Na Moita


20/07/2007


FESTIVAL DE RIO PRETO ASSUME OS RISCOS DO TEATRO EXPERIMENTAL

Hamlet entra em cena e escreve a giz, na parede podre de seu cela-nação, a data da apresentação. Está aberta a aposta: Shakespeare deverá provar ser um espelho de qualquer época. E mesmo que venha da Venezuela essa provocação sarcástica contra a caricatura no poder, ninguém da América Latina pode rir despreocupado.
O Teatro del ContraJuego está há vinte anos na vanguarda da insolência. Dirigida por Orlando Arocha, tendo como braço direito o ator-dramaturgo-diretor brasileiro Ricardo Nortier, essa sua leitura de Hamlet, como costuma acontecer com uma peça tão complexa, vale como um cartão de visitas das estratégias da companhia.
Pois bem: visando o público geral, a companhia não se preocupa com o caviar das sutilezas psicológicas. Arocha escolhe ser abertamente popular, da trilha de salsas e rumbas ao figurino que parodia a alta costura, e essa sem-cerimônia autoriza cada um na platéia a fazer sua própria associação com seus pingüins de geladeira. O protagonista Nortier, com um cinismo disfarçado de bonomia, entrecortado por chiliques de criança e melancolias que lembram o quanto é séria a questão da qual se debocha, remete muitas vezes Luis Fernando Guimarães. Ludwig Pineda, um rei Cláudio que se deleita na cafonice, barbicha, ray-ban e ouro no pescoço, é um sósia do cantor Falcão; enquanto que a Ofélia de Diana Peñalver é uma Courtney Love que se afoga na sórdida pia do cenário único.
Valorizando como poucos a comicidade de Polônio, Julio Bouley domina as pausas pantalonescas, e seu coveiro chega ao hilário despudor de Chaves (o comediante mexicano, não seu homônimo presidente). Por outro lado, a evocação do fantasma, vento nas cortinas do fundo, é sofisticada, assim como a decisão de se cortar o mínimo da longa peça. Sem se levar muito a sério, o Hamlet do Teatro Del ContraJuego serve Shakespeare no que ele tem de mais contemporâneo: sua insolência.
A atitude abertamente lúdica acaba sintetizando bem o que foi o Sétimo Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto. Na sexta feira, ainda com a expectativa das apresentações de grupos tão importantes como o Teatro Oficina (com a remontagem de “Vento Forte para um Papagaio Subir”) e o Grupo Galpão, com a aguardada “Pequenos Milagres”, dirigida por Paulo de Moraes; além da ilustre presença de Anatoli Vassíliev, da Escola de Arte Dramática de Moscou, vindo expor o processo de sua “Medeamaterial”, o festival se responsabilizou por eventos seminais para o teatro brasileiro.
Consagrou os franceses da CIE 111, com seu instigante “Plan B”; inquietou o público com a desolação de “Braakland”, da inovadora Compagnie Dakar, da Holanda; e manteve sua marca de interferir no cotidiano da cidade, com a sensível e aprofundada pesquisa do “audiotour ficcional” “O Caminho X”, da BiNeural-Monokultur argentina, além dos perturbadores humanóides “Squames” do Kumulus, da França, expondo por uma gaiola em pleno Bosque Municipal a perplexidade de quem os via, e a paciente experiência de Maurício Paroni de Castro junto a Companhia Linhas Aéreas, a paulistana “Aqui Ninguém é Inocente”, uma “deriva” que madurece a cada praça.
Como toda aposta aberta, o Festival deu visibilidade a experiências menos bem sucedidas, como a declamativa “Medea” do Grupo Atalaya, da Espanha, e a “Galeria 17”, da Boa Companhia de Campinas, que se atolou em uma kafkiana autocontemplação. Se “tempo.Depois”, da carioca La Cia de Teatro, revelou Rodrigo Nogueira como um dramaturgo promissor, apesar de um apêndice final desnecessário proposto pela diretora Alessandra Colasanti, Celina Sodré, dirigindo o Studio Stanislavski, também do Rio, apostou com “Sacrifício de Andrei” em uma intervenção no filme de Tarkoviski, extremamente plástica, mas redundando em efeitos quase aleatórios e uma interpretação simultânea que perdia muito na comparação.
Na liberdade da tentativa e erro, mais eficiente foi o formato do “Não-Lugar”, a partir das 23:00, que ofereceu desde os poucos minutos de alta tecnologia do “Vídeotango” de Otávio Donasci, até o blefe dadaísta “Falso Espetáculo”, de Elisa Ohtake, que parodia as últimas tendências das artes cênicas contando com a cumplicidade da platéia.
Benevolência que, no entanto, pode ser perigosa para um grupo com menos autocrítica, como é infelizmente o caso da Cooperativa Arquetípica de Teatro, com “Salut, Salomé!”, montagem escolhida por Bri Fiocca, Fausto Fuser e William Perereira no projeto “Aldeia 2007” para representar a produção de Rio Preto. Arremedo de musical de Eduardo Catanozi, que disfarça com auto-deboche um total despreparo do elenco para o canto e a dança, alinhava chavões de modo constrangedor, sem aparentemente se dar conta de sua péssima qualidade. Se a classe teatral da cidade quiser mesmo merecer sem paternalismo uma participação maior em seu importante festival internacional, tem que conseguir se fazer representar por algo mais digno.
O FIT, quanto a ele, segue seu rumo e se consolida como um dos mais instigantes festivais do Brasil.

 

Escrito por Sérgio às 13h00
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17/07/2007


ESPETÁCULO HIBRIDO SUBVERTE A GEOMETRIA COM BOM HUMOR

“Plan B” é abstrato e divertido como um “raciocínio por absurdo” em geometria. Espetáculo híbrido, entre o circo, a performance e o teatro, concebido em 2003 pelo acrobata-cenógrafo Aurélien Bory, com a assistência de Olivier Alenda (que divide o palco com Bory e os performers Loic Praud e Pierre Cartonnet), todos baseados em Toulouse, na França, e a direção do Phil Soltanoff, que vem do teatro experimental de Nova Iorque, esta é a segunda peça de uma trilogia. “IJK”, de 2000, partia do volume, o tridimensional explorado por três performers; com seis, a terceira peça, “Plus ou Moins l’Infini”, de 2005, é ainda mais minimalista: investiga a linha.
Logo na primeira cena, anônimos em ternos impecáveis, como nos quadros de Magritte, deslizam por um plano inclinado a 45 graus. Uma precisão milimétrica e um ritmo obsessivo apontam para um universo impessoal, escheriano, puramente racional. Progressivamente, o plano assume a vertical e se torna muro, e depois a horizontal, e um truque de câmera faz o atrito interferir na gravidade, efeito acentuado pelo malabarismo de bolas brancas. Bolas que passam também a ser instrumentos de percussão, integrando a trilha.
Ora, logo a previsibilidade é destruída, já que “plano” é também um projeto futuro, e “plano B” é aquele ao qual se recorre quando tudo dá errado. E é a hesitação diante do obstáculo que dá a dimensão teatral ao espetáculo. A princípio, a solenidade é mantida, com uma certa angústia no ar, se o público fizer a relação com as estratégias de sobrevivência no World Trade Center, por exemplo.
Mas logo o lirismo vai dando lugar ao burlesco, com um humor cada vez mais subversivo. Explorando sistematicamente cada recurso que se apresenta, em tema e variações, a elegância dos truques de music hall vai flertar com todas as mídias, a agilidade do vídeo game, o non-sense da Pantera Cor de Rosa, o faz-de-conta kitch de Batman e Robin subindo nos prédios, no seriado da TV.
Mas é do cinema que vêm as melhores citações de “Plan B”. Sem nenhum diálogo, há referências ao experimentalismo pioneiro de Meliés, ao cenário instável de Buster Keaton, à subversão do cotidiano de Harold Lloyd, mas também à gravidade alterada do Kung Fu de Hong Kong e as panorâmicas do deserto, ao som de violão, do Paris, Texas de Win Wenders.
Preciso como os planos do cinema, patético como os planos estratégicos de executivos em treinamento, “Plan B” revela aos poucos uma humanidade enternecedora, um resgate da dignidade do medo da falha diante das leis incontornáveis da física. Sem nenhum hermetismo, mas oferecendo a profundidade que se queira tirar desse espetáculo para todas as idades, o projeto da CIE 111 concilia o experimentalismo com a diversão, sem nenhuma concessão ao fácil.
Triunfou no sétimo FIT de Rio Preto, e tem tudo para ganhar fãs também em São Paulo. (ÓTIMO)

Escrito por Sérgio às 14h44
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JOVEM DRAMATURGO BRINCA COM AS CONVENÇÕES TEATRAIS

Há espetáculos que nos dez primeiros minutos já revelam o que vão ser até o final. Há outros, como esse “Tempo. Depois”, da Ativa Produções Artísticas, do Rio de Janeiro, que joga pôquer com a platéia, com vários ases na manga – e, no contexto de um festival experimental como o FIT, faz o efeito de uma janela aberta arejando o teatro.
Não que o texto de Rodrigo Nogueira seja uma obra prima temporã, nem que esse desfiar progressivo dos paradigmas realistas já não tenha sido experimentado desde A Cantora Careca de Ionesco, por exemplo. Mas é um grande prazer ver jovens criadores tão à vontade em subverter as convenções.
Nogueira, também em cena, manipula o universo da linguagem com uma verve que lembra Michel Melamed, quando, por exemplo, se dá conta que o verbo “coçar” dá conta simultaneamente de uma causa e uma conseqüência. A trama é simples: um rapaz e uma moça se encontram por acaso na ante-sala de uma primeira consulta psiquiátrica. A ansiedade e a tensão romântica faz com que a troca de banalidades vá deformando o real, em clima paranóide de déjà-vus, até a quebra da quarta parede e o distanciamento dos personagens.
 O clímax do non-sense ocorre quando a porta se abre e de lá sai o cliente anterior, em participação especial sempre renovada – no festival, elencos de outras peças são convidados para interferir com seus personagens, em um efeito metalingüístico irresistível.
A diretora Alessandra Colasanti garante a eficácia desse exercício metalingüístico, tirando bom proveito da interpretação estilo Woody Allen de Nogueira, assim como de um certo exibicionismo adolescente de Fernanda Félix. O Ativa é um grupo para se ficar de olho. (BOM)
  

Escrito por Sérgio às 14h44
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