Na Moita


14/07/2007


FIT FAZ PREVALECER A PESQUISA DE GRUPOS

Conceito do sétimo FIT de Rio Preto seguido à risca na programação, a impermanência está não só nos meios, cenários alternativos que incorporam o aleatório, mas também em relação aos próprios espetáculos, tomados enquanto processo e não como resultado. Assim, temos montagens que, no contexto de um ponto de encontro para troca de experiências, dão mostras de uma pesquisa sólida e variada.

É o caso de "Zona de Guerra", da Cia Tripital de Teatro, de São Paulo, dirigida por André Garolli, um texto do início de carreira de Eugene O’Neill, de trama simples e linear, girando em torno do medo dos marujos pela bomba de um eventual espião infiltrado. A montagem busca quebrar com cenas simbólicas, plasticamente bem elaboradas, um naturalismo um pouco datado. Atores que sabem dizer um texto e dar perspectiva a seus personagens não evitam de todo uma certa redundância entre o que é dito e mostrado. A pesquisa do grupo ganha importância, no entanto, quando se sabe que esta peça, dando seqüência à premiada "Rumo à Cardiff", faz parte de uma tetralogia das "peças do mar" de O’Neill que vem sendo construída pela Triptal.

Da mesma forma, há algo de previsível na fábula cigana "Savina", do Amok Teatro do Rio Janeiro: um pai promete casar sua filha ainda não nascida com o também futuro filho de seu melhor amigo. Quando chega a hora, no entanto, ele busca cancelar a promessa, já que seu amigo agora é um velho bêbado, com filho namorador. A pesquisa aprofundada no universo cigano, associada à grande técnica de Stephane Brodt, no papel do amigo renegado (técnica que faz falta ao resto do elenco masculino), além da trilha ao vivo apurada e a boa dinâmica do cenário, fazem esquecer algumas ingenuidades da direção de Ana Teixeira, também autora do texto, como certas corridas inutilmente ilustrativas.

Por seu lado, o grupo Espanca! de Belo Horizonte, que surpreendeu a todos anos atrás com a madura peça de estréia "Por Elise", tem agora que enfrentar o estigma da segunda peça. Na comparação, "Amores Surdos" perde muito: o texto, da mesma Grace Passô, foge inteligentemente de uma cobrança por um novo mergulho metafísico em seu quintal com um texto de humor descabelado, mas deixa a impressão de esboço. Uma família segue um cotidiano de sapateados obrigatórios e a asma de um irmão "pequeno" de tamanho descomunal. No entanto, o mal-estar vai crescendo na forma de um hipopótamo secreto, com o potencial simbólico do rinoceronte de Ionesco.

A encenação de Rita Clemente é ainda bastante incipiente. Não é grave: na impermanência do teatro, a busca é mais valiosa que os eventuais achados. (todos bons)

Escrito por Sérgio às 16h29
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13/07/2007


Canção da Brisa

Maria Alice Vergueiro dedicou a mim! Nem sei o que dizer...a que devo a honra? Entrem no blog dela, está linkado ali do lado.

Bertolt Brecht e Hans Eisler
Versão: Tatiana Belinky

para Sérgio Sálvia

Vem, aconchega-te a mim
Meu hóspede amado
Mas ao me abraçar assim
Não sejas apressado

Mira-te nestas ameixas
Maduras, outonais
Só querem leve brisa, pois
Têm medo aos temporais

Um vento pequenino só
Da brisa o acalento
A ameixa quer sair do pé
Deitar no chão rolando.

REFRÃO

Tu, ceifador detém a mão
A haste poupa e o vinho
não sorvas de um só trago e não
me beijes em caminho

REFRÃO

violão: Alessandro Penezzi 

Escrito por Sérgio às 15h19
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RIO PRETO É PROTAGONISTA DE SEU FESTIVAL DE TEATRO

"Sympathisons avec la population!". Logo na abertura do Sétimo Festival Internacional de Rio Preto, a palavra de ordem, lançada por um ator da companhia francesa Transe Express em meio ao público que lotava o já tradicional palco ao ar livre na represa municipal, parecia querer corresponder aos anseios de um panfleto distribuído clandestinamente minutos antes pelo Movimento Teatro em Resistência, do Associart (Associação dos Artistas, Técnicos e Produtores Teatrais de São José do Rio Preto).

Revoltada contra o fato dos artistas locais ocuparem "menos de 1%" da estrutura do FIT, que para seus 13 dias recebeu mais investimento que a secretaria municipal de cultura no ano inteiro, a Associart se preocupa legitimamente com um fenômeno presente em todos os festivais de teatro, isto é, de ser um evento passageiro que em geral não fomenta a produção cotidiana da cidade.

Não parece ser falta de interesse do público local por teatro: os ingressos se esgotam rapidamente nos primeiros dias do festival, há trocas intensas de dicas em comunidades do orkut, e na abertura o público ávido estimado em três mil pessoas, aguardando a entrada do Transe Express, chegou a aplaudir um atônito cachorro que atravessava o palco vazio.

Mas é injusto também acusar a curadoria de elitismo: são raros os festivais que se preocupam como o FIT em dialogar com a cidade. A marca do Festival é justamente a das intervenções urbanas, com espetáculos concebidos exclusivamente para atingir o transeunte, gratuitamente ou no máximo por dez reais, sensibilizando-o no seu cotidiano.

Assim, o próprio Transe Express, simpática aldeia de Asterix que não teme cair do céu sobre a cabeça do público, não se limitou ao habitual número de tambores e móbile humano. Convocou a fanfarra local da Escola Darcy Ribeiro para rivalizar com eles nos tambores, e descendo do guindaste de alturas inatingíveis, se fizeram ‘expulsar’ do palco pelo HipHop riopretense.

De forma mais marcante, o grupo argentino BiNeural-Monokultur chegou semanas antes em Rio Preto e estruturou seu espetáculo "O Caminho X" em uma pesquisa com historiadores locais, já que neste seu "Audiotur Ficcional" o protagonista é a cidade na qual o público único transita, com fones de ouvido explicativos como se vê nos museus.

Os criadores Ariel Dávila e a alemã Christina Ruf, conciliando memória local e olhar estrangeiro, já haviam feito isso em Córdoba, cidade de origem do grupo. Em Rio Preto encontraram uma cidade com problemas semelhantes: no afã de modernizar-se, acaba apagando o seu passado, como se fosse um complô contra seus habitantes.

Juntando placas semi apagadas, estátuas roubadas, fragmentos de uma mitologia urbana esquecida, alusões religiosas que já não atingem os habitantes, o BiNeural constrói uma divertida e engenhosa trama policial, unindo até o delírio paranóico elementos do cotidiano que conseguem fazer até o mais tradicional morador olhar sua cidade com olhos novos.

Saindo de quinze em quinze minutos do ponto de encontro marcado com antecedência na compra do ingresso, o público solitário segue instruções aflitas de Artur Castro para o padre Jonas, em uma fita encontrada pela polícia depois que ambos desapareceram. É irresistível a sensação de se tornar o padre, quando se ouve coisas como "olhe para essa mulher na sua frente: ela em breve vai desaparecer na memória de todos".

Ao contar com a cumplicidade de padres e agentes de segurança da cidade, já que o público-performer deve invadir a catedral e a estação de trem por portões escondidos, além dos atores locais Bia Moretti e Guido Caratori (que faz a voz de Artur Castro com uma impagável entonação de novela de rádio), "O Caminho X" é uma experiência única, que transforma Rio Preto em uma cidade mágica.

Assim, a impermanência da arte desses 13 dias especiais, além de unir a cidade ao mundo, ao sensibilizar o público local para a função transformadora do teatro pode instigar a produção e a política cultural locais a acreditar nisso o ano inteiro. Assim, sem necessidade de nenhum protecionismo paternalista, os artistas locais poderão cada vez mais se associar de igual para igual aos convidados ilustres. (Caminho X: ótimo)

Escrito por Sérgio às 12h41
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MONTAGEM HOLANDESA É UMA EXPERIENCIA PERTURBADORA

"Braakland", da companhia Holandesa Dakar, tem alguns pontos em comum com "O Caminho X" do argentino BiNeural-Monokultur: o itinerário deve permanecer secreto, e o estranhamento provocado no público o habilita a ter um olhar antropológico, decidindo por si mesmo o que olhar e que história construir.

A estratégia, no entanto, é diferente: o público se desloca em grupos de 300 em um comboio de ônibus até um terreno ermo nos limites da cidade, em um percurso de mais de meia hora, além de mais dez minutos de caminhada pelo mato. Uma arquibancada erguida no meio do nada faz da paisagem e do belo sol poente o cenário e a iluminação, sendo a trilha executada ao vivo pelos pássaros, cachorros latindo ao longe e o murmúrio contínuo dos trens distantes.

Aos poucos, os atores surgem – em geral, na linha do horizonte, a mais de 50 metros do público. O tempo se arrasta, e as atividades banais desses oito camponeses rústicos são interrompidas de quando em quando por uma morte súbita, injustificável, cuja violência está justamente na sobriedade com que acontece.

Quando surge neste set um personagem que finalmente pode ter a função de alter-ego da platéia –uma visitante que procura avidamente um contato com esses personagens insondáveis- ela é humilhada em sua impotência, e abandonada na sua solidão.

A diretora Lotte van den Berg cria assim uma estética vigorosa e perturbadora, uma espécie de "Esperando Godot" em estado selvagem, que mobiliza no público essa mesma impotência humilhante que se sente ao ver imagens de guerra ou fome na televisão. Dessensibilizado pela distância, mais ainda chocado pela aparente falta de sentido na origem do desejo e da violência, a testemunha deste "Braakland" volta para casa sozinho e pesado, mas com a sensação de ter vivido uma experiência essencial. (ótimo)

Escrito por Sérgio às 12h40
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12/07/2007


COMPANHIA DOS ATORES É PORTA VOZ  DA GERAÇÃO EXPERIMENTAL

 

“Gaivota [Tema para um Conto Curto]” não é uma montagem da Companhia dos Atores. Apresentada em paralelo com uma mini retrospectiva do grupo, no entanto, se mostra claramente como decorrência,  do método que Enrique Diaz pesquisa junto a seus atores há quase vinte anos. Ator-diretor, que encabeça não propriamente criações coletivas, mas espetáculos estruturados pelo processo de criação dos atores, Diaz faz do teatro metalingüístico uma tomada de poder de sua geração, na síntese entre a pesquisa sólida e a iconoclastia libertadora.

“Melodrama”, de 1995, já um clássico da subversão, não se limita a um escacho do gênero, mas embasando-se em uma antologia por Filipe Miguez de todas as suas possíveis subdivisões (dos dramas de João Caetano a Nelson Rodrigues, passando pelo rádio, o cinema, a televisão, a ópera), exige dos atores uma técnica apurada para, por exemplo, fazer as mesmas marcas em vários estilos diferentes. Um desafio técnico que, quando executado por atores como Augusto Madeira, Drica Moraes e Susana Ribeiro, se torna inesquecível. O cenário escasso é compensado pela dinâmica requintada da luz além do apuro do canto e da dança: propor o tango entre um bêbado e uma morta seria mero efeito retórico se não fosse executado por César Augusto com um brio que arranca aplausos em cena aberta.

Este museu imaginário de técnicas de interpretação perde o distanciamento histórico com “Ensaio.Hamlet”, de 2004. Aqui, vemos a Companhia dos Atores duelando com seus próprios recursos, com auto-ironia. Bel Garcia tem que expurgar em um monólogo impagável seu preconceito contra a adolescência, para “entrar” na pele-figurino de Ofélia, e se o aguardado “ser ou não ser” sai pela tangente da técnica formal, poucas foram as montagens que expressaram melhor a famosa questão edípica de Hamlet. Marcelo Olinto, vestido à força por sua mãe superprotetora em roupas de menino, encontra o dificílimo tom de bufão suicida com uma frase liberta da ardilosa retórica shakespeareana: “está apertado, mãe”, ecoa fundo, do riso à angústia.

Se “the play is the thing”, como diz Hamlet, no momento em que faz de uma companhia de atores a armadilha para a consciência do rei, a metalinguagem se desdobra em várias outras obras primas, como esta “Gaivota”, que Diaz vê com inteligência como o “Ensaio.Hamlet” escrito por Tchekhov. Somando Bel Garcia, Emílio de Mello, Felipe Rocha e Gilberto Gawronski, atores de sua companhia, à sua parceira de vida Mariana Lima e Isabel Teixeira, além de subir também no palco, Diaz retoma o tema filtrado por Tchekhov do choque entre gerações. A mãe castradora é agora a atriz consagrada na podridão das velhas convenções; o príncipe suicida é um criador que aspira ao novo e se condena assim ao fracasso.

Tempos atrás, Diaz deixou de dirigir outra “Gaivota” que, contando com um elenco “all star”, estava próximo demais da disputa de egos entre gerações. Agora mais maduro e com um elenco cúmplice, faz desta montagem uma comprovação definitiva de seu processo de trabalho. O processo exposto aqui é aquele que, como se sabe, Stanislavski criou exatamente para dar conta dos desafios deste conto-em-cena de Tchekov: o subtexto, a memória emotiva, o ‘se’ mágico, se somam ao texto original, já que é difícil separar em textos metalingüísticos os personagens e os intérpretes.

Assim, Treplev é Meierhold, na montagem inaugural do teatro de Arte de Moscou, e é também toda a Companhia dos Atores, que se revezam em todos os papéis, tendo direito igualmente aos estrelismos de Arkadina: no meio da carreira, tendo conquistado prestígio e desprezado a fama, ironizando seus orgulhos e suas ingenuidades, a companhia se faz porta voz de sua geração. Se algum dia grandes produtores, além do SESC e Petrobrás, quiserem parar de investir em obviedades passadas para resgatar o teatro experimental do turvo lago em que se encontra, há de encontrar companhias como esta, que segura a vida nos dentes como quem traz uma flor na boca. (ótimo)

 

 

Escrito por Sérgio às 12h17
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