MONTAGEM DE YASMINA REZA É CONSERVADORA E INTELIGENTE
Não há nada de inesperado em “O Homem Inesperado” – o que, no caso de Paulo Goulart e Nicette Bruno, casal protagonista, quer dizer que a peça é boa. Tema e variações em torno de uma situação teatral minimalista, a peça de Yasmina Reza narra o encontro ocasional durante uma viagem de trem entre um escritor famoso e uma de suas fãs, dona de casa que compartilha com ele a dor e a delícia de pertencer ao que hoje se convenciona chamar “a melhor idade”.
Partindo do banal – embora o olhar brasileiro encontre charme e elegância em tudo que vem da França- o real é deslocado por um recurso simples: marcando a “saia justa” de passar longas horas diante de um desconhecido, sem saber como lhe dirigir a palavra, a peça é sobretudo uma superposição de dois monólogos, uma “voz off” feita ao vivo pelos atores. Quando finalmente os dois dialogam, o público já está bem familiarizado com os pensamentos de cada um. Marta é toda estratégia; tem vergonha de abrir um livro diante de seu autor, ensaia o que dizer para não parecer atirada nem indiferente. Paul vai à deriva de seu fluxo de consciência, e revela-se no cotidiano uma pessoa bem menos sofisticada que sua prosa deixa entrever.
Um exercício para atores então, o que justifica a escolha de um ator para dirigi-lo. Emilio de Mello, com uma respeitável folha corrida em cinema e teatro, já tinha compartilhado a criação junto a Enrique Dias de uma antológica “Gaivota”. Aqui ele se mostra um diretor de atores exemplar, ou seja, age como um catalisador do material trazido pela interpretação, sem procurar “assinar seu nome”. (Curiosamente, quem acaba roubando o foco é Marcos Flaskman, com um cenário engenhoso mas que ao invés de servir ao ator, faz o contrário).
Paulo Goulart está em casa. Dividindo o palco com sua parceira de décadas e sem sequer precisar trocar o nome, põe no bolso o público do Teatro Renaissance, que se identifica com ele na idade e na classe social, com um mau-humor bonachão que desmistifica o intelectual sem diminuí-lo. Nicette Bruno, representando as senhoras da platéia, é puro charme, uma sessentona com um feminismo tímido, feito de delicadeza e bom senso.


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