de se rever menino congelado na perversamente ingênua foto escolar, característica do "Brasil- ame-o ou deixe-o" da ditatura dos anos 70, Fernando Bonassi deu voz a esse fantasma do passado afetivo de toda uma geração.

Duplamente oprimido por um sistema escolar normativo a serviço de idéias pre-determinadas pela moral e civismo vigente, frágil e kitch como uma borboleta presa em um quadro decorativo no lugar de honra dos lares de classe média, o menino desabafa. Nenhuma denúncia grandiloquente: o lamento de uma alma penada que nunca pode amadurecer, preso nas trevas das idéias de décadas de mediocridade institucionalizada.

Um exercício de fluxo de consciência que se desenvolve em poucas páginas, sem nenhuma ação além das lembranças, sem nenhuma mudança interna, pelo próprio tema. Como encenar?

É notavel que o próprio autor tenha tido a resposta tão clara. Ao invés de adaptar o tema em algo mais dinâmico, Bonassi transformou seu ensaio em experiência beckettiana de imobilidade. Junto a Daniela Garcia, imobilizou seu personagem em uma foto tridimensional em preto e branco, suspensa no espaço. Compreendendo logo que nada mudará, o público vai relendo os banais objetos cênicos: a banal frase no bolso do uniforme "melhor do que ontem, pior que amanhã" vai tomando uma ironia cada vez mais amarga, enquanto que o pequeno globo escolar, em preto e branco, vai assinalando um universo cada vez mais sinistro.

Como um segundo ator narrador, a luz de Davi de Brito faz recortes e comentários no texto, além de funcionar como uma câmara de cinema, influenciando os pontos de vista da platéia. A trilha de Marcelo Pellegrini cria uma paisagem sonora múltipla, com uma impressionante pesquisa em arquivos de rádio, alternando com rangidos e intervenções eficientes.

Eucir de Sousa, nos ombros de quem recai o espetáculo, se sai bem do desafio. Além da façanha técnica da limitação máxima de movimentos, assume bem o grotesco inerente da proposta (não é um menino, mas um adulto de bigode, grande demais para seus sapatos escolares) pesando talvez um pouco demais no tom enjoativo de criança (em contraponto com uma refrescante voz autêntica e pré-gravada), mas sem nunca cair no deboche fácil.

Apesar de sua curta duração, o espetáculo por vezes parece um pouco longo, talvez por se propor a respeitar integralmente um texto que, literariamente, gira em torno de si mesmo por temas e variações. Mas a angústia compartilhada do estático, convidando a platéia a também ficar presa nesse eterno presente, é altamente eficaz para constituir uma metáfora de uma geração. É o que pode se dizer também de "Esperando Godot". (bom).

Escrito por Sérgio às 12h29
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HIRSCH FAZ IMITAÇÃO PURIL DE GERALD THOMAS

Em "Educação Sentimental do Vampiro" Felipe Hirsch retoma procedimentos característicos das encenações de Gerald Thomas. Antes que isso se torne uma discussão de especialistas sobre o conceito de plágio em teatro, é bom dizer que o fato em si não basta para desabonar um espetáculo aos olhos de um público com menos referências. A Própria Sutil Companhia de Teatro de Hirsch retomou recentemente em "Avenida Dropsie" tema e soluções de montagens anteriores de Edson Bueno e Paulo de Moraes, resultando em um espetáculo divertido e emocionante.

Mas quais os limites entre cópia, imitação e influência, e quando isso se torna desabonador? Ezra Pound propõe uma classificação entre inventores, que inauguram uma linguagem, mestres, que recombinam linguagens em função de um projeto próprio, e diluidores, que reproduzem as lições dos mestres de forma mais acessível para um público maior.

Visto como um inventor na sua estréia brasileira, Gerald Thomas sempre assumiu influências de Beckett, Kantor e Brook na construção de uma linguagem para as suas angústias, e seus espetáculos, independentemente da polêmica que possam causar, há décadas servem de referência para a encenação contemporânea.

Seria Hirsch um diluidor reverente do mestre? Não. Infelizmente. Bem mais do que uma simples "influência"de Thomas, este "Vampiro" não consegue no entanto ser sua cópia - para isso, seria preciso compreender mais profundamente sua linguagem.

Imitação mal feita, caricatura que o aluno faz para debochar do professor, aqui a música grandiloquente não se contrapõe a nada, fumaças chamam atenção para si, e não para a luz, quase inexistente, e os espelhos do cenário pobre e estático de Daniela Thomas têm bem pouco o que refletir.

É de se perguntar como ela, assim como os atores Luís Damasceno e Magali Biff, tendo conhecido o processo original, se dispõem a este simulacro. Damasceno ainda tenta imitar Thomas em uma única narração em off, mas na maior parte do tempo é um cover de si mesmo, perdido no palco. Narrações aliás que, feitas ao vivo, repetem sistemáticamente aquilo que já é mostrado no palco, erro que Thomas nunca cometeria.

A montagem serve ao menos para divulgar Dalton Trevisan? Também não. Os contos grotescos, de ironia amarga, se tornam um deboche de mau-gosto, talvez por serem narrados com um caricatural sotaque curitibano, em piada sistemática. Nudez, sexo simulado, pedaços de cadáver, mulheres espancadas fazem a platéia gargalhar sem a menor angústia.

Seria isto então ao menos uma montagem despretenciosa, para fins meramente comerciais? Nem isso. Querendo manter um verniz de "teatro experimental", Hirsch põe os atores de sua companhia em cenas estáticas puramente narrativas, que entediam a platéia menos exigente e explicam por que teve que pegar emprestado efeitos mais espetaculares. Mas quando a ousadia se dilui assim em puerilidade, é de se perguntar por que esta "Educação Sentimental do Vampiro" consta do currículo do SESI, e do próprio Felipe Hirsch. (péssimo)

Escrito por Sérgio às 11h35
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