LUCRO EM EXCESSO QUEBRA A ESPINHA DA BROADWAY "Esses caras aí de greve são a espinha dorsal da Broadway". No site da BBC, Patrick Page, protagonista de "Dr. Seuss' How the Grinch Stole Christmas!", primeiro entre as dezenas de shows atingidos pela inédita greve do sindicato dos contra-regras, pôs o dedo na ferida. O show business, como qualquer negócio, já não aceita dar lucro apenas para os produtores. A tempestade já estava no ar há algum tempo: no fim do mês passado, a popular "Time Out" ostentava na capa um Frankenstein segurando gulosamente tickets supervalorizados. "Você pagaria 450$ por ele?" provocava a revista, que entrevistou pessoas capazes de pagar milhares de dólares em uma única noite, por "Young Frankenstein" um espetáculo que é pouco mais que um 'cover' do velho filme de Mel Brooks. De fato, depois de satirizar a falta de escrúpulos dos produtores, ressucitando assim no mercado americano, Brooks atraiu a ira geral ao assumir cinicamente o mecanismo de caça-níquel, que a Broadway exporta pelo mundo. Essa ambiguidade da paródia, de certa forma, atinge também o "Spamalot" de Eric Idle, que é essencialmente um cover do Em Busca do Cálice Sagrado de 1975, com uma guinada no roteiro apenas quando os "cavaleiros que dizem ni" exigem de Artur um show da Broadway. A Dama do Lago salva todos ao revelar que já estão na Broadway: luzinhas de árvore de Natal se acendem no cenário, em uma auto-ironia sobre os efeitos especiais que sustentam grande parte dos shows. Um velho filme temperado com efeitos especiais é a aposta de Mary Poppins, uma aguardada associação entre a Disney e Cameron Mackintosh. Sem Julie Andrews nem Dick van Dyke, resta apenas uma gigantesca casa de bonecas que sobe e desce e crianças treinadas no palco que adormecem crianças na platéia. Mas basta o final para justificar o ingresso: Ashley Brown voa até os lugares mais baratos, em grand finale democrático. Assim, nada mais justo que a "espinha dorsal", os contra-regras que mantêm o espetáculo no ar, reivindique uma parte maior do lucro. Por outro lado, se é para ver gente voando, mais lógico é conferir o segundo espetáculo do De La Guardia, fenômeno Off-Broadway de Peter Pans argentinos. "Fuerza Bruta" é um belo exorcismo coletivo do 11 de Setembro e do Katrina, com os performers, no meio da platéia em pé, recebendo estruturas de papelão na cabeça e nadando em piscinas que descem do teto, com a alegria de garotos de rua. Mas onde fica a tradição do musical americano? Onde menos se espera: em um elenco de adolescentes. Spring Awakening, adaptação do Despertar da Primavera de Frank Wedekind. Com músicas do ídolo alternativo Duncan Sheik, e tendo como estrela Lea Michele, que ingressou no projeto com apenas 14 anos, mas já era uma veterana (havia sido Cosette aos 8 anos no Les Mis) a montagem passou por seis workshops desde 1999, para ganhar este ano oito Tonys, o prêmio máximo da Broadway (Mary Poppins ficou apenas com o de melhor cenário). Qual o segredo desta renovação? Primeiro, os velhos tabus sexuais de 1891 estão todos de volta com a política de abstinência de Bush - é quase como se a cegonha estivesse de volta como explicação oficial para a reprodução humana. Com um intenso lirismo costurado por palavrões (uma das canções é registrada no cd como "Totally F****", o " f word" não podendo ser impresso) e rompendo uma marcação rígida, que remete ao The Wall do Pink Floyd, estudantes de uniforme tiram microfones do bolso e enlouquecem como nos velhos shows dos Beatles. Depois, a estética se manteve fiel à pobreza alternativa. A contra regragem é feita pelos próprios atores, em geral apenas cadeiras que entram e saem milimetricamente; os musicos estão no fundo da sala, como durante os ensaios, e no lugar do fosso da orquestra há uma escada por onde o público passa para sentar em lugares do palco - e esses lugares são disputados com meses de antecedência, inclusive por ídolos do próprio elenco como Jerry Seinfeld ou Sarah Jessica Park. Ou seja: a Broadway voltou a fazer sentido. Não que o sistema tenha se rompido. Cast calls, ou seja, testes para substituição do elenco original, estão abertos no mundo todo, mas com um detalhe importante: buscam atores-cantores dançarinos de até 21 anos. Possivelmente toda uma nova geração será descoberta assim, e esta primavera anuncia um verão inesquecível. A alternativa é sinistra: a fórmula vazia domina, torna-se uma tarefa puramente técnica e o último a sair apaga as luzes de Times Square - só restará o museu de cera de Madame Tussaud. maiores informações sobre Spring Awakening: http://br.youtube.com/watch?v=iDYlMU9CUQA http://www.thecolumnonline.com/Reviews/Broadway/broadway_reviews/SpringAwakening.html


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