Na Moita


26/01/2008


ANTROPOFOCUS VOLTA PARA O COLO DE SEU PÚBLICO

 

Não é a toa que o grupo Antropofocus ostenta um “TM”, sinal de marca registrada, ao lado do seu nome. Merecedores de um público fiel, cada membro tem seu próprio fã clube no Orkut, e a exemplo das Organizações Tabajara do Casseta & Planeta, têm uma produção de humor intensa e diversificada, com shows em empresas, vídeos no Youtube e até downloads em celular. Tendo conquistado um grande sucesso no “Janeiro Brasileiro da Comédia” no ano passado com “Pequenas Caquinhas”, que era derivado deste “Amores & Sacanagens Urbanas”, o primeiro espetáculo do grupo e seu cartão de visitas, não é de se admirar que tenham chegado já com sessão extra esgotada, o que é corriqueiro na sua trajetória.

O diretor e ator Andrei Moscheto conta que o grupo se formou já no segundo ano da Faculdade de Artes do Paraná a partir da frustração dos alunos pela pouca importância dada à comédia por parte da Academia. Formaram-se então na garra e na cara de pau, a partir de um humor que, se apressam a dizer, é “não-apelativo” o que não quer dizer que seja particularmente profundo.

Mas também não quer dizer que seja mal feito ou mal embasado. Na primeira parte do espetáculo, feita por solos, cada um mostra um estilo próprio. Leo Oda tem um humor mais físico, narrando com mímica precisa seu amor grotesco por uma mulher imensa. Danilo Correia é mais radiofônico, criando o velho tarado “Seu Tide” com uma grande variedade de ritmos e entonações em bordões eficazes. Já Vitor Hugo explora o fleugma de Monty Python com suas repetições e sua falsa solenidade, enquanto que Jairo Bankhardt anda pelas sendas do Chaves, ao fazer um garoto de cinco anos.

Na segunda parte, jogam entre si basicamente na técnica do improviso, embora só uma cena siga à risca o protocolo do teatro-esporte, promovido por Márcio Ballas em “Jogando no Quintal”. A sonoplastia de Célio Savi, um fundador do grupo que acompanha todos os ensaios, serve como um eficiente fio condutor, garantindo junto ao figurino elegante um bom acabamento ao espetáculo.

Assim, o Antropofocus engrossa as fileiras do besteirol curitibano, onde cabem tanto as performances cults do intelectual Fernando Kinas como o trash do bad boy César Almeida. Virtuoses do pueril, sempre dispostos a revisar sua técnica precisa de tirar risos de um texto pobre, quando não um mero pretexto para improviso, o Antropofocus poderia passar para uma fase mais avançada do jogo ao voltar sua auto-exigência para a origem do espetáculo, o seu tema, a sua relevância. Mas, para isso, terão que abrir mão do conforto de dar à platéia apenas aquilo que ela espera do grupo.

Escrito por Sérgio às 11h14
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A PANE POE A JUSTIÇA NA MESA

 

 Friedrich Dürrenmatt é um criador de fábulas intrigantes. Em seu conto “A Pane” um forasteiro em um vilarejo, que por uma pane de seu carro é obrigado a pernoitar na casa de um juiz aposentado, aceita o convite de participar enquanto réu de um simulacro de julgamento que o anfitrião costumava fazer junto a seus colegas. Aos poucos, durante o jantar gastronômico, vai se convencendo que é um assassino.

Terrível como Kafka, mas sem perder a bonomia, o próprio autor do conto o adaptou em seguida para o rádio e os palcos. Esta versão, no entanto, é feita especialmente pelo renomado jurista e político Nilo Batista para o interessante projeto Teatro na Justiça, da Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro.

Iniciado desde 1999, com a leitura dramatizada de “Testemunha de Acusação” de Agatha Christie, sempre dirigido pelo professor de direção teatral José Henrique e sempre contando com a idealizadora do projeto Silvia Monte no elenco, esta sexta produção estreada em 2004 marca pela primeira vez uma encenação só com profissionais da área teatral (antes disso, vários advogados famosos experimentaram exercer seus dons teatrais pela primeira vez no palco).

Indo além de seus princípios pedagógicos o espetáculo resulta em uma diversão inteligente com algumas interpretações requintadas. Henrique Pagnocelli convence na sua interpretação do homem comum que se embriaga deleitosamente pela culpa, enquanto que o elenco “jurídico” não faria feio em nenhum tribunal, com o bônus do distanciamento irônico magistral.

A adaptação de Batista ousa bem ao incorporar recursos épicos de narração (que estão em casa no universo dos tribunais) e auxilia no aspecto ‘pedagógico’ ao abrasileirar referências, embora com exageros. A direção acerta em trazer de volta ao tom original de fábula, com uma atemporalidade auxiliada pela luz e figurino. Curiosamente, um dos ganchos de marketing da montagem, a de se servir um cardápio real preparado por um restaurante patrocinador, acaba tomando uma dimensão desnecessária. A verdadeira degustação de “A Pane” é a sua inteligência. (bom)

 

Escrito por Sérgio às 09h15
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24/01/2008


MANGIARE REÚNE PÚBLICO EM TORNO DE MESA COMPLETA

 

O teatro comercial, muitas vezes, por mais divertido que se proponha, acaba criando um muro intransponível entre atores e público. Vai-se, como no zoológico, para ver de perto aquilo que em geral só se vê pela televisão, mas o verdadeiro congraçamento só acontece entre os amigos na pizza após o espetáculo.

A arte do teatro, no entanto, tem muito em comum com a arte da cozinha. Por melhor que seja a receita, por mais experiente que seja o cozinheiro, não basta repetir uma fórmula garantida: ela tem que dar certo a cada dia, diante do cliente, no tempo exato. Como escreve a diretora no programa da peça, “talvez a cozinha e o teatro sejam “métiers” da mesma família, abençoados pelos mesmos deuses”.

A proposta do Grupo Pedras de Teatro, de fazer um “espetáculo degustação” no qual os atores compartilham uma refeição real com o público, em torno de grandes mesas, não é inédita: “Combinado”, do também carioca Os Dezequilibrados, propunha ao público resolver um crime em torno de uma mesa de sushis e saquê, em 2003; e o crime também é o prato principal em “A Pane”, de José Henrique, atualmente em cartaz em São Paulo (no Rio, em algumas apresentações, o público era recebido à mesa do Juiz de Durrenmatt, na Casa da Suíça, em março de 2006). Mesmo o detalhe da refeição ser preparada pelos próprios atores acontecia em um espetáculo italiano chamado “Teatro da Mangiare” (três atores-cozinheiros, Paola Berselli, Stefano Pasquini et Maurizio Ferraresi, serviam massa fresca para um público de nove pessoas em Volterra, na Toscana, em 2000, em um dos 25 espetáculos do 14° Festival dos Teatros do Impossível).

Mas não é isso que desqualifica esse “Mangiare”: não basta uma boa forma, mas ela deve ser bem desenvolvida e executada. Este é um espetáculo antológico porque, como nos melhores restaurantes, cada item do menu tem seu próprio tempero e função, em harmonia com os demais.

O que comer evoca? O domingo em família, o sabor exótico, a compulsão, a crueldade, a gula? Cada conteúdo exige uma apresentação adequada. Assim, após um delicado ritual de boas vindas, a conversa começa pela cozinha: stanislaviskianamente, acompanhamos da intimidade feminina de uma família padrão. A matriarca assume todos como filhos, enquanto que o conflito surge entre a filha organizada, que talvez por separar demais os ingredientes acabou separada, e a outra, “enrolada” em todos os sentidos.

A comida reúne todos – e talvez por isso a receita familiar apresentada é exótica, oriental, uma salada cozida balinesa O que nos leva ao quadro seguinte, com inquietantes e ternos cozinheiros balineses (as mesmas atrizes que também tem longo treinamento nessa técnica de máscaras) que apresentam uma receita do caseiro nhoque da fortuna.  

Em seguida, por uma técnica trazida do Théâtre du Soleil pela diretora Fabianna de Mello e Souza, há três cenas simultâneas nas quais três etnias apresentam a cada uma das três mesas suas receitas de vida – e daí em diante, a transgressão bufa será servida como um digestivo às avessas, pois a função do teatro não é só aquietar.

Cercada por músicos atentos e risonhos que dão o ritmo ao vivo, as três atrizes-pesquisadoras, Ana Paula Secco, Georgiana Góes e Marina Bezze, seduzem a platéia, cada uma com seu tempero, e dão a impressão ao fim do espetáculo de serem velhas amigas nossas. Um espetáculo para dar gosto pelo teatro.  

(links para as montagens citadas: http://almanaquevirtual.uol.com.br/ler.php?id=8663&tipo=11&cot=1

                                                  http://www.estiloiesa.com.br/includes/2006/03/cinqentenrio-em-dose-dupla.html

                                                  http://web.tiscali.it/leariette/stampa/le_monde.htm)

                                                   

Escrito por Sérgio às 12h02
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22/01/2008


O freqüentador de rodeios, mais que muito animador de festa infantil, conhece a responsabilidade e a dificuldade da função do clown. Quase anônimo, mas com bravura e técnica superiores a muita gente na arena, o palhaço de rodeio enfrenta o touro na defesa da vida e da honra do herói pião, ao mesmo tempo em que se expõe ao ridículo.

Essa coragem dupla, e essa arte precisa de simular o desajeitado, podem ser verificadas na performance de Ésio Magalhães, o Zabobrin de “A Julieta e o Romeu”, do grupo Barracão Teatro de Campinas. Basta ver com que desenvoltura ele despenca da escada de armar – cenário único – sempre salvo como por acaso por um pé enroscado na última hora. E com que generosidade ele endossa o encantamento desarmado do novato em teatro, que não diferencia realidade e ficção, iludido pelos artifícios da encenação.

Tão ingênuo quanto irreverente, acaba desmistificando a própria regra, questionando-a quando aparenta se esforçar em segui-la. Um desarmante anarquismo, que critica ao fazer rir, que está na origem tanto da commedia dell’arte na Itália do século XVI (o camponês forçado pela guerra civil a se adaptar na cidade grande, como retrata Ruzzante), quanto na origem do circo moderno do século XIX, com os exilados da revolução industrial.

Em contraponto ao caos do palhaço Augusto, está o palhaço branco, representante da ordem. Uma técnica ainda maior deve ser esperada de Andréa Macera, que deve resistir à tentação de ser ela mesma engraçada, para servir de apoio para o improviso do parceiro. Mais bem vestido, menos ridículo, mas sistematicamente desautorizado, o palhaço branco tem a mesma responsabilidade do “portô”, o trapezista que recebe o que faz o vôo, com discrição e firmeza. O menos lembrado da dupla pelo público, em geral é o responsável pelo bom ritmo da performance, e grandes “brancos” devem ser evocados aqui, como Raul Barreto dos “Parlapatões” e Domingos Montagnier do “La Mínima”.

Mafalda Mafalda, a personagem de Macera, é desta forma no espetáculo uma “renomada atriz” que tenta impor ao público complicadas técnicas de interpretação (todas reais e relevantes, mas que podem levar a um auto-mistificação ridícula). O desajeitado endosso de seu “estagiário” Zabobrin leva a uma saudável desmistificação, o que é muito benéfico ao teatro, já que muita gente não o freqüenta por medo de “não estar preparado” para as suas convenções.

Macera, assim como Magalhães, tem uma sólida formação, e se liga a uma nobre linhagem de “palhaças”, tendência nova e forte do mundo clown: é dirigida por Naomi Silman (atriz do seminal grupo Lume) com formação junto a canadense Sue Morrinson. A inserção da mulher em um universo tradicionalmente masculino leva em geral a uma diminuição do grotesco (particularmente na nudez, menos ridícula e mais sensual) e acréscimo de lirismo.

Ambos ofereceram na tarde de hoje um workshop com ênfase na relação com o público, técnica que pode ser verificada na performance desta noite: o roteiro, quase inexistente, é quase um pretexto para a participação da platéia, e um espetáculo pode ser bastante diferente do outro. A história chega a ser aberta demais (um alinhavo de cenas de Shakespeare que dá a impressão de estar sempre começando, ao mesmo tempo que a promessa de encerrar prematuramente o espetáculo pode se tornar repetitiva). No entanto, ao contar com a platéia, assim como um trapezista conta com a rede de proteção, sabem que têm no respeitável público de Rio Preto um parceiro atento e generoso.  

Escrito por Sérgio às 11h09
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21/01/2008


Matheus Nachtergaele representa todos os brasileiros

 

O que há em comum entre um mártir bíblico e um homossexual de novela, um soldado expressionista alemão e uma mosca? Um ator, é claro – mas um que atende pelo nome de Matheus Nachtergaele. Rara unanimidade entre críticos e platéias de teatro, cinema e televisão, escolhido pelo exigente Ariano Suassuna como o melhor intérprete de João Grilo, do “Auto da Compadecida”; levou a crítica Aurora Miranda Leão a escrever: “Ver Matheus Nachtergaele interpretando é ter a certeza da existência de Deus”.

Talvez tenha sido essa mesma a sua função em “O Livro de Jó” (1995), do Teatro da Vertigem de Antonio Araújo. Já havia tido sua vocação atiçada por Antunes Filho, e sua formação na Escola de Arte Dramática o tinha feito entrar na companhia uma montagem antes, em “Paraíso Perdido”, mas em “Jó” se consagrou. Nu, banhado em sangue, Nachtergaele passou a espantar pela força, um atleta afetivo artaudiano que nunca se poupa, seja enquanto “Woyzeck, o Brasileiro” (2003), o soldado anti herói do expressionista Büchner na releitura de Cybele Forjaz, ou no frágil Treplev da “Gaivota” de Tchekhov, na montagem de Daniela Thomas (1998).

Contracenando com Fernanda Montenegro, nesta montagem de elenco “all-star”, sem se inibir (o que repetiu em sua marcante passagem em “Central do Brasil”) ou único famoso na “Cidade de Deus” (2002), filme de Fernando Meirelles, sempre se destacou pela seriedade com que se aprofunda nos papéis. Fez o “Rato”, assistente do Doutor Abobrinha, em “Castelo Rá-Tim-bum” (2000) de Cao Hambúrguer, e dublou uma mosca no filme americano “Deu Zebra” (2005), com a mesma auto-exigência enorme, observando os ritmos dos animais.

Entrou na casa do grande público como “Cintura Fina”, renovando estereótipos da televisão, nem sempre com papéis à sua altura, mas agora pode tudo. Filho de belga, foi um dos poucos a levantarem a mão durante a provocação do teatro Oficina, na “Terra” dos Sertões: “Quem aqui tem o tipo brasileiro?” E de fato, ninguém imaginaria a dificuldade de se transmutar em João Grilo, para aquele que hoje passaria por conterrâneo de Gero Camilo. Nachtergaele, ator camaleão, representa todos os brasileiros.      

Escrito por Sérgio às 09h32
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GLORIA MENEZES APAIXONA PELO DESPOJAMENTO

 

Harold and Maude” (1972), filme de Hal Ashby com roteiro de Colin Higgins, gerou fãs duradouros. A fábula de Harold, “um senhor de quase 20 anos” que se apaixona por Maude, “uma jovem de quase oitenta” mobilizou Jean Claude Carrière a adaptá-la para o palco já em 1973, para a mítica atriz francesa Madeleine Renaud. No Brasil, uma encenação marcante reuniu Henriette Morineau e Diogo Vilela em 1981.

Arlindo Lopes, um jovem ator carioca que, embora vindo do teatro, se fez conhecido pela televisão, assume agora a sina de Harold. Teimoso, lutou por quatro anos até conseguir associar à sua produção Glória Menezes, que por sua vez imaginava, desde a década de 70, se um dia viria fazer bem esse papel.

Pois bem: o grande mérito da montagem é provar que sim. Menezes sabe tornar verossímil essa paixão instigante ao fazer de Maude uma eterna criança, que nega a respeitabilidade que costuma ser a única vantagem daquilo que hipocritamente se nomeia hoje “melhor idade” para se inflamar com chama eterna e irreverente do anarquismo. Sem se desafiar a proezas físicas inúteis, mostra-se uma grande atriz não pela maturidade técnica, mas por um despojamento contagiante de felicidade.

Infelizmente, o Harold de Lopes não está à altura. Simpático, mas sem profundidade nenhuma, não consegue fazer o contraponto necessário. O diretor João Falcão, por sua vez, pouco acrescenta. Permite ao grande Augusto Madeira se desdobrar em três personagens simultaneamente, em uma façanha técnica que diverte mas também é uma distração aleatória, enquanto que Fernanda de Freitas, desafiada a fazer igual, fracassa por falta de técnica.

É que não é fácil a técnica da caricatura – veja a veterana Ilana Kaplan que acaba se fechando em gestos tão estilizados que parece representar entre aspas, e um elenco de apoio que não diz a que veio. Ao se acrescentar uma luz desastrosa e uma trilha medonha, que destroem por exemplo a delicada cena do beijo, resta lamentar a montagem não poder ser antológica. Fica Glória Menezes – e não é pouco. (duas estrelas)    

 

Escrito por Sérgio às 09h19
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