SESSÃO DO STF RESTAURA A PRIMAZIA DE APOLO SOBRE DIONISOS Quando um crítico de teatro é convidado para comentar uma sessão do STF, a primeira impressão que se tem é de uma prévia descrença sobre a possibilidade de se chegar a alguma verdade, nesse império de meias verdades que se tornou a democracia brasileira. Tudo é teatro: a maioria dos espectadores da TV Senado já há muito formou sua convicção de culpa dos envolvidos, desde os tempos empolgantes em que cada depoimento era acompanhado como um capítulo de um tragicômico reality-show, e agora o único interesse de uma audiência em queda franca seria acompanhar os recursos jurídicos até que o caso morra no limbo da prescrição. No empolgante início havia o arauto Jefferson, que chegou a aquecer a voz e o público com vocalizes de ópera, e dominava a cena com bruscas variações de tom e ritmo, alternando causos espirituosos com arroubos retóricos camicases, arremetendo contra um rival que o completava – havia algo de eminência parda, de Cardeal Richelieu em José Dirceu. Por sua vez, Marcos Valério, com seu físico de clown shakespeareano, garantia a diversão bufa, com uma esperteza cândida – com a participação especial de Duda Mendonça, que compunha a dupla de publicitários com sua barba de Pantalone e sua ciência da lágrima na hora certa. O espetáculo, porém, já se desgastou muito, depois das várias reprises, cada vez mais paródicas. A súplica de Joaquim Roriz foi piegas como os piores melodramas, e Renan Calheiros foi tudo que restou como galã do consagrado triângulo amoroso político-amante-dinheiro público. Virou conversa para boi dormir. Agora no âmbito técnico da justiça, no qual o jogo de cena não é mais para o eleitor, mas para o cidadão, no maior julgamento da história do STF, a retórica mais profissional dos advogados poderia anunciar a volta do circo. Não foi, e ainda bem. O dia de quarta foi uma tediosa sucessão de togas negras aqui e ali tintas por uma gravata vermelha, e retóricas comedidas, como se fosse um espetáculo não de três mas de dezenas de tenores, com seus egos pesados no cronômetro da justiça. Evocações de efeito pipocavam nos prólogos: o chinês diante do tanque, a invasão da faculdade de direito, a metáfora de Saramago sobre a cegueira... mas tudo soava como uma amostragem rápida, já que as verdadeiras prima-donas dessa ópera se reservaram o direito de ficar em silêncio, Jefferson se colocando como cego, e Dirceu, como mudo, na ambição talvez de ganharem por WO. Diante da inesperada civilidade, começa a ganhar corpo a esperança que esse teatro político brasileiro possa honrar o nome de teatro, passando não mais a evocar uma farsa histriônica mas o digno comedimento da “Eumênides” de Ésquilo. Esta peça, que retrata a fundação mítica do tribunal do Aréopago na democracia grega, ilustra bem qual a função para a qual o teatro foi criado: estruturar-se como um julgamento de atos, para embasar as leis da polis. Sob o firme e sereno comando de Ellen Grace – que tem todo o perfil de Pallas Atena – resta torcer para que o distanciamento racional volte a reger a justiça. Mais Apolo, menos Dionísos: afinal, a forma mais degradante de se expor a falha dos poderosos é através da farsa bufa.


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