Na Moita


30/01/2008


CLOWNSSICOS ENCERRA FESTIVAL COM CHAVE DE OURO

 

Depois de duas montagens nas quais os grupos se declararam jovialmente ter subvertido a sisudez da escola para triunfar com a insolência das improvisações do intervalo, eis que surge a Cia do Giro com seus professores - clowns. De fato, o Tepa, teatro escola de Porto Alegre, não menospreza o humor, pelo contrário: lá o curso de clown coroa uma longa aprendizagem de várias tradições teatrais, a Tragédia Grega, Shakespeare, o Realismo de Tchekhov...

Daniela Carmona, diretora do curso e da companhia, como uma diretora porta voz da turma do fundão, ousou o projeto: por que o humorista só cuida dos temas triviais do cotidiano? Não poderia dar conta das misérias humanas? Assim surgiu Clownssicos, com um roteiro sofisticado: uma trupe de clowns apresenta, em rígida ordem cronológica, os sucessivos gêneros sérios, subvertendo-os. Vale por um concentrado de anos de curso de História do Teatro, exigindo uma platéia inteligente e ágil.

O grupo é formado por clowns extraordinários, e as invenções se multiplicam. O problema da peça é que ela atinge um apogeu rápido demais. Quando o público, por obra própria imerso na floresta de Macbeth, vê lady Macbeth transformada na Monga do Circo enfrentar Chapeuzinho Vermelho, o conhecido tema do filme “Romeu e Julieta” se faz ouvir. Então meu vizinho, com um sorriso de profunda compreensão, declarou:

- Ah! Doutor Jivago!

Muito ainda estava ainda por vir, exigindo a decifração do público. Mas já era tarde demais, o delírio já contagiava e o que a platéia queria era subir ao palco. Assim é se lhe parece: os loucos tomam conta do hospício, Dionisos toma o controle do navio e domina a cidade em carros navais.

A lógica do palhaço dominou dez dias em Rio Preto, provando a Penteu – o líder de Tebas que só acreditava na razão, e por isso enlouqueceu – que todo cidadão precisa de um Festival de Teatro para subverter a ordem e questionar as regras, em clima de jogo e alegria, antes de voltar à rotina. Este ano, aliás, Dioniso passa a chave da cidade direto ao Rei Momo, e as tradições se somam.

Questionar a ordem é a única forma sensata de revalidá-la e ajustá-la às exigências de cada dia. Mais do que uma feira de novidades, o Festival é uma estratégia oferecida ao cidadão para que se sinta representado nas tomadas de decisão de sua vida. O nome disso é democracia. Sorte da cidade cujo prefeito – seja qual for seu partido – compreende essa profunda importância do Teatro.

Escrito por Sérgio às 11h36
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29/01/2008


FORMA OFUSCA CONTEÚDO EM GRAPHIC

 

Multipremiada em sua Curitiba de origem, Graphic chega com ares de renovação. De fato, a Companhia Vigor Mortis de Paulo Biscaia tem 10 anos de pesquisa em torno da linguagem de quadrinhos, mesclada à pesquisa do diretor sobre o Grand Guignol, um subgênero do teatro francês do século 19 que equivaleria hoje ao Trash Movie.

Com perdedores descolados que se movem em um universo claustrofóbico, expresso em poucos elementos cênicos, como a turma do Charlie Brown, e tendo a linguagem gráfica – fanzines, grafitti, ilustrações – enquanto elemento comum, o universo de Graphic tem tudo para agradar o público adolescente pouco afeito ao teatro convencional.

Mas é preciso também que, enquanto teatro, o espetáculo é bem incipiente. As atuações – com exceção talvez de leandrodanielcolombo, que tira partido de um tom fanho e de boas pausas – são bastante amadoras, e a embalagem ousada, com projeções e cenário giratório, tem pouco o que contar.

Ao contrário de outras experiências de fusão entre teatro e quadrinhos mais bem sucedidas (como o “Natimorto” de Mutarelli ou o “Chapa Quente” de Kitagawa) este “Graphic” do “Vigor Mortis”, entusiasmado consigo mesmo e cheio de arrogância juvenil,  acaba pondo em segundo plano o conteúdo, mero pretexto para uma forma que logo se torna fórmula. (uma estrela).

 

Escrito por Sérgio às 18h35
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MONTAGEM CONCENTRA O LODOSO RIO DE HIRST

 

“Ninguém sairá ileso” escreveu Caio Fernando Abreu sobre “A Obscena Senhora D” de Hilda Hirst (1930-2004). Poeta do desamparo e do desejo, do sagrado e do cotidiano, como um Joyce nascido em Jaú, a grande senhora indigna da língua portuguesa emana fluxos de consciência como rios lodosos, embora a virtuosidade de sua sintaxe se mantenha sempre próxima do popular- a ponto de ter um poema seu musicado por Adoniram Barbosa.

(escute em http://www.angelfire.com/ri/casadosol/musicas/Adoniran2.wav)

Hirst viveu o bastante para ver sua prosa levada ao teatro pela nova geração – mas apenas a última parte de sua obra, iniciada com a “Senhora D”, quando declara seu “adeus à literatura séria”: curiosamente, a maioria das oito peças que escreveu para teatro permanecem inéditas.

Obscena –isto é, que não pode ser levada à cena – a verve de Hirst vem sendo encenada enquanto desafio: como transgredir o bom gosto sem cair no vulgar, como expressar o grotesco sem perder o sublime? Assim, a triste e terrível viúva D sai do seu vão de escada para subir ao palco em Coimbra (Companhia do Morcego, 2006) ou em Brasília (por Catarina Accioly, que também a levará ao cinema).

Na montagem paulista, sob direção de Donizeti Mazonas e Rosi Campos, Susan Damasceno assume o texto inteiro sob forma de monólogo, com um mínimo de cenário, façanha permitida àqueles que se prepararam pelo severo crivo do “Prêt-à-Porter” de Antunes Filho. Em sua adaptação, em parceria com Germano Mello, Damasceno se multiplica em personagens secundários, dos vizinhos caipiras ao misterioso pai incestuoso, expressando assim a lúcida esquizofrenia que obcecava Hilst (ela deixou de ter filhos para que nenhum herdasse o mal de seu pai).

Uma iluminação precisa, um figurino discreto, a ausência de trilha deixam toda a responsabilidade para a atriz – e é belo que seja assim. Damasceno surge como um anjo ao avesso, uma bruxa ridícula e iluminada, louca de aldeia que cultua Deus em sua forma mais carnal: o menino-porco.

Assim, nenhum palavrão é concessão, nada pornográfico é apelativo. Pelo contrário, o angustioso desabafo soa como um ritual escatológico dionisíaco, que a atriz leva com rigor até o desconforto. Em respeito à minúcia da proposta, é preciso notar que a partitura gestual às vezes se sobrecarrega de detalhes, e a monotonia paira sobre o ritmo e o tom: desfaz-se o fascínio da personagem, ofuscada pela admiração pela técnica da atriz. De todo modo, esta “Senhora D” serve como cartão de visitas de uma atriz rara. (bom).    

Escrito por Sérgio às 12h08
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28/01/2008


AS OLIVIAS GANHAM A EMPATIA ATRAVÉS DO ESTEREÓTIPO

 

Nem todas são tão altas, nem todas são tão magras, mas “As Olívias” tiram partido de sua “inadequação no mundo” através do humor, segundo a fórmula conhecida da inversão de valores, da revanche do perdedor.

A trajetória do grupo tem muito em comum com a do “Antropofocus”, que o antecedeu neste “Janeiro Brasileiro da Comédia”. Ambos se originaram em brincadeiras de intervalos de faculdade (as meninas, no caso, na Escola de Arte Dramática de São Paulo), atividade extra-curricular que se revelou mais proveitosa no mercado do que o que os professores tinham para oferecer. Ambos se amparam na cumplicidade com a platéia, a partir da verve cômica de cada elemento do grupo e a capacidade de improvisar temas sugeridos na hora.

Marianna Armellini, em especial, tem um grande domínio de seu tipo físico e o despudor de se colocar nas situações mais ridículas com dignidade, conquistando uma grande empatia. O grupo, em geral, tem uma grande harmonia, que se faz sentir especialmente na técnica verbal de manterem um ritmo acelerado a várias vozes, se interrompendo sem se atropelar, mesmo quando dialogam com a platéia, ponto alto do show.

Nas paródias com canto e dança, não cantam nem dançam bem, mas sabem fazer isso dentro do estilo proposto de blefe assumido, o que não deixa de ser uma técnica. Mas ficam devendo, no entanto, no prometido “olhar feminino”.

É claro que a feiúra é ingrediente básico do cômico, seja masculino ou feminino (seria Bussunda tão engraçado se fosse belo e esbelto?). Por outro lado, a carência afetiva feminina rende bons momentos de auto-ironia – basta lembrar o esquete de “Mangiare”, do Grupo Pedras do Rio de Janeiro, com a moça atacando a geladeira enquanto o namorado não telefona.

Porém, “As Olívias” partem na maioria das vezes do estereótipo machista contra as que não se encaixam no modelo mulher-objeto: mães castradoras, mulheres burras, mal-amadas, vingativas, em vinhetas apresentadas pela voz do diretor, acabam mais reafirmando do que questionando.

Não se cobra aqui a bandeira feminista desfraldada sistematicamente (e é preciso ressaltar que a causa está bem representada no quadro em que as Olívias ensinam os homens da platéia a “ligarem no dia seguinte”). Mas o humor que apenas endossa o estereótipo acaba se privando do privilégio que tem de abrir sem dor feridas incômodas – mesmo que em geral faça um sucesso mais instantâneo e duradouro. Acaba transformando o artista em "boneco", segundo o termo do próprio grupo.

Escrito por Sérgio às 11h13
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