Na Moita


15/09/2007


Miss Saigon parte de uma premissa interessante. Adaptar a trama de Madame Butterfly, de Puccini, para o contexto da guerra do Vietnã, ferida ainda mal cicatrizada para os norte americanos. Assim, o soldado que abandona a mulher oriental com um filho para regressar ao ocidente retomou fôlego com a polêmica dos “Bui Doi”, ao pé da letra “poeira da vida” que designa as crianças de rua do Vietnã, na sua maioria filhos indesejáveis de uma mistura de raças mais ou menos forçada.

Assim, o maniqueísmo é evitado ao máximo para os padrões americanos. Apesar do sarcasmo contra o país vencedor, que trocou a miséria americanófila pela ditadura americanofóbica, há uma certa ternura pelos costumes vietnamitas: as prostitutas de Saigon são no fundo moças ingênuas casadouras, com costumes suavemente exóticos, e a partitura flerta com a dissonância de modo quase folclórico.

Nessa boa vontade de club mediterranée, a mulher legítima e americana do soldado está pronta a desculpá-lo por um romance de guerra, e até mesmo em adotar o bastardo multiracial, mas não em aceitar a outra como uma equivalente. Invasor vencido, o americano resgata seu orgulho de superpotência graças ao assistencialismo: “são filhos de todos nós”, proclamam, com a justiça da águia.

De nós, quem, cara pálida? A platéia brasileira pouco tem a se culpar por uma atitude que se repete, aliás (teremos que assumir crianças de Bagdá, também?). Embora sua força original venha de uma lavagem pública de consciência, o toque de mídea da Broadway mais comercial trasnforma tudo em produto lucrativo, quinquilharia a se espalhar pelo mundo.

E é isso que o público do Teatro Abril procura, a alto preço. Não compartilhar um sentido, mas estar a par do que faz sucesso “lá fora”. Assim, tanto faz se sequer os atores estejam informados do contexto da peça: por contrato, tem que seguir partituras vocais e gestuais estritas, sem ter a empáfia de querer criar alguma coisa no que já está internacionalmente testado.

Assim, fica difícil julgar os performers. Nando Prado tem o tipo americano devido, Lissah Martins é autenticamente oriental; Marcos Tumura já nem tanto. De qualquer forma, fica o consolo do musical permir no mundo inteiro que artistas orientais ganham um espaço sob a ribalta, e bons atores como Mauro Sousa, Marcos Tumura e Fabio Yoshihara, além das meninas do coro, podem usar a experiência como tranpolim.

Fora isso, a desolação de sempre. O tradutor (qual mesmo o nome dele?) continua fazendo uma carreira de rimador de verbos, e em seus melhores riscos conta um “jururu” rimando com “pra chuchu” e um “moleque” rimando com...deixa pra lá. O marchandising tem suas razões.

Não se trata aqui de gostar ou não de musicais, mas acreditar que um investimento milionário não se deva basear unicamente na segurança do padronizado. Os musicais do teatro Abril são tão confiáveis e insossos quanto um... deixa pra lá. Rima com “moleque”.

Uma estrela

Escrito por Sérgio às 21h25
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11/09/2007


Dou o braço para o Gabriel torcer...

“Estação Carandiru” de Drauzio Varela vem merecendo tantas releituras em teatro, cinema e televisão por tocar fundo na ferida da violência social sem inflamá-la. Evitando o maniqueísmo, sem apologia nem estigmatização, dá nomes aos inomináveis, expondo tipos humanos complexos, que podem  comover ou fazer rir, mas nunca deixam de assumir a responsabilidade pelo que fizeram. Eis o homem, em sua condição extrema: que cada um tire sua conclusão.
O massacre ignóbil que submergiu em sangue coletivo a falha de cada indivíduo, longe de ofuscar as histórias individuais, deu uma dimensão trágica até às situações mais anódinas que Varela, em seu exercício de cidadão, colheu do longo convívio. A recomendação de uma mãe para que seu filho lesse o salmo 91 (“Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido.”), diante do desregramento espantoso do Estado, toma peso de profecia apocalíptica – um pesadelo a ser purificado pelo coletivo.
O grande mérito do adaptador Dib Carneiro Neto foi o da eficiente simplicidade. Sintetizou em dez monólogos as peças essenciais do quebra cabeças, sensível à marca registrada da prosódia de cada um: o modo de falar é uma dignidade pessoal irremovível. Trouxe como moldura o tal filho do salmo, que apresenta e conclui, em texto próprio, a dimensão do que houve.
Em bases tão sólidas, Gabriel Villela escapou da tentação da associação livre e aplicou com habilidade seus grandes méritos de encenador. Cada personagem – dois por ator – é enquadrado com adereços precisos e emblemáticos como os dos arcanos do tarô. Assim, esse prisioneiro bígamo trancado na sala de jogos manipula, como o Mago, bolas de bilhar e pebolim para ilustrar a sua narrativa. Mascate de seu passado, torna-o atraente, sem distrair o público da precariedade da sua situação natural.
O universo kitsch característico de Villela desta vez é totalmente apropriado para  caracterizar os dois travestis, distanciando ironicamente seus excessos sentimentais por meio da trilha, mas sem cair nunca no deboche: a admiração por sua dignidade e coragem prevalece sobre o riso homofóbico.
Mas nada disso bastaria se não fosse a extraordinária performance dos atores, a sua inteligência e maturidade ao se apropriarem de avatares tão sofridos. Pedro Moutinho, apesar de cumprir suas marcas com energia, ainda é um pouco ingênuo na tarefa, mas isso se nota sobretudo em contraste com o alto nível dos outros: Ando Camargo, Rodolfo Vaz e Rodrigo Fregnan estão duplamente inesquecíveis, cada um a seu modo.
O grande momento, no entanto, fica por conta de Pascoal da Conceição. Não só assume o narrador inicial e final como um spalla, dando o tom e o ritmo ao espetáculo, mas faz um velho prisioneiro com uma entrega que chega aos limites da incorporação – sem perder nunca o controle e o distanciamento irônico. É um grande momento do teatro brasileiro, que faz valer a duração um pouco dilatada do espetáculo e o desconforto das cadeiras do Oficina. (ótimo)

Escrito por Sérgio às 11h23
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