Na Moita


16/11/2007


GRUPO ELEVADOR PANORAMICO ATINGE A MATURIDADE COM "EU ESTAVA EM MINHA CASA..."

O ano Lagarce, ao comemorar no mundo todo o cinquentenário do autor francês, que ao morrer aos 38 anos deixou 25 peças traduzidas em mais de 15 línguas, já havia gerado "História de Amor (Últimos Capítulos)", que revitalizou o Teatro da Vertigem. Agora, com "Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse", proporciona a maturidade para Cia Elevador de Teatro Panorâmico de Marcelo Lazzaratto.

Mais representado na França do que Racine e Tchekhov, Jean-Luc Lagarce tem a síntese elegante do ator clássico e a profundidade psicológica do autor russo. "Eu Estava em Minha Casa" reune temas recorrentes do autor: depois de uma violenta briga com o pai, o filho mais novo sai de casa para reaparecer anos depois, com uma doença terminal. Ao lado do quarto onde agoniza, cinco mulheres remoem lembranças e expectativas, noite adentro.

Definidas no texto apenas por suas idades, surgem como a avó, a mãe e as três irmãs do protagonista invisível. Mas cada uma vivendo no universo próprio de sua idade, podem também ser a mesma personagem desdobrada e presa em um buraco espaço-temporal, como uma síntese surpreendente de "Esperando Godot" e a "Casa de Bernarda Alba".

Com um texto difícil nas mãos, Lazzaratto dobrou a aposta ao convidar Miriam Mehler para contracenar com as atrizes-alunas de sua companhia. Desta vez, seu método de "campo de visão" não rouba mais o foco e gera uma marcação precisa, caleidoscópica, dessas cinco mulheres girando em torno de seis cadeiras (uma fica vazia, ecoando a dor da ausência). Junto com a luz um pouco complicada demais, mas de grande beleza, Lazzaratto honra seu mestre Márcio Aurélio.

Mehler contagia o elenco com seu olhar atento e enternecido, e a sua imponência hierárquica, com gestos que resgatam os tempos áureos do teatro Brasileiro de Comédia, tem um contraponto no frescor de Juliana Pinho, a irmã mais nova. Um pouco mais empostada, Marina Vieira garante bons momentos, enquanto que Grácia Navarro, atriz convidada, não tem a força exigida pelo personagem da mãe. Mas a grande surpresa fica por conta de Carolina Fabri, que assume a irmã mais velha, espinha dorsal da trama, com um vigor e segurança impressionantes.

A boa tradução de Maria Clara Ferrer e o figurino elegante e inteligente de Márcio Tadeu contribuem também para que, com essa montagem marcante, o Elevador ultrapasse a etapa dos exercícos abertos para conquistar o primeiro time das companhias paulistas. (BOM)

Escrito por Sérgio às 14h04
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14/11/2007


"Le Bal", filme de Ettore Scola baseado na peça de Jean-Claude Penchenat, conquistou admiradores fanáticos com seu tema simples: a história da França narrada através de um dancing de subúrbio, desde a vitória socialista em 1936 até o ano do lançamento do filme, 1983, passando pela ocupação nazista, maio de 68, a discoteca... sem que uma palavra fosse necessária.

Este extraordinário painel de pequenos rituais sociais, feito por linguagem não verbal, "gestus" brechtianos, coreografias de época, deram uma popularidade sem precedentes ao teatro-dança.

Tássia Camargo conseguiu realizar o sonho de todo fã brasileiro do "Baile": fez a versão brasileira. Assim, contando com uma meticulosa recriação de roteiro por Valderez Cardoso Gomes e a direção de José Possi Neto, que tanto já militou no teatro dança, produziu um espetáculo divertido e muitas vezes comovedor, que se sai bem na difícil tarefa de constituir uma espécie de museu imaginário do cotidiano do século passado.

Vai da morte de Getúlio, em 1954, até o "baile da saudade" atual, passando sem vistas grossas pelos traumáticos anos de 1964, ainda com ironia, e 1968, chegando ao trágico.

Apesar de retomar desnecessáriamente algumas referências ao espetáculo original (como a moça míope, ou a música-tema "J'Attendrai", que ficam perdidos na trama) este "Baile" tem pelo menos um momento de epifania: quando Maria Salvadora, até então no papel de empregada, entoa com uma voz imprevisivelmente maravilhosa o "Opinião" de Zé Ketti, assumindo assim uma outra dignidade em cena. Emblemática também é a cena do velório de um estudante morto, no calabouço do bar estudantil: uma lanterna é apontada para a platéia, como um farol em busca da sua memória afetiva.

Assim, o que pode haver de confuso e longo no espetáculo fica em segundo plano: mesmo para quem não conhece o filme francês, "O Baile" é imperdível. (tres estrelas)

Escrito por Sérgio às 20h20
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Mais conhecido no Brasil pelo filme Segredos e Mentiras, Mike Leigh tem um universo próprio e marcante, não só em relação a seus temas - em geral, comédias de situação a partir da vida medíocre da classe média ou operária inglesa, durante a era Tatcher, relatada sem qualquer concessão- mas também em relação a seus procedimentos.

Tanto em suas peças como em seus filmes, parte em geral de longos improvisos junto aos atores. Ficou famosa a cena de Segredos e Mentiras na qual uma mãe encontra a filha dada a adoção pela primeira vez: filmada sem cortes, em um restaurante no qual tanto personagens quanto atrizes se encontravam pela primeira vez, durante oito minutos acompanhamos a surpresa real que o diretor reservara a suas 'cobaias": a mãe era branca e a filha, negra.

Esse limite entre o sitcom e a performance é particularmente eficaz quando se tem grandes atores, em cumplicidade criativa com o autor diretor - e Leight pode contar ao longo de sua carreira com estreantes do peso de Tim Roth e Gary Oldman.

A Festa de Abigaiu, de 1977, pertence a uma primeira fase do autor, quando a sátira era mais escachada do que cruel, e relata em tempo real um encontro social entre vizinhos - uma espécie de Quem tem medo de Virginia Woolf sem nenhuma veleidade intelectual. Em tempo real estrito, como um reality show, espiamos a classe média tentar manter a pose de alguma sofisticação, até que tudo se desfaça em histeria e bebedeira, chegando quase à anarquia da Cantora Careca de Ionesco.

Esta primeira montagem brasileira, apontada como melhor peça do 11 Festival da Cultura Inglesa, reestréia no teatro Augusta em horário alternativo, e já com grande prestígio, apesar de ser a primeira direção do cineasta Mauro Baptista Védia, e de contar no elenco com alguns artistas tarimbados mas não conhecidos do grande público.

Assim, a protagonista e tradutora Ester Laccava, que faz Beverly, a anfitriã vulgar que humilha o marido diante das visitas, exerce bem um personagem que lhe cai como uma luva, ao mesmo tempo irritando e enternecendo o público, com grande empatia. Marcos Cesana faz Tony, um operário que sobe na vida, e que é ao mesmo tempo objeto de desejo de Beverly e de desprezo do patético marido Lawrence (Eduardo Estrela). Cesana parece se divertir muito com o papel, o que é sempre contagioso, mas lhe falta um pouco de concentração para não rir de si mesmo, em um personagem rude e mal humorado. Estrela mantém maior naturalidade, mas não consegue ultrapassar o convencionalismo que limita o personagem.

Ãngela, mulher de Tony, é uma enfermeira deslumbrada com a ascenção social, e Ana Andreatta opta pela caricatura aberta, o que é eficiente mas se desgasta logo. Melhor estratégia é a de Fernanda Couto,que faz Susan, a vizinha que já foi casada com um arquiteto, mas que agora perdeu o controle de sua própria casa: é a mãe da adolescente Abigaiu, que dá a festa na casa ao lado. Expulsa de sua própria casa e de sua antiga sofisticação intelectual, engole estoicamente sapos e amendoins, até o vômito catártico - e Couto é engraçada sem perder a delicadeza, chegando a ser trágica por vezes.

Esta multiplicidade de estilos é opção do diretor Védia, segundo ele mesmo declara em entrevistas, o que é coerente com a proposta de autonomia de criação dos atores proposta por Veigh. Mas sua inexperiência no palco logo se torna clara, com a inabilidade em administrar os ritmos difíceis do texto, fazendo com que o espetáculo se dilate e perca o impulso para a explosão final, que soa quase arbitrária, como um improviso criado na hora pelos atores, meio que puxada pelos cabelos.

É claro que a informalidade da proposta permite esse tom quase amador, o que parece não incomodar a platéia, que se diverte muito. Mas uma direção de ator que exigisse uma partitura mais apurada iria tornar o espetáculo mais inquietante e menos digestivo. Suavizado pelo deboche, engolido pelo sitcom que quer devorar, "A Festa de Abigaiu" funciona bem, mas acaba marcando muito pouco. (razoavel)

Escrito por Sérgio às 14h02
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