Na Moita


22/09/2007


JOSÉ VICENTE TEM A PUREZA DE SUA OBRA REAVALIADA

 

Quando um dramaturgo de 22 anos tem a sua primeira peça proclamada pelo principal crítico de seu país como “um modelo de pureza”, o fato é mais do que elogioso ao autor: é sinal de maturidade de todo o processo criativo no qual o novo é abalizado pela experiência.

No entanto, a estréia de José Vicente com “Santidade” não aconteceu em 1967, apesar da conspiração a favor de Anatol Rosenfeld, porque um general na presidência o impediu pessoalmente, considerando que qualquer obra que associasse homossexualismo e religião ofenderia os bons costumes.

Ora, o que o jovem autor fazia era retomar, de igual para igual, as inquietações de Nicholas-Arthur Rimbaud em “Un Coeur Sous la Soutane”, com plena consciência de sua pretensão: assinala a filiação com os nomes dos personagens, Nicolau e Artur – truque que iria retomar na peça seguinte, “O Assalto”, com Vítor e Hugo, que retoma as questões do autor do “Corcunda de Notre Dame”.

Assim, embora compartilhasse com seus contemporâneos Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Consuelo de Castro a mesquinha e inglória luta contra a censura, que vê na arte apenas uma insolência contra os acanhados costumes da classe média, as 12 peças de José Vicente vão se construindo em diálogo com os principais dramaturgos do século: Pinter, Osborne, Sartre, Camus, Genet...

O que há de constrangedor na censura é não só o fato de tolher por uma moral totalitária e generalisadora o que há de autêntico na criação, mas a de associá-la por muito tempo ainda ao protesto, à simples insolência de ocasião. Nelson Rodrigues, graças ao crítico Sábato Magaldi e ao encenador Antunes Filho, perdeu o sistemático rótulo de pornográfico para merecer o de arquetípico; da mesma forma, a obra de Plínio Marcos tem sido revista bem além dos limites circunstanciais do “repórter de um tempo mau”.

A morte colhe José Vicente bem em meio a uma semelhante reavaliação atemporal de suas peças, graças sobretudo aos esforços do ator Haroldo Costa Ferrari e do diretor Marcelo Drummond, que retomaram a causa de Fauzi Arap e Ivan de Albuquerque, no terreno sacro-profano da Oficina de José Celso Martinez Correa. Sua pureza vem aparecendo inteira, bem além da provocação e do deboche, como uma liturgia coerente e própria.

Livre das contigências do tempo, sua obra tem a ganhar. Que se reveja “Santidade” e o “Assalto”, que se remonte “Hoje é Dia de Rock”: tivemos um Rimbaud no Brasil, e não será nunca tarde para mergulharmos em sua obra pura.

 

Escrito por Sérgio às 17h18
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18/09/2007


Rico ri à toa

Criado para festejar o décimo ano do Cirque du Soleil, em 1994, Alegria se mantém desde então em cartaz como um favorito do seu extenso repertório (são quinze títulos apresentados simultaneamente este ano pelo mundo inteiro). O que é surpreendente para um espetáculo concebido inicialmente para flertar com o sombrio. Segundo espetáculo da companhia, propõe-se como um insolente desafio à tristeza do mundo, como revela o texto no programa do diretor Franco Dragone: “As crianças de rua não verão “Alegria”. Rir continua sendo um luxo que não está ao alcance delas. Esta noite, nossos gritos de alegria se transformarão em gritos de raiva pelos milhões de jovens corações que voltarão a congelar nos meios-fios da nossa boa vontade”.

Assim, os mestres de cerimônia do espetáculo, homens-pássaros aristocratas decadentes, alinhavam os números com um humor nostálgico por trás de suas máscaras grotescas. Fleur, um polichinelo amargo, passeia pelo público bradando “Alegria!” quase com sarcasmo, como se soubesse que seu feudo ancestral ( o velho circo?) estivesse condenado a desaparecer. Felizmente, a alegria do mundo se salva graças aos alvíssimos anjos do novo circo, anunciadores do admirável mundo novo da nova ordem social.

O inquietante expressionismo dos melhores números, como o do extraordinário clown Rénald Laurin, um amante infeliz perdido em uma estação de trem, em meio a uma nevasca, com a doce poética dos pesadelos, se dilui assim na eficácia clean, indispensável para o mercado dos hotéis de luxo de Las Vegas, principal mercado consumidor do Cirque du Soleil.

Voluntariamente ou não, há pouco alegria nesse “Alegria”. Os performers mantêm uma placidez quase triste, serenos e eficientes como condutores de trens, em uma vertiginosa sucessão de números que o set designer Michel Crête permite com inesgotável criatividade: o palco se abre para camas elásticas, a rede de proteção para o trapézio de vôo arma-se em segundos com a ajuda do próprio público, e nem sempre alegre, o espetáculo flui com constante dinamismo.

Não há razão para menosprezar o “homem-voador” Aleksandr Dobrynin, que realiza de muito perto o sonho de Peter Pan graças a uma técnica inovadora de elásticos; nem a ciência exata das “barras russas”; nem a intensa ternura de Marcos de Oliveira Casuo, que honra o alto nível dos palhaços brasileiros. Mas é de se perguntar o que há de tão novo nesse novo circo: o fio da meada dramatúrgico, ponto de honra do que deveria ser uma fusão de várias artes, se revela no fundo quase um pretexto – por que surge um anjo de muletas em meio ao número de contorcionismo?

Alegria, portanto, tem o tom de um bufão desarmado de sua insolência, como um Ghelderode tratado a fluoxetina. Bem delimitado pelos meios fios da boa vontade do patrocínio milionário, o Cirque du Soleil, concebido como revolução, se impõe hoje como uma empresa bem sucedida. Bombom embrulhado em finíssima embalagem, não deixa de ser chocolate. (razoável)

Escrito por Sérgio às 12h22
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