OFICINA COLHE OS AGRIDOCES FRUTOS DA JUVENTUDE Preparando-se para o marco dos cinquenta anos –raro, em qualquer lugar do mundo- o Oficina encena duas obras de juventude. Para quem já espera, com deleite ou aversão, a habitual longa jornada iniciática, uma surpresa: são peças curtas, com menos de duas horas, que partem de um recorte realista, com elenco reduzido. Não se trata de uma capitulação, mas de um ajuste em sintonia fina. "Santidade", segunda peça do projeto de Encenação da Dramaturgia de José Vicente, que já havia começado com "O Assalto", em 2004, retoma agora com a primeira peça de um autor que passou tempo demais sob o rótulo de maldito, e que a minuciosa direção de Marcelo Drummond torna atemporal e universal. Escrita aos vinte e dois anos, com forte carga autobiográfica, narra o reencontro de um ex-seminarista com seu irmão, já ordenado, que se surpreende ao encontrá-lo vivendo com outro homem. Não há nada de apelativo nessa confissão de peito aberto, que se tinge mais de solidão do que deboche. Apesar de uma marcante encenação de Fauzi Arap em 1997, que revelou para os palcos paulistas Mario Bortolotto, também ex-seminarista, ainda há referências demais a um episódio no qual um limitado general censurou o texto em seu nascedouro, em 1967. Livre desses tempos patéticos, quarenta anos depois, Drummond pode reinstaurar José Vicente no seu verdadeiro contexto: o do "Um coeur sous la soutane" de Rimbaud, que aliás dá nome aos personagens do texto. Fatia de vida quase em tempo real, exige uma interpretação de nuances realistas, e o diretor volta a contar com a sutileza de Haroldo Costa Ferrari, em contraste com uma maior ingenuidade de Fransérgio Araújo, o que serve bem aos personagens. Mas sem dúvida o grande atrativo é esse extraordinário ator José Celso Martinez Correa, que sabe trazer para si e para o agora cada conflito do texto. Quando o personagem Ivo, amante do ex-seminarista Artur, se pergunta o que será da sua griffe de alta costura quando se for, Zé faz um amplo gesto que engloba o Oficina – e o espaço se torna protagonista. De fato, nada experimentado ali no monumental "Os Sertões" se perdeu nesse recorte: não há paredes imaginárias e o público é convidado, bem instalado em pufes, a comungar da preguiça da cama dominical, centro da trama. O conflito entre sagrado e profano se delineia em marcas precisas, sacralizando o cotidiano, e a direção sabe ampliar as memórias claustrofóbicas das longas falas em verticais panorâmicas que remetem a Victor Garcia. Mas é em "Vento Forte para um Papagaio Subir" que José Celso se dá por inteiro. Peça de ruptura, que em 1958 marcava o afastamento com a Araraquara natal, esse seu primeiro texto já prenuncia a força que o artista teria pelas décadas a vir. Sua ingenuidade, revisitada por ocasião de um emocionante reatamento com a cidade, acaba ganhando a força de um happening, e agora o universo a ser evocado é o de "Morangos Silvestres" de Bergmann. De fato, ao piano, com um Kantor enternecido, Zé Celso se revê adolescente, sob os traços do esforçado Lucas Weglinski. A impotente superproteção da mãe, a carismática Vera Barreto, se associa agora na mitologia do Oficina ao da caixa preta do palco italiano, que o menino rompe ao partir. Para não desmentir a ousadia narrada, rompe-se aqui, correndo todos os riscos, a separação entre palco e platéia, que é convidada a encarnar as várias personalidades evocadas, sempre de maneira respeitosa e cúmplice. Sendo assim, cada espetáculo é diferente do outro, podendo "acontecer" ou não. Na última apresentação, no Festival de Teatro de São José do Rio Preto, contando com o ilustre diretor russo Vassiliev na platéia, que não se acanhou com a comunhão, foi um momento inesquecível. Ao mesmo tempo retorno as raízes e eterno reescrever dos sonhos de juventude, o Oficina vive dias intensos.


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