MUSICAL TEM A GARANTIA DA MEDIOCRIDADE Exortado há tempos a não buscar sushi em pizzarias, deveria me limitar a informar aqui que o público de "My fair Lady" encontrará exatamente o que espera: uma versão brasileira do clássico musical, com um humor mais escachado, mas mantendo nem mais nem menos daquilo que pode ser visto no filme de George Cukor, de 1964. Assim, na milionária pizzaria da CIE, Claudio Botelho segue com seu dom de dissimular rimas em "ão" e "im" sob uma generosa camada de verbos no infinitivo, e tem a criatividade de trocar "The Rain In Spain Stays Mainly In The Plain" o exercício de dicção imposto pelo misógino professor Higgins a sua cobaia Eliza, por "Atrás do trem as tropas vem trotando", que cabe perfeitamente na métrica. Pena que a música e a coreografia mantenha a referência à Espanha, mas ninguém na platéia se questiona por que o professor diz "Olé" para o trem. Afinal, embora tenha dispensando o contrato de franquia, o diretor Jorge Takla se mantém fiel ao espetáculo da Broadway, no máximo simplificando-o. A figuração tem a precisão de bonequinhos de relógio, e os figurinos e cenários podem ser reconhecidos pelos fãs do filme. Alardeado como um truque cênico admirável, o cenário acanhado é trocado em poucos minutos, enquanto um telão isola os atores no proscênio. Este sistemático espaço em branco é preenchido apenas uma vez, com uma projeção do desenho do rosto de Eliza, para ilustrar o que canta o professor - e é desolador, nesta hora, lembrar o que Daniela Thomas já fez com um filó. Mas aqui, ela foi contratada para ser eficiente, e não criativa. Há música e dança profissional, e cantores formados. Daniel Boaventura, sem idade nem carisma para um Higgins marcante, se sai razoavelmente bem, transformando-o em um professor simpático e palerma. Amanda Acosta faz Eliza cantar com uma boa impostação na primeira parte, e falar com uma entonação popular na segunda, mas a criatividade de Botelho a faz dizer "probre" ao invés de pobre, erro que ninguém faz. Francarlos Reis rouba o show no papel do pai de Eliza, à vontade em um humor televisivo altamente eficaz. A grande vantagem desta versão de My Fair Lady é a de não pretender se comparar a outras mais prestigiosas, quando o professor foi Paulo Autran ou Jaime Costa. Não podendo alardear, como de hábito no marketing da CIE, "finalmente no Brasil depois de Singapura", o milionário investimento se limita à garantia da mediocridade, para alimentar a curiosidade da classe média por aquilo que foi privégio até pouco tempo daqueles que podiam pegar o avião para Nova York. Essa pode ser a contribuição da firma mexicana, nesses tempos de ausência de política cultural consistente. Quando esfriar a febre do escambo de lustres e helicópteros por mão de obra barata e renúncias fiscais, os musicais terão que ser simplesmente bem feitos. Então, com um pouquinho assim de sorte, alguém vai lembrar de Arthur de Azevedo - e aí as coisas vão ficar interessantes. (razoável)


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