MARILENA ANSALDI SINTETIZA A ANGÚSTIA DA MODERNIDADE Um longo banco de jardim sobre um gramado. Um muro emoldura. Na extrema esquerda do banco, uma maçã esquecida acentua a impressão de um jardim do Éden na ascética elegância da Bauhaus. Solipsista, Santo Antão enfrenta as tentações da modernidade, armado com Schopenhauer, Arnaldo Jabor e Marcelo Rubens Paiva. A erudição sem concessões e a estética precisa dão a marca da Cia Razões Inversas, que há 17 anos une o diretor Marcio Aurélio ao ator Paulo Marcello, entre outros, para espetáculos de longa gestação. Este "A Metafísica do Amor", por exemplo, já estava sendo esboçado em 2001, por ocasião do primeiro festival internacional de teatro de São José do Rio Preto. Então, o eremita se abrigava em um quarto de hotel, e sua metafísica ia tecendo pontes quase incidentais com uma televisão ligada. Agora já não mais performance, o espetáculo madureceu muito. Santo Antão já não é mais um exilado urbano. Reencontrou seu paraíso solitário, no conforto da reflexão, e os visitantes inoportunos, que compõe a essência da excessiva peça de Flaubert, são apenas invasores do fluxo de consciência. Evita no entanto o repouso do banco, como se fosse uma lápide. A modernidade o exaspera mas o mantém em movimento. A minuciosa partitura de suas ações, cumprida por Marcello com sua habitual competência, vai se tornando uma coreografia árida, de ângulos retos, quase abstrata, como as dos seres que circulam por trás das janelas dos grandes conjuntos financeiros. A opção pelo simbolismo, no entanto, faz com que nada possa se reduzir a uma referência anedótica. Pode-se assistir ao espetáculo de duas formas: compartilhando o fio da meada do intelectual perdido em seu labirinto, ou olhando-o de fora, como um exótico animal enjaulado, apreciando apenas as marcas como um belo e desesperado hieróglifo. De todo modo, tudo seria apenas uma hora de elegante exercício de encenação, o que não é pouco, dado a grande sensibilidade do diretor, iluminador e sonoplasta Márcio Aurélio, se não fosse os últimos 10 minutos. Com Marcello extenuado prostrado no chão, surge Marilena Ansaldi, como o espírito da terra. Erguendo-se acima de tudo, até mesmo da belíssima área de Vivaldi, celebra sobre o banco um ritual de cópula e de morte, com um vigor e uma sensualidade assombrosos: é a quintessência de sua fecunda carreira o que ela oferece nestes 10 minutos. Então, palavras já não são necessárias. Tudo se faz evidente, logo profundamente assombroso. A vida apenas, sem explicação. bom


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