olhos de vodca
descongela meu coração polar
a praça emboca no meu copo
olhos de vodca
descongela meu coração polar
a praça emboca no meu copo
Patrick Marber acredita que o que fica de um grande amor é a lembrança dos primeiros momentos e dos últimos. Sua peça “Closer” é inteiramente construída sobre isso: permutas entre dois casais, com eternos retornos de pequenos clichês e gestos casuais, um “huis clos” com uma simetria tão rigorosa e delicada quanto Marivaux ou o Marquês de Sade.
A versão cinematográfica de Mike Nichols pode ter dado a impressão de um excesso de intelectualidade, um jogo para iniciados, tedioso para os “normais”. Nada disso se vê no palco do teatro Augusta. Como avisa Marber em um depoimento exclusivo para o programa da peça, “É só uma história que eu escrevi. Nada mais, nada menos”.
Assim, a peça deve ficar inteiramente na mão dos atores para ser eficiente, qualquer sofisticação do encenador vira uma diversão incômoda. Tiveram razão Amazyles de Almeida, Daniel Faleiros, João Carlos Andreazza e Rachel Ripani em assumir a responsabilidade pelo sentido do espetáculo, com sob o atento olhar externo de Florência Gil e uma precisa direção de movimento de Marco Aurélio Nunes. O cenário de Chris Aizner e Pedro Ivo Pisano é um discreto caleidoscópio em preto e branco, assim como o figurino de Aizner, que assinala em vermelho só o que é relevante.
Cartas na mesa, o jogo pode ser seguido com uma lucidez maior que na grande tela. Coincidências e atos falhos vão ganhando a platéia para a trama instigante, um quebra cabeça a ser montado muito tempo depois da última cena, com a memória de cada um na platéia já mesclada à memória dos personagens.
Isso demonstra que a função do diretor não é imprescindível? Infelizmente não. Apesar de toda inteligência dos que contam a história, falta uma direção de atores, sobretudo nos momentos de vulnerabilidade. Assim, a crise de choro de Alice ganharia com mais sutileza de Ripani, a trilha precisaria ser menos cinematograficamente eficiente ao criar climas desnecessários. As marcas minuciosas precisam ser mais incorporadas pelos atores – são belas, mas parecem roupas novas demais.
Nada disso tira a importância da montagem. Seja qual for o seu grau de “normalidade”, Closer reabre velhas feridas que sempre precisam ser cuidadas, e nessa lente de aumento cabe muita coisa. De perto, ninguém é normal. (bom)
O CIRCO, MUITO ALÉM DO NARIZ VERMELHO
A rápida passagem do grande Leo Bassi por São Paulo serviu para lembrar o quanto o ofício de palhaço está longe da triste animação de festas infantis ou da patética abordagem nos faróis. Carregando com orgulho o fardo de bufão, que tem como responsabilidade denunciar a insânia do mundo “sério”, de terno e gravata no lugar do nariz vermelho –já que uma rede de fast food usurpou o uniforme dos palhaços, ele se apropria do uniforme dos executivos, segundo justifica – Bassi é capaz de girar um piano no ar com os pés só para demonstrar a gratuidade da arte, e se questionar sobre isso.
Esse ponto de intersecção entre o teatro de vanguarda e as técnicas ancestrais de circo não depende no entanto da honrosa visita para ser apreciado: São Paulo está repleto de palhaços, no sentido nobre do termo. Fernando Sampaio e Domingos Montagnier continuam capitaneando a lona do Circo Zanni, agora no Memorial da América Latina, até o fim do mês. A Intrépida Trupe, em Metegol, faz homenagem ao pebolim por meio da acrobacia aérea, no Teatro santa Cruz, enquanto que Ésio Magalhães e Andréa Macera honram Shakespeare em “A Julieta e o Romeu” no Teatro Fábrica São Paulo.
Mas quem busca pela técnica pura do palhaço pode encontrá-la no SESC Paulista, em “Cravo, Lírio e Rosa” do grupo Lume. Nada de muito inovador, como nos exemplos anteriores, mas a aparente simplicidade do espetáculo é fruto de décadas de apuração.
Quem conhece Carlos Simioni de espetáculos anteriores do Lume, quase iniciáticos, vai se surpreender em vê-lo assim, entregue generosamente ao ridículo. É como se, depois do sutilíssimo “Sopro”, Simioni tivesse como um anjo nô ultrapassado o limite ultra violeta do etéreo, e ressurgisse de um buraco, no outro extremo do espectro, infra-vermelho, coberto de terra. Mas ainda é o mesmo, o que comprova que o palhaço não é um espelho deformante, mas uma lente de aumento: rindo de si mesmo, caricaturiza sua vaidade em esticar posturas, vestindo-se de mulher para exorcisar a androginia de outras épocas, humanizando-se para continuar evoluindo.
Porém, seu grande trunfo é de passar a bola. Assim como a arquetípica dupla portô/ volante, do trapézio de vôo, sua função enquanto palhaço branco é dar um suporte seguro para que seu parceiro brilhe.
E como brilha. Ricardo Puccetti faz o Lume voltar a suas origens de rua, antes mesmo de Luis Otávio Burnier chegar como arquiteto da preciosa trajetória que segue até hoje. Com a prática de contracenar ao acaso com cada um na platéia, pondo no bolso crianças e críticos, pode passar horas batendo bola, sem que o tempo passe. A maquiagem que encomprida ainda mais seu rosto faz com que se torne um moleque melancólico e desajeitado, que se diverte consigo mesmo, com uma ternura altamente sedutora.
Para quem se aflige com a agressividade e o escacho vulgar que se atribui desnecessariamente à função de palhaço, é bom dar uma passada pelo SESC provisório. Não é sempre que se limpa a alma assim, com o essencial. (ótimo)