Na Moita


18/01/2008


ANTUNES LEGA UMA DÉCADA DE REVOLUÇÃO LENTA

"Prêt-à-Porter": nesse rótulo há talvez uma fina auto-ironia, como se a Maison Antunes Filho tivesse aberto uma pequena sucursal nos fundos para que os aprendizes pudessem ter um contato prático com um publico mais amplo. O fino biscoito que fabricam oferecido na merenda escolar.

Uma pedagogia francesa, não só na utopia de "um teatro elitista para todos" de Villar, mas na lenta revolução de Jacques Copeau: o palco nu, tábua rasa, para que o ator reinvente a roda. É claro que para isso é preciso um outro ator, não o ávido pela fama, mas o obcecado por sua autonomia de vôo, que saiba ser dramaturgo e diretor de si mesmo, que saiba criticar o outro contornando vaidades.

Então são mais ou menos dez anos de deriva para testar a bússola, um longo ensaio que se abre às vezes ao público, sem data de estréia. Experimentalismo prudente, que não busca a fórmula nova de laboratório, mas a lenta impregnação stanislavskiana, uma pátina de verossímil que, garantindo o realismo, propicia o próximo passo: um novo pessoal, sob medida, para depois da experiência de mercado no prêt-à-porter.

Revolução? Talvez na definição da física, uma volta à posição inicial, do teatro de atores. Nas primeiras audições, é preciso ser dito, a arrogância muitas vezes punha tudo a perder. Atores sacerdotes condescendentemente explicando sua superioridade não era a melhor estratégia para se convencer o público incauto. Mas era uma causa ganha: toda uma geração de atores criadores tomou o poder, em torno de Gero Camilo, Mario Bortolotto, Cybele Forjaz, Grace Passo, fazendo pipocar uma nova dramaturgia no Rio, Curitiba, Minas Gerais...

Do ninho de Antunes, vários pássaros camicases despencaram, ávidos de chão; aos grupos, como a Companhia da Mentira, ou avulsos, estrelas que mudaram de lugar. Juliana Galdino reconheceu sua voz no texto de Roberto Alvim e pisou firme com "Anátema"; Arieta Corrêa pode compartilhar o canto de cisne de Paulo Autran no "Avarento". Luiz Paetöw, dirigido por Márcio Aurélio, deu conta das difíceis partituras de Gertrude Stein, enquanto Susan Damasceno, com a parceria do também ex-p-a-p Donizete Mazonas, acaba de encarnar Hilda Hirst na "Obscena Senhora D".

Ainda não é essa a renovação definitiva. Mas tal autonomia de vôo demonstra o bem fundado da formação. Cartas de visita estão na mesa. Quem agora investirá na alta costura?

Escrito por Sérgio às 14h25
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