Na Moita


06/12/2007


SOBRIEDADE DE HOMEM SEM RUMO PROPICIA AMADURECIMENTO DOS ATORES

O Club Noir, que iniciou sua trajetória com "Anátema", uma instigante parceria entre o dramaturgo e diretor Roberto Alvim e a atriz criadora Juliana Galdino, promove agora com "Homem sem Rumo" uma estréia importante para o teatro brasileiro: a do dramaturgo Arne Lygre.

Norueguês, 39 anos, lançado aos 29 na Europa, a Lygre coube a tarefa de continuar o trabalho de Ibsen, ou seja, retratar o mais verdadeiramente possivel a situação social e política de sua época - e, para isso, continuar reformando o teatro, já que o realismo, instrumento aperfeiçoado por Ibsen, ja há algum tempo vem se tornando um espelho opaco.

Para voltar a refletir a platéia, Lygre evitou por outro lado o discurso panfletário. Sua linguagem se aparenta mais à de Beckett, a fatia de realidade exposta tão cruamente que se torna onírica.

Assim, "Homem sem Rumo", com seus cortes bruscos, sua crueldade contida, faz pensar em um "Cidadão Kane" filmado segundo as regras do "Dogma" de Lars van Trier. Na fábula, Peter, por impulso, gasta toda a sua fortuna para formar uma cidade. Na ocasião de sua morte, todas as aparências se desmancham: sua respeitável família, irmã, filha, ex-mulher, irmão talvez, eram todos forjados.

Fosse esse um melodrama, minha frase anterior seria um spoiler, estragaria o prazer da reviravolta. Mas não há golpes de teatro em Lygre, como não há vilões nem vítimas. O mecanismo preciso e absurdo da acumulação capitalista surge quase como uma maldição; com dinheiro ou sem, todos são vítimas de uma despersonalização geral. Espécie de Dogville ao contrário, ilha de modernidade no meio do nada, na cidade de Peter a felicidade já não faz mais sentido.

Como acontece muito com os dramaturgos-diretores (ao contrário dos diretores-dramaturgos, que adoram deixar uma assinatura clara no texto base), Roberto Alvim respeita de modo inflexível o texto de outro autor. Dividindo com Juliana Fernandes cenário e figurino, e assinando também iluminação e trilha, Alvim faz um espetáculo sóbrio e enxuto, que não buscar sobrepor nada ao despojamento essencial do texto.

Da mesma forma, os atores que vieram se juntar à Juliana Galdino na companhia apresentam uma performance precisa e contida. Cada vez mais maduro, Marat Descartes, que faz o protagonista Peter, deixa de vez a grandiloquência do início de sua carreira para se firmar como um dos grandes atores de sua geração. Juliana Galdino, como sua ex-mulher, se beneficia muito do minimalismo exigido para se desentoxicar do expressionismo que tanto a destacou nas montagens de Antunes Filho, sem perder em nada seu carisma. O mesmo pode ser dito de Milhen Cortaz e Lavinia Pannunzio, irmãos de Peter, e é preciso acrescentar então que, não houvesse tanta força represada, o espetáculo poderia se tornar oco e tedioso.

Não que seja um espetáculo fácil. A voluntária lentidão tem que se sustentar em minúcias para merecer o olhar atento da platéia, sem nenhuma concessão ao efeito. Exigida, a platéia parece se sentir recompensada ao final: algo de novo, e perturbador, acontece por meio do Club Noir.(ótimo)

Escrito por Sérgio às 13h35
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03/12/2007


Clowns de Shakespeare fazem Brecht lúdico

 

Segunda parceria de direção entre Fernando Yamamoto e Eduardo Moreira (a primeira foi a festejada "Muito Barulho por Quase Nada"), "O Casamento" do grupo Clowns de Shakespeare de Natal mantém a habilidade antropofágica de fazer soar familiar um clássico do teatro. Neste Brecht de juventude, ainda marcado pelo café-teatro de seu mestre Karl Valentin, o clima bufo se mantém saudavelmente descompromissado da missão política que tanto costuma engessar o humor de Brecht.

Com um cenário hábil que se desmancha em cena, e a virtuosidade histriônica de Marco França (que também assina a trilha), no papel do patriarca gagá, a montagem cumpre o papel essencial que Brecht atribuia ao teatro: divertir, para depois despertar a reflexão.

Embora com o elenco desigual e um ritmo que às vezes falseia, os Clowns de Shakespeare tem um aprumo cênico invejável em qualquer latitude. (três estrelas)

Escrito por Sérgio às 23h00
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"ESPETÁCULO PROMOVE RELIGIÃO URBANA"

É preciso partir do óbvio: um espetáculo que se propõe ser uma homenagem a Renato Russo, feita por um fã confesso, a partir de reprodução de performances do artista e de dados tirados de seu biógrafo mais autorizado (Arthur Dapieve, autor de "Renato Russo, o Trovador Solitário") não deveria ser resenhada por um crítico de teatro, e sim por um representante de fã clube, um "cover" ou pelo menos um crítico de música popular. Teriam muito mais condição do que eu para checar se a imitação é bem feita, se os dados estão totalmente corretos, se há alguma omissão imperdoável.

No entanto, dado que o espetáculo superlota teatros e disputa prêmios e espaço de divulgação com peças de teatro, cabe-me aqui a tarefa ingrata de analisar a homenagem de Bruce Gomlevsky como tal. O desafio é algo grotesco: não sendo fã, e muito menos detrator, de Renato Russo, procurei me colocar no lugar do famoso habitante de Marte que não vem à Terra nas últimas décadas e ver "Renato Russo" como um monólogo musical sobre um cantor que fez muito sucesso no Brasil, tentando entender as razões desse sucesso, a partir unicamente do que me era apresentado.

Não recomendo a experiência a ninguém - se é que há algum espírito de porco capaz de fazer isso por razões não profissionais. A peça começa como um show convencional, claustrofobicamente espremido na diminuta sala do Centro Cultural Banco do Brasil. A luz de Wagner Pinto, que se deleita com os recursos tradicionalmente muito superiores dos shows, impressiona muito no início, até deixar claro a diferença de função entre show e teatro: fala aos sentidos, não à razão; exalta o ídolo sem promover o distanciamento.

Um primeiro recurso metalinguístico, interessante mas pouco aproveitado, sugere que há um problema técnico (qual?) que interrompe o show obrigando o artista a dar dados pessoais sobre si mesmo, incluindo a platéia real entre os personagens da ficção. Como o truque não daria conta de toda a trajetória do artista, logo há uma interrupção propriamente teatral: como em um pesadelo de Russo, uma cadeira de rodas é levada ao palco.

É o primeiro gancho para o flash back, uma referência à doença que o trancou por meses em casa, na adolescência. É também o primeiro dos elementos que caem de paraquedas, para a sistemática surpresa do ator (que cadeira é essa? que dor é essa na minha perna? que fita é essa na minha mão? etc, etc...). Alinhavo de dados, a dramaturgia incipiente de Daniela Pereira de Carvalho demasiadas vezes tem que contar com a eficiente videografismo da Apavoramento, um coletivo de publicitários e videojockeys, para fazer algum sentido.

A direção de Mauro Mendonça Filho tem alguns achados emocionantes, como o recurso final quando a sombra do personagem permanece no palco após a saída do ator, sinalizando a fama póstuma. A razão de sua morte, no entanto, permanece obscura: um envelope cai nas suas mãos e sangra (o sangue, aliás, percorre todo o espetáculo, em um tom que beira o kitsch).

É aqui que a crítica começa a ficar patética: todos, menos este marciano, sabem que Russo morreu de Aids, coisa que a família ainda prefere ocultar, apesar de permitir a "revelação" de sua homossexualidade e seus problemas com drogas. Da mesma forma, o espetáculo conta com a adesão de especialistas na platéia para que eles "sugiram" nomes definitivos das músicas e até mesmo o pseudônimo do artista.

Desde o início concebido enquanto exaltação, o espetáculo beira a hagiografia, celebrando o mito até mesmo quando ele expressa o desejo de não ser considerado mártir. Tarde demais. Quando Gomlevsky desce a platéia para distribuir flores e apertar mãos de alguns que choram acreditando estar diante de uma ressurreição, enquanto outros batem palmas em cadência, a sensação de culto religioso televisionado é sufocante.

Intruso nesta religião urbana, como avaliar o desempenho do ator? Seria tão inadequado quando elogiar um padre na comunhão por imitar bem Cristo durante a última ceia, ou criticar a sua voz nos cantos litúrgicos. Sem ser especialista, me parece verossímil seu figurino e seus trejeitos, mas fica devendo no timbre de voz, o que não dá para ser imitado.

Claro que há o mérito do Gromlevsky cantar tanto durante a performance, coisa anda incomum entre os atores (embora muitos, como Mario Bortolotto e Fernanda d'Umbra, por exemplo, exerçam o talento em lugares mais indicados, como clubes de Jazz). Mas diante do endosso por ele conquistado, ao invés de ocupar salas pequenas de teatro, deveria se apresentar em casas de show como o Tom Brasil (que insiste erroneamente em apresentar teatro) ou mesmo em estádios. Haveria assim mais espaço para o teatro no diminuto espaço que a mídia lhe consagra - como este aqui.

(ruim).

Escrito por Sérgio às 14h55
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