Na Moita


19/12/2007


Celebrada indevidamente por um texto menor - a homenagem de Bruce Gomlevsky a Renato Russo - Daniela Pereira de Carvalho vem no entanto, por sua trajetória, se consolidando enquanto uma dramaturga porta voz de sua geração.

Tendo surgido enquanto dramaturgista, no promissor "Vida , O Filme" (1992), dava forma aos improvisos do grupo "Os Desequilibrados", até assumir uma carreira solo e uma temática: a desnorteada juventude da elite carioca, que flerta com a contravenção em uma espécie de suicídio social.

Assim, a partir de 2004, com "Carpe Diem","Tudo é permitido" e "Não Existem Níveis Seguros Para o Consumo Dessas Substâncias", junto à Imprecisa Companhia e tendo Liliana Castro como alter ego, sua dramaturgia foi ganhando em concisão e profundidade.

Desta forma, "Por Uma Vida Um Pouco Menos Ordinária" é um ponto de chegada. Apesar de evocar uma leveza pop pelo título que remete a um filme comercial de Danny Boyle e a chavões de blogs, a trama enfeixa o essencial do universo de Carvalho, em um tom de drama niilista que flerta com o trágico, sem perder o humor.

Adriano é um cellista de uma orquestra pública que se vicia em cocaína ao perder sua vocação artística. Por sua vez, Natália, sua irmã, tem que fechar seu bar e enfrentar a desilusão dos sonhos de adolescência. Entre os dois, o filho da empregada que se tornou policial e traficante e ostenta o seu poder ao ciceronear a descida de Adriano ao inferno. Um tiro a esmo, por piada, acaba matando um chofer de taxi na rua em frente, de madrugada - e a celebração da inconsciência dá lugar a um angustiante beco sem saída.

A direção de Gilberto Gawronsky, que também assina o cenário, espertamente desloca o realismo da trama com recursos simbólicos que remetem a seu próprio grupo, A Companhia dos Atores. A constante referência ao consumo de pó é belamente estilizada por baldes que vertem areia como chuveiros sobre o elenco deleitado - e a repetição do efeito vai criando uma metáfora complexa, junto ao frágil castelo de areia do primeiro plano e a idéia de ampulheta, o tempo que se escoa irremediavelmente. Por outro lado, é preciso salientar que o efeito acaba chamando excessiva atenção para si mesmo, limitando um pouco as marcações.

É bem aproveitada também a decisão da direção de não tirar nunca os atores de cena, mesmo quando o texto só indica a presença de dois personagens - o terceiro, ao continuar a reagir ao que é dito, reforça a impressão de "huis clos", de febre de cabana de uma geração viciada.

Nada disso teria efeito, naturalmente, se o elenco não fosse tão capaz. Liliana Castro tem uma beleza frágil e insolente, mas ao romper de cara a quarta parede e direcionar seu monólogo para o público, como um elo com as peças passadas da autora, exagera um pouco na teatralidade, discursando ao microfone. Parece querer exorcisar o realismo televisivo ao qual o público mais amplo se acostumou.

Porém, Eduardo Moscovis, sem romper a naturalidade, consegue com desenvoltura se livrar da carga de galã de novela, e faz de Adriano não um herói, mas um protagonista dilacerado, em busca de uma dignidade perdida. Por seu lado, Joelson Medeiros, que vem de uma importante carreira teatral, consegue uma verossimilhança indispensável para não cair nos trejeitos do "vilão". Seu personagem segue a ética do tráfico, sem discutir - a tragédia é que a elite, desamparada de ideais mais elevados, acaba se rendendo a ela também.

Desta forma, Daniela Pereira de Carvalho faz não apenas o retrato de uma geração, mas seu diagnóstico - sem nunca cair no maniqueísmo, na lição de moral. Constata o vácuo para uma platéia que veio se divertir com "globais", e que percebe que o buraco do teatro é bem mais fundo. Assim, desarmando as armadilhas da fama, "Por Uma Vida Um Pouco Menos Ordinária" presta um serviço importante. (bom)

Escrito por Sérgio às 14h24
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17/12/2007


O NATIMORTO EXPOE O SARCASMO TRAGICO DE MUTARELLI

 

Hilário, lírico e apavorante, o universo do romancista e quadrinista Lourenço Mutarelli costuma se adaptar bem a outras mídias. Foi assim com "O Cheiro do Ralo", cult das telas neste ano, e "O Que Você Foi Quando Era Criança", primeira transposição do autor para o teatro, que lançou a Companhia da Mentira.

Para adaptar e dirigir "O Natimorto" foi convocado Mario Bortolotto, que compartilha obsessões com Mutarelli, como heróis que não querem mais sair na rua e relações autodestrutivas, mas houve um grande cuidado de não deixar a montagem ficar parecida com as do Cemitério de Automóveis, grupo do diretor.

O incômodo causado pela apresentação esquizóide de personagens  de vidas medíocres foi garantido pela iluminação de Lenise Pinheiro, que brinca com as convenções de black-out para as passagens de tempo, e o cenário construtivista de Valdy Lopes, que embora marcante, deixa poucas opções para o figurino de Cassio Brasil. A trilha de guitarras lancinantes do diretor frisa o desconforto, mas rouba a cena às vezes.

A façanha do diretor, no entanto, foi o de ter proporcionado um alter ego perfeito para Mutarelli (como já havia feito com Marcelo Mirisola, em "O Herói Devolvido"). Nilton Bicudo, no papel do agente musical que faz das fotos de advertência dos maços de cigarro um tarô pessoal, equilibra interiorização e caricatura, em um auto sarcasmo trágico presente em cada detalhe de sua caracterização. Martha Nowill, no papel de sua mulher castradora, está à altura, e aproveita bem o personagem que só surge no início.

Mas a adaptação faz bem ao enxugar os monólogos do romance para valorizar os diálogos espertos, cheios de lugares-comuns adulterados ("as transparências enganam" já é um clássico). Da mesma forma, priorizou o fio da meada da ação: no romance, cada capítulo se baseava em uma carta desse tarot perverso, recurso que Mutarelli já havia usado em "O Dobro de Cinco", e que no palco não seria útil.

Nesse jogo de craques, Maria Manoella, a cantora por quem o agente se apaixona, por ter "a voz da pureza", inaudível, como na fábula do rei nu; acaba soando opaca, sem força de contraponto. Mesmo assim, "O Natimorto" continua vivo na memória, muito tempo depois de ser visto. (bom)

Escrito por Sérgio às 13h58
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