Miss Saigon parte de uma premissa interessante. Adaptar a trama de Madame Butterfly, de Puccini, para o contexto da guerra do Vietnã, ferida ainda mal cicatrizada para os norte americanos. Assim, o soldado que abandona a mulher oriental com um filho para regressar ao ocidente retomou fôlego com a polêmica dos “Bui Doi”, ao pé da letra “poeira da vida” que designa as crianças de rua do Vietnã, na sua maioria filhos indesejáveis de uma mistura de raças mais ou menos forçada.
Assim, o maniqueísmo é evitado ao máximo para os padrões americanos. Apesar do sarcasmo contra o país vencedor, que trocou a miséria americanófila pela ditadura americanofóbica, há uma certa ternura pelos costumes vietnamitas: as prostitutas de Saigon são no fundo moças ingênuas casadouras, com costumes suavemente exóticos, e a partitura flerta com a dissonância de modo quase folclórico.
Nessa boa vontade de club mediterranée, a mulher legítima e americana do soldado está pronta a desculpá-lo por um romance de guerra, e até mesmo em adotar o bastardo multiracial, mas não em aceitar a outra como uma equivalente. Invasor vencido, o americano resgata seu orgulho de superpotência graças ao assistencialismo: “são filhos de todos nós”, proclamam, com a justiça da águia.
De nós, quem, cara pálida? A platéia brasileira pouco tem a se culpar por uma atitude que se repete, aliás (teremos que assumir crianças de Bagdá, também?). Embora sua força original venha de uma lavagem pública de consciência, o toque de mídea da Broadway mais comercial trasnforma tudo em produto lucrativo, quinquilharia a se espalhar pelo mundo.
E é isso que o público do Teatro Abril procura, a alto preço. Não compartilhar um sentido, mas estar a par do que faz sucesso “lá fora”. Assim, tanto faz se sequer os atores estejam informados do contexto da peça: por contrato, tem que seguir partituras vocais e gestuais estritas, sem ter a empáfia de querer criar alguma coisa no que já está internacionalmente testado.
Assim, fica difícil julgar os performers. Nando Prado tem o tipo americano devido, Lissah Martins é autenticamente oriental; Marcos Tumura já nem tanto. De qualquer forma, fica o consolo do musical permir no mundo inteiro que artistas orientais ganham um espaço sob a ribalta, e bons atores como Mauro Sousa, Marcos Tumura e Fabio Yoshihara, além das meninas do coro, podem usar a experiência como tranpolim.
Fora isso, a desolação de sempre. O tradutor (qual mesmo o nome dele?) continua fazendo uma carreira de rimador de verbos, e em seus melhores riscos conta um “jururu” rimando com “pra chuchu” e um “moleque” rimando com...deixa pra lá. O marchandising tem suas razões.
Não se trata aqui de gostar ou não de musicais, mas acreditar que um investimento milionário não se deva basear unicamente na segurança do padronizado. Os musicais do teatro Abril são tão confiáveis e insossos quanto um... deixa pra lá. Rima com “moleque”.
Uma estrela


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