FESTIVAL DE RIO PRETO ASSUME OS RISCOS DO TEATRO EXPERIMENTAL
Hamlet entra em cena e escreve a giz, na parede podre de seu cela-nação, a data da apresentação. Está aberta a aposta: Shakespeare deverá provar ser um espelho de qualquer época. E mesmo que venha da Venezuela essa provocação sarcástica contra a caricatura no poder, ninguém da América Latina pode rir despreocupado.
O Teatro del ContraJuego está há vinte anos na vanguarda da insolência. Dirigida por Orlando Arocha, tendo como braço direito o ator-dramaturgo-diretor brasileiro Ricardo Nortier, essa sua leitura de Hamlet, como costuma acontecer com uma peça tão complexa, vale como um cartão de visitas das estratégias da companhia.
Pois bem: visando o público geral, a companhia não se preocupa com o caviar das sutilezas psicológicas. Arocha escolhe ser abertamente popular, da trilha de salsas e rumbas ao figurino que parodia a alta costura, e essa sem-cerimônia autoriza cada um na platéia a fazer sua própria associação com seus pingüins de geladeira. O protagonista Nortier, com um cinismo disfarçado de bonomia, entrecortado por chiliques de criança e melancolias que lembram o quanto é séria a questão da qual se debocha, remete muitas vezes Luis Fernando Guimarães. Ludwig Pineda, um rei Cláudio que se deleita na cafonice, barbicha, ray-ban e ouro no pescoço, é um sósia do cantor Falcão; enquanto que a Ofélia de Diana Peñalver é uma Courtney Love que se afoga na sórdida pia do cenário único.
Valorizando como poucos a comicidade de Polônio, Julio Bouley domina as pausas pantalonescas, e seu coveiro chega ao hilário despudor de Chaves (o comediante mexicano, não seu homônimo presidente). Por outro lado, a evocação do fantasma, vento nas cortinas do fundo, é sofisticada, assim como a decisão de se cortar o mínimo da longa peça. Sem se levar muito a sério, o Hamlet do Teatro Del ContraJuego serve Shakespeare no que ele tem de mais contemporâneo: sua insolência.
A atitude abertamente lúdica acaba sintetizando bem o que foi o Sétimo Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto. Na sexta feira, ainda com a expectativa das apresentações de grupos tão importantes como o Teatro Oficina (com a remontagem de “Vento Forte para um Papagaio Subir”) e o Grupo Galpão, com a aguardada “Pequenos Milagres”, dirigida por Paulo de Moraes; além da ilustre presença de Anatoli Vassíliev, da Escola de Arte Dramática de Moscou, vindo expor o processo de sua “Medeamaterial”, o festival se responsabilizou por eventos seminais para o teatro brasileiro.
Consagrou os franceses da CIE 111, com seu instigante “Plan B”; inquietou o público com a desolação de “Braakland”, da inovadora Compagnie Dakar, da Holanda; e manteve sua marca de interferir no cotidiano da cidade, com a sensível e aprofundada pesquisa do “audiotour ficcional” “O Caminho X”, da BiNeural-Monokultur argentina, além dos perturbadores humanóides “Squames” do Kumulus, da França, expondo por uma gaiola em pleno Bosque Municipal a perplexidade de quem os via, e a paciente experiência de Maurício Paroni de Castro junto a Companhia Linhas Aéreas, a paulistana “Aqui Ninguém é Inocente”, uma “deriva” que madurece a cada praça.
Como toda aposta aberta, o Festival deu visibilidade a experiências menos bem sucedidas, como a declamativa “Medea” do Grupo Atalaya, da Espanha, e a “Galeria 17”, da Boa Companhia de Campinas, que se atolou em uma kafkiana autocontemplação. Se “tempo.Depois”, da carioca La Cia de Teatro, revelou Rodrigo Nogueira como um dramaturgo promissor, apesar de um apêndice final desnecessário proposto pela diretora Alessandra Colasanti, Celina Sodré, dirigindo o Studio Stanislavski, também do Rio, apostou com “Sacrifício de Andrei” em uma intervenção no filme de Tarkoviski, extremamente plástica, mas redundando em efeitos quase aleatórios e uma interpretação simultânea que perdia muito na comparação.
Na liberdade da tentativa e erro, mais eficiente foi o formato do “Não-Lugar”, a partir das 23:00, que ofereceu desde os poucos minutos de alta tecnologia do “Vídeotango” de Otávio Donasci, até o blefe dadaísta “Falso Espetáculo”, de Elisa Ohtake, que parodia as últimas tendências das artes cênicas contando com a cumplicidade da platéia.
Benevolência que, no entanto, pode ser perigosa para um grupo com menos autocrítica, como é infelizmente o caso da Cooperativa Arquetípica de Teatro, com “Salut, Salomé!”, montagem escolhida por Bri Fiocca, Fausto Fuser e William Perereira no projeto “Aldeia 2007” para representar a produção de Rio Preto. Arremedo de musical de Eduardo Catanozi, que disfarça com auto-deboche um total despreparo do elenco para o canto e a dança, alinhava chavões de modo constrangedor, sem aparentemente se dar conta de sua péssima qualidade. Se a classe teatral da cidade quiser mesmo merecer sem paternalismo uma participação maior em seu importante festival internacional, tem que conseguir se fazer representar por algo mais digno.
O FIT, quanto a ele, segue seu rumo e se consolida como um dos mais instigantes festivais do Brasil.


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