GRUPO ELEVADOR PANORAMICO ATINGE A MATURIDADE COM "EU ESTAVA EM MINHA CASA..."
O ano Lagarce, ao comemorar no mundo todo o cinquentenário do autor francês, que ao morrer aos 38 anos deixou 25 peças traduzidas em mais de 15 línguas, já havia gerado "História de Amor (Últimos Capítulos)", que revitalizou o Teatro da Vertigem. Agora, com "Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse", proporciona a maturidade para Cia Elevador de Teatro Panorâmico de Marcelo Lazzaratto.
Mais representado na França do que Racine e Tchekhov, Jean-Luc Lagarce tem a síntese elegante do ator clássico e a profundidade psicológica do autor russo. "Eu Estava em Minha Casa" reune temas recorrentes do autor: depois de uma violenta briga com o pai, o filho mais novo sai de casa para reaparecer anos depois, com uma doença terminal. Ao lado do quarto onde agoniza, cinco mulheres remoem lembranças e expectativas, noite adentro.
Definidas no texto apenas por suas idades, surgem como a avó, a mãe e as três irmãs do protagonista invisível. Mas cada uma vivendo no universo próprio de sua idade, podem também ser a mesma personagem desdobrada e presa em um buraco espaço-temporal, como uma síntese surpreendente de "Esperando Godot" e a "Casa de Bernarda Alba".
Com um texto difícil nas mãos, Lazzaratto dobrou a aposta ao convidar Miriam Mehler para contracenar com as atrizes-alunas de sua companhia. Desta vez, seu método de "campo de visão" não rouba mais o foco e gera uma marcação precisa, caleidoscópica, dessas cinco mulheres girando em torno de seis cadeiras (uma fica vazia, ecoando a dor da ausência). Junto com a luz um pouco complicada demais, mas de grande beleza, Lazzaratto honra seu mestre Márcio Aurélio.
Mehler contagia o elenco com seu olhar atento e enternecido, e a sua imponência hierárquica, com gestos que resgatam os tempos áureos do teatro Brasileiro de Comédia, tem um contraponto no frescor de Juliana Pinho, a irmã mais nova. Um pouco mais empostada, Marina Vieira garante bons momentos, enquanto que Grácia Navarro, atriz convidada, não tem a força exigida pelo personagem da mãe. Mas a grande surpresa fica por conta de Carolina Fabri, que assume a irmã mais velha, espinha dorsal da trama, com um vigor e segurança impressionantes.
A boa tradução de Maria Clara Ferrer e o figurino elegante e inteligente de Márcio Tadeu contribuem também para que, com essa montagem marcante, o Elevador ultrapasse a etapa dos exercícos abertos para conquistar o primeiro time das companhias paulistas. (BOM)


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