CLOWNSSICOS ENCERRA FESTIVAL COM CHAVE DE OURO
Depois de duas montagens nas quais os grupos se declararam jovialmente ter subvertido a sisudez da escola para triunfar com a insolência das improvisações do intervalo, eis que surge a Cia do Giro com seus professores - clowns. De fato, o Tepa, teatro escola de Porto Alegre, não menospreza o humor, pelo contrário: lá o curso de clown coroa uma longa aprendizagem de várias tradições teatrais, a Tragédia Grega, Shakespeare, o Realismo de Tchekhov...
Daniela Carmona, diretora do curso e da companhia, como uma diretora porta voz da turma do fundão, ousou o projeto: por que o humorista só cuida dos temas triviais do cotidiano? Não poderia dar conta das misérias humanas? Assim surgiu Clownssicos, com um roteiro sofisticado: uma trupe de clowns apresenta, em rígida ordem cronológica, os sucessivos gêneros sérios, subvertendo-os. Vale por um concentrado de anos de curso de História do Teatro, exigindo uma platéia inteligente e ágil.
O grupo é formado por clowns extraordinários, e as invenções se multiplicam. O problema da peça é que ela atinge um apogeu rápido demais. Quando o público, por obra própria imerso na floresta de Macbeth, vê lady Macbeth transformada na Monga do Circo enfrentar Chapeuzinho Vermelho, o conhecido tema do filme “Romeu e Julieta” se faz ouvir. Então meu vizinho, com um sorriso de profunda compreensão, declarou:
- Ah! Doutor Jivago!
Muito ainda estava ainda por vir, exigindo a decifração do público. Mas já era tarde demais, o delírio já contagiava e o que a platéia queria era subir ao palco. Assim é se lhe parece: os loucos tomam conta do hospício, Dionisos toma o controle do navio e domina a cidade em carros navais.
A lógica do palhaço dominou dez dias em Rio Preto, provando a Penteu – o líder de Tebas que só acreditava na razão, e por isso enlouqueceu – que todo cidadão precisa de um Festival de Teatro para subverter a ordem e questionar as regras, em clima de jogo e alegria, antes de voltar à rotina. Este ano, aliás, Dioniso passa a chave da cidade direto ao Rei Momo, e as tradições se somam.
Questionar a ordem é a única forma sensata de revalidá-la e ajustá-la às exigências de cada dia. Mais do que uma feira de novidades, o Festival é uma estratégia oferecida ao cidadão para que se sinta representado nas tomadas de decisão de sua vida. O nome disso é democracia. Sorte da cidade cujo prefeito – seja qual for seu partido – compreende essa profunda importância do Teatro.


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