CLASSICO DE PIRANDELLO REVITALIZA O TEATRO COMERCIAL
“O Homem, a Besta e a Virtude” é peça de transição de Pirandello. Encenada em Milão em 1919 junto a “O Enxerto” (um melodrama mais próximo do modelo tradicional) é o primeiro produto de um estilo que o autor classificava como “humorismo”, isto é, uma discussão filosófica e moral livre da grandiloqüência do realismo burguês, leve e sedutora como o vaudeville.
Quase paródia de chavões, beirando o non-sense que marcaria posteriormente o surrealismo e o teatro do absurdo, o enredo gira em torno da senhora Pernella, apresentada como um modelo de virtude pelo protagonista Paolino, professor de seu filho Nonô, mas que é casada com um rude marinheiro polígamo – a besta, que só a visita uma vez por ano, e nem assim cumpre seus deveres conjugais.
A fórmula maniqueísta que pressupõe o título é desautorizada logo no início, quando sabemos que a Senhora Pernella está grávida de Paolino, que nem por isso perde o seu tom moralista. Na chegada do capitão, ele tentará fazer com que a “besta” copule com a “virtude” para justificar a gravidez – usando para isto a estratégia de um bolo de chocolate afrodisíaco, na melhor tradição da “Mandrágora” de Maquiavel.
Altamente erótico nas entrelinhas, sem perder o distanciamento da fábula, o autor mistura elegantemente as máscaras sociais, questionando com bom humor o conceito de virtude: no final, quem é a besta, quem é o homem?
Esta segunda encenação brasileira (a primeira, de 1962, dirigida por Gianni Ratto, reunia Fernanda Montenegro e Ítalo Rossi), é uma bem sucedida associação de velhos parceiros. O diretor Marcello Lazzaratto, que mostra um domínio das convenções do teatro popular, atendeu ao convite de Débora Duboc, sua ex parceira de palco do grupo “Razões Inversas”, e convocou o seu primeiro discípulo Gabriel Miziara, que no papel central leva a peça nas costas com desenvoltura. Élcio Nogueira Seixas, que se diverte muito no papel do marinheiro, e os ágeis Thiago Adorno e Luis Alex Tasso completam o elenco afinado, que se desdobra em cena aberta em vários personagens.
É um prazer em dobro portanto ver Duboc passar da doce Pernella à escachada criada, como se fosse as duas faces da mesma moeda, assim como ver as diferentes imposturas do patético Paolino, que Miziara torna irresistível. A semelhança física marcante entre Adorno e o Alberto Sordi, e a pesquisa com o cinema cômico italiano dos anos 50 (a presença do grande Totó se faz notar em muitas marcas), associados ao belo figurino e cenário de Samuel Abrantes e a trilha milimétrica de Gustavo Kurlat e Ruben Feffer, fazem que o espetáculo seja imperdível.


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