JOSÉ VICENTE TEM A PUREZA DE SUA OBRA REAVALIADA
Quando um dramaturgo de 22 anos tem a sua primeira peça proclamada pelo principal crítico de seu país como “um modelo de pureza”, o fato é mais do que elogioso ao autor: é sinal de maturidade de todo o processo criativo no qual o novo é abalizado pela experiência.
No entanto, a estréia de José Vicente com “Santidade” não aconteceu em 1967, apesar da conspiração a favor de Anatol Rosenfeld, porque um general na presidência o impediu pessoalmente, considerando que qualquer obra que associasse homossexualismo e religião ofenderia os bons costumes.
Ora, o que o jovem autor fazia era retomar, de igual para igual, as inquietações de Nicholas-Arthur Rimbaud em “Un Coeur Sous la Soutane”, com plena consciência de sua pretensão: assinala a filiação com os nomes dos personagens, Nicolau e Artur – truque que iria retomar na peça seguinte, “O Assalto”, com Vítor e Hugo, que retoma as questões do autor do “Corcunda de Notre Dame”.
Assim, embora compartilhasse com seus contemporâneos Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Consuelo de Castro a mesquinha e inglória luta contra a censura, que vê na arte apenas uma insolência contra os acanhados costumes da classe média, as 12 peças de José Vicente vão se construindo em diálogo com os principais dramaturgos do século: Pinter, Osborne, Sartre, Camus, Genet...
O que há de constrangedor na censura é não só o fato de tolher por uma moral totalitária e generalisadora o que há de autêntico na criação, mas a de associá-la por muito tempo ainda ao protesto, à simples insolência de ocasião. Nelson Rodrigues, graças ao crítico Sábato Magaldi e ao encenador Antunes Filho, perdeu o sistemático rótulo de pornográfico para merecer o de arquetípico; da mesma forma, a obra de Plínio Marcos tem sido revista bem além dos limites circunstanciais do “repórter de um tempo mau”.
A morte colhe José Vicente bem em meio a uma semelhante reavaliação atemporal de suas peças, graças sobretudo aos esforços do ator Haroldo Costa Ferrari e do diretor Marcelo Drummond, que retomaram a causa de Fauzi Arap e Ivan de Albuquerque, no terreno sacro-profano da Oficina de José Celso Martinez Correa. Sua pureza vem aparecendo inteira, bem além da provocação e do deboche, como uma liturgia coerente e própria.
Livre das contigências do tempo, sua obra tem a ganhar. Que se reveja “Santidade” e o “Assalto”, que se remonte “Hoje é Dia de Rock”: tivemos um Rimbaud no Brasil, e não será nunca tarde para mergulharmos em sua obra pura.


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