GALPÃO CELEBRA A VIDA COMUM
Na primeira cena de "Pequenos Milagres", espetáculo que comemora os 25 anos do Grupo Galpão, os atores brincam como crianças no palco. Surpreende por um momento tamanha sem-cerimônia em um momento de auto-celebração, mas é assim que o Grupo ganhou tanto respeito nas últimas décadas:de peito aberto.
Para marcar a data, tomaram duas providências sábias: o diretor convidado da vez é Paulo de Moraes, do grupo Armazém, de trajetória semelhante, que por sua vez sugeriu partir de histórias de pessoas comuns, selecionadas entre as 600 que participaram do projeto "Conte a Sua História", criado para a ocasião.
Que não se espere dos "milagres" contidos nas quatro histórias escolhidas nenhuma lição de moral, nem sequer finais felizes. O objetivo não é tanto se maravilhar, mas se enternecer com o comum, filtrado pela memória pessoal dos autores, temperada pela sintaxe ágil de Paulo de Moraes e pelas palavras bem lapidadas de Maurício Arruda Mendonça.
Assim, na história "O Vestido", o sonho de casamento de Maristela de Fátima Carneiro se concentra no figurino, não no príncipe encantado: o marido, a ser "pé-na-bundeado", segundo a verve carrolliana de Mendonça, sem maiores dramas anos depois, é um mero coadjuvante. O que importa é a realização do sonho de menina que permanece intacto anos depois, quando o tempo já cicatrizou feridas e a vida pode ser vista como um conto de fadas. Inês Peixoto convence plenamente, tendo também a graça de permanecer menina, e a cena na qual envelhece décadas durante uma prova de vestido é antológica.
Além do precioso parceiro Mendonça, Paulo de Moraes trouxe também Carla Berri para pensar com ele o cenário, que é sempre a pedra de toque em suas montagens.
Monumental e despojado, engenhoso ao se desdobrar no estrito necessário sem roubar o foco, concretizam perfeitamente o conceito de peças de quebra cabeça, histórias que se completam sem perdar o fio da meada de cada uma.
O fato de não ser sentencioso, no entanto, não significa que "Pequenos Milagres" evite a dor. "O Pracinha da FEB", baseado na história enviada por Thereza Alvarenga tem o tom agridoce dos quadrinhos de Will Eisner, explorando um momento histórico raramente mencionado no teatro nacional. Temos também pequenos heroísmos de guerra, de gente comum, sem nenhuma conotação ideológica.
mas é em "Casal Náufrago" que se mergulha no sofrimento mais sórdido, que de tão comum se torna invisível: um casal que tem a vida conjugal destruída pela falta de dinheiro cai no golpe do baú da felicidade (sim, é ele mesmo, com seu sorriso e seus milhões, clonado arrepiantemente por Beto Franco). São inequecíveis a melancólica dignidade de Eduardo Moreira, o taxista que tenta reconquistar a admiração da mulher, feita com entrega, sem cair no deboche caricatural, por Lydia del Pichia.
Mas é a história que costura tudo, "cabeça de cachorro", que dá a essência do espetáculo. Um menino de onze anos (Antônio Edson, em um ponto alto de sua carreira) que tem seu irmão mordido por um cachorro de rua tem que levar a cabeça do bicho de ônibus até São Paulo. Em uma verdadeira saga de herói, na qual não falta sequer o encontro com o outro mundo (cães fantásticos em perna de pau), o garoto faz mais do que cumprir seu dever: passa a gostar de si mesmo, e se dá de presente o mar, na cena final na qual a bela trilha, a luz caleidoscópica e a cenografia se completam. Feliz aniversário Galpão: uma festa à altura da ocasião. (ótimo)


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