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SOSLAIO PROPÕE UM ESBOÇO OBSESSIVO E MULTIMÍDIA Uma boneca com olhar matreiro, oblíquo, de soslaio, é a imagem síntese desta montagem. Imediatamente, assim, seu universo se instala: histórias de faz-de-conta, sobrepondo fluxos de consciência de seres improváveis, de sexualidade perversa polimorfa. Emiliano Tropeço é um cineasta obsessivamente em processo: há mais de uma década mantém a família refém em um set de filmagem, em um roteiro que se faz e desfaz a cada dia. Na família, cada qual tem sua própria idossincrasia: Estela, a esposa, é sonâmbula; sua irmã Martha há onze anos gesta um filho que profetiza tragédias em seu ventre, enquanto Dulce, a terceira irmã, é histérica. Enquanto isso, Ana volta à casa depois de muito tempo, em contraste com Genérico, que banido lá fora tenta desesperadamente voltar. Assumidamente inspirado em Harold Pinter, ao qual remete por seu estranhamento no cotidiano, com situações limites pouco explicadas, o texto de Priscila Gontijo é permeado por sua boa formação literária: há referências de passagem às Três Irmãs de Tchekhov e ao Estrangeiro de Camus. Em jogo metalinguístico, tudo se apresenta enquanto esboço, uma tentativa desnorteada de se chegar a algum lugar, mas sempre indiretamente, de soslaio. A luz de Hernandes de Oliveira, assim como o cenário de André Cortez, remete ao cinema; recortes em vídeo, pré-gravados e ao vivo, são editados ao contrário, ou seja, só as hesitações e as irrelevâncias são mantidas. Eficiente em instaurar um universo próprio, o espetáculo no entanto se esgota em auto-contemplação. A Cia da Mentira, que insolentemente se dá o direito de escapar do realismo, o que já rendeu um resultado memorável com "O Que Você Foi Quando era Criança", agora se ressente um pouco de um olhar externo, que se encarregue de filtrar o que há de mais relevante nesses improvisos obsessivamente re-ensaiados. Todos estão no palco, tanto a dramaturga Gontijo quanto os diretores Donizeti Mazonas e Gabriela Flores, em performances que ficam reféns da caricatura. Gilda Nomacce (Dulce), Lianna Matheus (Martha) e Silvio Restiffe (Genérico) estão igualmente presos em personagens lineares demais. É claro que a proposta de esboço redime o fato de não se chegar a nenhum lugar. No entanto, nesse segundo espetáculo, mais se espera da Cia da Mentira. De qualquer forma, Soslaio, sendo um espetáculo imaturo, não é um espetáculo a ser ignorado. (regular) |


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