PRODUÇÃO ROUBA O FOCO DO TEXTO EM UM DIA NO VERÃO
Uma mulher olha obsessivamente pela janela de sua casa à beira mar. Há vinte e cinco anos, seu marido saiu para velejar, houve uma tempestade imprevista e ele não voltou. Como criando vida a partir do reflexo na janela, a mulher se desdobra em duas: a de antes e a de depois do acidente.
Não haverá muito mais ação, além da reconstituição serena, com um pouco de humor até, da tragédia. Sendo uma peça de Jon Fosse, o conteúdo está na forma, com diálogos trabalhados ritmicamente como se fosse música erudita, sendo que aqui o contraste brusco entre diálogos ansiosos e longos silêncios evoca o barulho do mar.
Monique Gardenberg se cercou de uma equipe competente e garantiu um grande luxo de produção. O cenário de Helio Eichbauer é de tirar o fôlego, com requintes naturalistas de um amplo mar projetado ao fundo durante toda a peça, além de uma chuva cinematográfica, com direito a rajadas de vento pela janela aberta, e a bela luz de Maneco Quinderê.
Grande trunfo da montagem, a rica produção logo se torna porém seu principal problema. Deslumbra nos primeiros momentos, e depois ofusca totalmente o delicado texto, ao reiterá-lo sistematicamente. A trilha sonora tem igualmente uma eficácia redundante, criando climas como de novela.
Sabendo organizar o espetáculo, Gardenberg deixa os atores à deriva nessa tempestade. Rodam a esmo pelo palco, sem graduar a tensão, e até mesmo a protagonista-narradora não acrescenta em nada à dor ou solidão que tinha vinte e cinco anos antes. Entre o melancólico dia de verão e o terrível dia de inverno, décadas antes, não há nenhum contraponto.
Não é incompetência dos atores: Silvia Buarque está segura e concentrada, Renata Sorrah faz questão de demonstrar que sabe ficar contida em cena, em contraste a seu histriônico desempenho na televisão, e os outros atores, em participações menores, são eficientes, verossímeis. Mas não há nenhuma leitura aprofundada, não há direção de ator, além da marca mais ou menos eficaz.
E com tal superficialidade, o texto de Fosse se torna insuportavelmente monótono. Lindo, mas tedioso – como os personagens se referem à própria casa em que estão – é de se perguntar por que se escolher fazê-lo, além de Fosse estar na moda. Comparando estratégias, e não resultados, com um centésimo de recursos, mas se concentrando na performance dos atores, Roxo, montagem de outro texto seu, o defende com muito mais vigor.
“Um dia, No verão” conta com um belíssimo set de cinema, e eficientes atores de televisão. Falta teatro. (medíocre)


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