Na Moita


02/10/2007


PRODUÇÃO ROUBA O FOCO DO TEXTO EM UM DIA NO VERÃO

 

Uma mulher olha obsessivamente pela janela de sua casa à beira mar. Há vinte e cinco anos, seu marido saiu para velejar, houve uma tempestade imprevista e ele não voltou. Como criando vida a partir do reflexo na janela, a mulher se desdobra em duas: a de antes e a de depois do acidente.

Não haverá muito mais ação, além da reconstituição serena, com um pouco de humor até, da tragédia. Sendo uma peça de Jon Fosse, o conteúdo está na forma, com diálogos trabalhados ritmicamente como se fosse música erudita, sendo que aqui o contraste brusco entre diálogos ansiosos e longos silêncios evoca o barulho do mar.

Monique Gardenberg se cercou de uma equipe competente e garantiu um grande luxo de produção. O cenário de Helio Eichbauer é de tirar o fôlego, com requintes naturalistas de um amplo mar projetado ao fundo durante toda a peça, além de uma chuva cinematográfica, com direito a rajadas de vento pela janela aberta, e a bela luz de Maneco Quinderê.

Grande trunfo da montagem, a rica produção logo se torna porém seu principal problema. Deslumbra nos primeiros momentos, e depois ofusca totalmente o delicado texto, ao reiterá-lo sistematicamente. A trilha sonora tem igualmente uma eficácia redundante, criando climas como de novela.

Sabendo organizar o espetáculo, Gardenberg deixa os atores à deriva nessa tempestade. Rodam a esmo pelo palco, sem graduar a tensão, e até mesmo a protagonista-narradora não acrescenta em nada à dor ou solidão que tinha vinte e cinco anos antes. Entre o melancólico dia de verão e o terrível dia de inverno, décadas antes, não há nenhum contraponto.

Não é incompetência dos atores: Silvia Buarque está segura e concentrada, Renata Sorrah faz questão de demonstrar que sabe ficar contida em cena, em contraste a seu histriônico desempenho na televisão, e os outros atores, em participações menores, são eficientes, verossímeis. Mas não há nenhuma leitura aprofundada, não há direção de ator, além da marca mais ou menos eficaz.

E com tal superficialidade, o texto de Fosse se torna insuportavelmente monótono. Lindo, mas tedioso – como os personagens se referem à própria casa em que estão – é de se perguntar por que se escolher fazê-lo, além de Fosse estar na moda. Comparando estratégias, e não resultados, com um centésimo de recursos, mas se concentrando na performance dos atores, Roxo, montagem de outro texto seu, o defende com muito mais vigor.

“Um dia, No verão” conta com um belíssimo set de cinema, e eficientes atores de televisão. Falta teatro. (medíocre)

Escrito por Sérgio às 11h37
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01/10/2007


botão

 

Mais que espetáculo, é uma vivência o que se propõe. O público é recebido pela diretora, com um carinho especial para a fila de espera, e pode assistir os atores se prepararem na coxia – atores que servirão o jantar proposto entre as duas peças. No palco, tudo é cena: a varreção do palco, a montagem do cenário também concebido pelos atores, o ato de se maquiar. Fiel ao princípio de Jean Vilar, “o teatro serviço público, como a luz e o gás”, e à utopia dos falanstérios de Fourier, não há glamour no Théâtre du Soleil, logo tudo é ritual.

Escrito por Sérgio às 10h43
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V.O.

 

C'est l'histoire d'une femme qui pose sur le portail d'une petite maison de banlieue la pancarte: “À vendre”. Noyée dans le deuil de sa mère, et regrettant son jardin abandoné, elle sera abordée un instant aprés par la passion papillonne d'un père récent qui, voyant là une “affaire”, parie sur un coup de chance et appelle son notaire pour rediger un acte de vente triste comme un faire-part.

Tout est lá, joué em quelques secondes. Les désirs croisés tissent “Les Ephemères”, le dernier spectacle du Théâtre du Soleil, une saga intime em deux parties de plus de trois heures chacune, enjambant les genres et les générations. Les règles du jeu sont données, discrètement et clairement: le portail divise l'aire de jeu en deux directions oposées; vers le nord, le pragmatisme masculin vise l'extérieur et l'avenir, cassant sans hésiter toute ilusion. Derrière lui, vers le sud (d'où on peut lire l'invers du message: “vendu”) l'intérieur de la maison, l'intimité affective et féminine de la mémoire et du rêve, qui muscle l'imagination.

Faites vos jeux: ce sera le conflit un peu manichéiste entre ces deux univers. Casse têtes minucieux, composé par les souvenirs personels de la troupe elle même, aprés neuf mois d'improvisations filtrées par le rire et les larmes d'Arianne Mnouchikine, ce réseau de petites scénes em hai-ku est servi sur plateaux roulants, autant d'îles utopiques envoyant des messages de naufragés, a êtres lues de gauche à droite par les spectateurs de l'ouest, ou de droite à gauche par ses antipodes orientaux.

Ainsi, placés face a face sur des gradins, comme dans un cours d'anatomie ou un tribunal révolutionnaire, mais eux aussi donnés en spectacle grâce à un éclairage discret, les spectateurs seront invités à reflechir sur eux-mêmes. Les plateaux roulants font penser aux machinismes des tragédies grecques, lorsque l'horreur trop intime était presentée en forme de compositions figées destinées à la contemplation rationnelle, mais aussi aux alégories simultanées des mansions médievales – une impression doublée par la régie de som, sur un balcon d'où le compositeur Jean-Jacques Lemêtre, dieu équilibriste muni de tous les violoncelles possibles et imaginaires, envoye la pluie et le bon temps.

C'est le tempo, d'ailleurs, la matière première du spectacle. Ce temps précieux qu'on ne voit passer que quand c'est trop tard, quand les accidentés de la route ne respirent plus, ou qu'on offre en forme de tarte aux pommes qu'on attend sortir du four. On ne se presse pas sur scène, jusqu'au mystère; on apprend à voir. Tel est le sens d'une autre scène emblematique, lorsque Perle, vieille clocharde allumée qui se croit enceinte, se soumet à une échographie: “je ne vois rien”, proteste-t-elle. “Vous voyez, mais vous ne comprennez pas”, répond son médécin, la compatissante Nelly,“et je comprends que vous ne comprennez pas”. C'est le sous texte des pousseurs de décors, qui avec le même sourire respectueux tournent les acteurs comme dans un film, en proposant un regard en travelling circulaires, em fondus-enchainés, em flash-backs.

Distanciés et vulnérables, les acteurs, s'alternant en importance et touchant tous la même somme dans ce phalanstère de la cartoucherie, sont uniques, que se soit la multiple Delphine Cottu, l'inoubliable Shaghayegh Beheshti, la délicate sagesse de Juliana Carneiro da Cunha, l'arrogante génerosité de Olivia Corsini, la force de Serge Nicholai et la suavité de Jeremy James, l'humour bon enfant de Maurice Durozier et l'étonnante maturité des enfants. Chaque scène se déploye dans un labyrinthe en philigrane proustien, qui en principe constitue un paneau complet d'époques et de classes sociales, et si on y perd souvent le fil d'Arianne, la valeur symbolique de chaque anedote l'approfondit en couches infinies.

Ainsi, lorsque Perle donne à Nelly un caillou, en lui suppliant de le garder dans un verre d'eau, comme une plante, on peut évoquer la pierre blanche qui marque les jours de grande joie et les souvenirs qui blessent secretement comme un caillou dans la chaussure, jusqu'a se rappeler que c'était un caillou ce qui calait le portail entre le passé et l'avenir de la toute première scène, et qu'il faut empécher de nuire.

Non, la mémoire et le rêve ne sont pas à vendre, mais à partager – comme cette bouleversante aventure du Théâtre du Soleil.


Sérgio Salvia Coelho

Escrito por Sérgio às 10h16
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algo de novo sob o sol

TEMPO É A MATÉRIA PRIMA DE "LES EPHEMÈRES"

Uma mulher coloca no portão de uma casinha de periferia o aviso: “Vende-se”. Mergulhada na dor do luto pela mãe, será abordada segundos depois por um pai recente que, vendo aí uma oportunidade, fecha negócio imediatamente. São desejos cruzados assim que tecem “Les Éphémères”, o último espetáculo do Théâtre du Soleil, uma saga íntima em duas partes de mais de três horas cada, sintetizando gêneros e gerações.

As regras estão dadas, com clareza e discrição: o portão divide a área cênica em direções opostas; ao norte o pragmatismo masculino, voltado para o externo e o futuro, impedindo qualquer ilusão. Atrás dele, ao sul (de onde se pode ler o inverso da mensagem: “vendido”), o interior da casa, intimidade afetiva e feminina da memória e do sonho.

Façam suas apostas; será o conflito um pouco maniqueísta entre esses dois mundos. Minucioso quebra-cabeças, feito por lembranças pessoais do elenco, depois de nove meses de improvisações filtradas pelas lágrimas e risos de Ariane Mnouchkine, são hai-kais a serem lidos pela platéia em duas arquibancadas íngremes, frente a frente, como em um anfiteatro de anatomia ou um tribunal revolucionário.

As cenas vêm montadas em praticáveis sobre rodas, como nas tragédias gregas ou nas alegorias do teatro medieval, impressão reforçada pelo deus ex máquina Jean-Jacques Lemêtre, que, cercado por todos os cellos possíveis e imaginários, manda lá de cima sua trilha, como se fosse a chuva ou o bom tempo.

Tempo, aliás, é a matéria prima do espetáculo. Ninguém se apressa no palco, até o banal se tingir de mistério: aprende-se a ver. A velha mendiga Perle, que se crê grávida, protesta durante a ecografia: “Não vejo nada”. “Vê sim, mas não entende”, retruca sua médica, a benévola Nelly, “e eu entendo que você não entenda”. É o subtexto dos que empurram o cenário, que com agilidade de cameramen propõem travellings circulares, fades e flash backs.

Distanciados e vulneráveis, em igualdade de salário e responsabilidade, os atores parecem íntimos do público, seja a múltipla Delphine Cottu, a inesquecível Shaghayegh Beheshti, a sábia e delicada Juliana Carneiro, a generosamente arrogante Olivia Corsini , o forte Serge Nicholai e o suave Jeremy James, o humor bonachão do veterano Maurice Durozier e a extraordinária maturidade das crianças em cena.

As cenas se desdobram em labirintos proustianos da memória e, mesmo quando obscuras, têm um valor simbólico que as aprofunda em camadas infinitas. Assim, quando Perle suplica à Nelly que mantenha uma pedra em um copo d'água, tudo passa a fazer sentido quando se lembra que era uma pedra o que mantinha fechado o portão que separava na primeira cena o passado e o futuro. Assim, o olhar treinado daquele que procura entender lucra com a intuição dos que sabem ver, em uma generosidade em mão dupla. O sonho e a memória não são bens que se vendem, mas uma experiência que se compartilha, como esta transformadora aventura do Théâtre du Soleil.(ÓTIMO)

Escrito por Sérgio às 10h15
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