SOBRIEDADE DE HOMEM SEM RUMO PROPICIA AMADURECIMENTO DOS ATORES O Club Noir, que iniciou sua trajetória com "Anátema", uma instigante parceria entre o dramaturgo e diretor Roberto Alvim e a atriz criadora Juliana Galdino, promove agora com "Homem sem Rumo" uma estréia importante para o teatro brasileiro: a do dramaturgo Arne Lygre. Norueguês, 39 anos, lançado aos 29 na Europa, a Lygre coube a tarefa de continuar o trabalho de Ibsen, ou seja, retratar o mais verdadeiramente possivel a situação social e política de sua época - e, para isso, continuar reformando o teatro, já que o realismo, instrumento aperfeiçoado por Ibsen, ja há algum tempo vem se tornando um espelho opaco. Para voltar a refletir a platéia, Lygre evitou por outro lado o discurso panfletário. Sua linguagem se aparenta mais à de Beckett, a fatia de realidade exposta tão cruamente que se torna onírica. Assim, "Homem sem Rumo", com seus cortes bruscos, sua crueldade contida, faz pensar em um "Cidadão Kane" filmado segundo as regras do "Dogma" de Lars van Trier. Na fábula, Peter, por impulso, gasta toda a sua fortuna para formar uma cidade. Na ocasião de sua morte, todas as aparências se desmancham: sua respeitável família, irmã, filha, ex-mulher, irmão talvez, eram todos forjados. Fosse esse um melodrama, minha frase anterior seria um spoiler, estragaria o prazer da reviravolta. Mas não há golpes de teatro em Lygre, como não há vilões nem vítimas. O mecanismo preciso e absurdo da acumulação capitalista surge quase como uma maldição; com dinheiro ou sem, todos são vítimas de uma despersonalização geral. Espécie de Dogville ao contrário, ilha de modernidade no meio do nada, na cidade de Peter a felicidade já não faz mais sentido. Como acontece muito com os dramaturgos-diretores (ao contrário dos diretores-dramaturgos, que adoram deixar uma assinatura clara no texto base), Roberto Alvim respeita de modo inflexível o texto de outro autor. Dividindo com Juliana Fernandes cenário e figurino, e assinando também iluminação e trilha, Alvim faz um espetáculo sóbrio e enxuto, que não buscar sobrepor nada ao despojamento essencial do texto. Da mesma forma, os atores que vieram se juntar à Juliana Galdino na companhia apresentam uma performance precisa e contida. Cada vez mais maduro, Marat Descartes, que faz o protagonista Peter, deixa de vez a grandiloquência do início de sua carreira para se firmar como um dos grandes atores de sua geração. Juliana Galdino, como sua ex-mulher, se beneficia muito do minimalismo exigido para se desentoxicar do expressionismo que tanto a destacou nas montagens de Antunes Filho, sem perder em nada seu carisma. O mesmo pode ser dito de Milhen Cortaz e Lavinia Pannunzio, irmãos de Peter, e é preciso acrescentar então que, não houvesse tanta força represada, o espetáculo poderia se tornar oco e tedioso. Não que seja um espetáculo fácil. A voluntária lentidão tem que se sustentar em minúcias para merecer o olhar atento da platéia, sem nenhuma concessão ao efeito. Exigida, a platéia parece se sentir recompensada ao final: algo de novo, e perturbador, acontece por meio do Club Noir.(ótimo)


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