Na Moita


22/08/2007


SESSÃO DO STF RESTAURA A PRIMAZIA DE APOLO SOBRE DIONISOS

 

Quando um crítico de teatro é convidado para comentar uma sessão do STF, a primeira impressão que se tem é de uma prévia descrença sobre a possibilidade de se chegar a alguma verdade, nesse império de meias verdades que se tornou a democracia brasileira.

Tudo é teatro: a maioria dos espectadores da TV Senado já há muito formou sua convicção de culpa dos envolvidos, desde os tempos empolgantes em que cada depoimento era acompanhado como um capítulo de um tragicômico reality-show, e agora o único interesse de uma audiência em queda franca seria acompanhar os recursos jurídicos até que o caso morra no limbo da prescrição.

No empolgante início havia o arauto Jefferson, que chegou a aquecer a voz e o público com vocalizes de ópera, e dominava a cena com bruscas variações de tom e ritmo, alternando causos espirituosos com arroubos retóricos camicases, arremetendo contra um rival que o completava – havia algo de eminência parda, de Cardeal Richelieu em José Dirceu. Por sua vez, Marcos Valério, com seu físico de clown shakespeareano, garantia a diversão bufa, com uma esperteza cândida – com a participação especial de Duda Mendonça, que compunha a dupla de publicitários com sua barba de Pantalone e sua ciência da lágrima na hora certa.

O espetáculo, porém, já se desgastou muito, depois das várias reprises, cada vez mais paródicas. A súplica de Joaquim Roriz foi piegas como os piores melodramas, e Renan Calheiros foi tudo que restou como galã do consagrado triângulo amoroso político-amante-dinheiro público. Virou conversa para boi dormir.

Agora no âmbito técnico da justiça, no qual o jogo de cena não é mais para o eleitor, mas para o cidadão, no maior julgamento da história do STF, a retórica mais profissional dos advogados poderia anunciar a volta do circo.

Não foi, e ainda bem. O dia de quarta foi uma tediosa sucessão de togas negras aqui e ali tintas por uma gravata vermelha, e retóricas comedidas, como se fosse um espetáculo não de três mas de dezenas de tenores, com seus egos pesados no cronômetro da justiça. Evocações de efeito pipocavam nos prólogos: o chinês diante do tanque, a invasão da faculdade de direito, a metáfora de Saramago sobre a cegueira... mas tudo soava como uma amostragem rápida, já que as verdadeiras prima-donas dessa ópera se reservaram o direito de ficar em silêncio, Jefferson se colocando como cego, e Dirceu, como mudo, na ambição talvez de ganharem por WO.

Diante da inesperada civilidade, começa a ganhar corpo a esperança que esse teatro político brasileiro possa honrar o nome de teatro, passando não mais a evocar uma farsa histriônica mas o digno comedimento da “Eumênides” de Ésquilo. Esta peça, que retrata a fundação mítica do tribunal do Aréopago na democracia grega, ilustra bem qual a função para a qual o teatro foi criado: estruturar-se como um julgamento de atos, para embasar as leis da polis. Sob o firme e sereno comando de Ellen Grace – que tem todo o perfil de Pallas Atena – resta torcer para que o distanciamento racional volte a reger a justiça. Mais Apolo, menos Dionísos: afinal, a forma mais degradante de se expor a falha dos poderosos é através da farsa bufa.

 

Escrito por Sérgio às 19h12
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BORTOLOTTO ENFRENTA A MORTE EM PEÇA CURTA

 

“Uma Pilha de Pratos na Cozinha” é uma peça de ocasião, como muitas na carreira de Mario Bortolotto: foi uma das sete que compunha o projeto “E se Fez a Praça Roosevelt em 7 Dias”, maratona de inéditos como costuma promover o grupo Satyros. Destacando-se das demais, fez carreira breve que se encerra essa semana.

Bortolotto escreve sem revisar, mas não gosta que lhe mudem o texto. Prova de fé em seu taco. Extrai a essência de um meio que ele conhece bem, a geração beat paulistana, de modo quase instantâneo, mas o desleixo é só aparente. Menospreza cenários para valorizar os atores para quem escreve, em geral cenas únicas quase em tempo real, separadas por breves lapsos de tempo na melhor tradição da geração de Plínio Marcos, José Vicente e Consuelo de Castro.

Seus diálogos têm um humor ácido e seus personagens muitas vezes parecem sair do universo dos quadrinhos, mas nessa auto ironia depreciativa a dor e a solidão são panos de fundo constantes.

 Assim, neste texto, temos um domingo aparentemente banal na vida vazia de quase amigos. Otávio Martins faz com sua habitual sutileza e profundidade um ex-traficante em depressão, tem que dosar a adrenalina de um músico de bar freqüentador constante de sua casa, feito de modo hilário por Alex Gruli. A chegada do zelador, Eduardo Chagas, que se apresenta como “evangélico e viado enrustido” não ajuda a animar o dono desse apartamento decadente, do qual se vê ao fundo a pilha de pratos que espera ser lavada.

Paula Cohen chega para mudar o tom: causa da depressão de seu namorado, revela sem maiores rodeios que está com uma doença terminal. Intensa, sem cair na auto-piedade, não dá detalhes: o naturalismo de Bortollo não perde tempo com isso. O humor se torna cada vez mais desesperado, e aflora uma angústia existencial que já marcava uma peça anterior, “Homens, Santos e Desertores”.

Talvez justamente pela sua despretensão, essa peça menor, quase um esboço, aponta para um aprofundamento do teatro de Mario Bortolotto. Não há piadas que façam esquecer a morte. Já não é mais tempo de deboche. A geração está madurecendo, e alguém precisa começar a lavar os pratos. (bom)

Escrito por Sérgio às 13h00
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