Na Moita


09/02/2008


MONTAGEM DE YASMINA REZA É CONSERVADORA E INTELIGENTE

 

Não há nada de inesperado em “O Homem Inesperado” – o que, no caso de Paulo Goulart e Nicette Bruno, casal protagonista, quer dizer que a peça é boa. Tema e variações em torno de uma situação teatral minimalista, a peça de Yasmina Reza narra o encontro ocasional durante uma viagem de trem entre um escritor famoso e uma de suas fãs, dona de casa que compartilha com ele a dor e a delícia de pertencer ao que hoje se convenciona chamar “a melhor idade”.

Partindo do banal – embora o olhar brasileiro encontre charme e elegância em tudo que vem da França- o real é deslocado por um recurso simples: marcando a “saia justa” de passar longas horas diante de um desconhecido, sem saber como lhe dirigir a palavra, a peça é sobretudo uma superposição de dois monólogos, uma “voz off” feita ao vivo pelos atores. Quando finalmente os dois dialogam, o público já está bem familiarizado com os pensamentos de cada um. Marta é toda estratégia; tem vergonha de abrir um livro diante de seu autor, ensaia o que dizer para não parecer atirada nem indiferente. Paul vai à deriva de seu fluxo de consciência, e revela-se no cotidiano uma pessoa bem menos sofisticada que sua prosa deixa entrever.

Um exercício para atores então, o que justifica a escolha de um ator para dirigi-lo. Emilio de Mello, com uma respeitável folha corrida em cinema e teatro, já tinha compartilhado a criação junto a Enrique Dias de uma antológica “Gaivota”. Aqui ele se mostra um diretor de atores exemplar, ou seja, age como um catalisador do material trazido pela interpretação, sem procurar “assinar seu nome”. (Curiosamente, quem acaba roubando o foco é Marcos Flaskman, com um cenário engenhoso mas que ao invés de servir ao ator, faz o contrário).

Paulo Goulart está em casa. Dividindo o palco com sua parceira de décadas e sem sequer precisar trocar o nome, põe no bolso o público do Teatro Renaissance, que se identifica com ele na idade e na classe social, com um mau-humor bonachão que desmistifica o intelectual sem diminuí-lo. Nicette Bruno, representando as senhoras da platéia, é puro charme, uma sessentona com um feminismo tímido, feito de delicadeza e bom senso.

Não há nada de hermético, e mesmo o truque das vozes internas superpostas já se fez soar, com mais lirismo até, em “Cheiro de Chuva”, de Bosco Brasil, prata da casa recém traduzida em francês, uma troca de gentilezas para o ano da França no Brasil. Representando a França, “O Homem Inesperado” preenche perfeitamente sua função. Porta voz de um pensamento conservador, mas nem por isso pouco inteligente, expressa bem a era Sarkozy. Um pouco falado demais, com um final previsível, não procura revoluções, e se sai bem. (bom).   

Escrito por Sérgio às 17h40
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05/02/2008


COMPANHIA DOMINA O MUNDO ENTRE A UTOPIA E O PRAGMATISMO

 

Fundado em 1984 por Guy Laliberté, um artista de rua de 20 anos que sonhava com um circo mais próximo do público, sem animais e com uma nova formação de artistas, o Cirque du Soleil se tornou hoje uma marca bem sucedida, uma incorporação de 4.000 empregados em 16 espetáculos espalhados pelo mundo – 5 deles só em Las Vegas.

Hoje milionário, Laliberté procura conciliar um forte senso de marketing e pragmatismo empresarial com o idealismo inicial, que compreende a preocupação com a pobreza, a falta d’água no mundo e a “liberdade de sonhar”. Porém, ao contrário do “Théâtre du Soleil” de Mnouchkine, que ele quis homenagear, o Cirque trocou a utopia de artistas criadores por uma fórmula de regras rígidas, contratando talentos circenses do mundo todo para um trabalho em escala industrial.

Vários artistas brasileiros importantes passaram por ali, por isso é bom que sua visita se torne atração fixa da nossa temporada. Resta lamentar que os mais velhos espetáculos cheguem primeiro, como o “Saltimbanco”, que se aposentou no Rio em 2006, com 14 anos de serviços.

“Broadway” do circo, os espetáculos são previsíveis, e talvez por isso atraia colossais patrocínios públicos e privados. Não importa: de bom gosto e boa qualidade, que possam convencer empresários que apostar na arte pode ser um bom negócio.   

Escrito por Sérgio às 18h42
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GRUPO ESPANCA MANTÉM A EXCELENCIA EM AMORES SURDOS

 

Em arte, quando a consagração vem já na primeira empreitada, a segunda pode ser um pesadelo. O Grupo Espanca! por exemplo. Tendo estourado inesperadamente com “Por Elise”, no Festival de Curitiba de 2005, multipremiado pelo Brasil afora, o seu segundo espetáculo gerou uma forte expectativa: seria sorte de principiante?

O problema é que se “Amores Surdos” fosse muito diferente do primeiro, daria a impressão de falta de projeto, de franco atiradores em busca de fama. Esperava-se uma fábula sutil, como a primeira, com frases aparentemente ingênuas que iriam ganhando sentidos cada vez mais profundos a cada leitura. Mas, no entanto, se fosse muito parecida, diluiria o impacto inicial: o grupo estaria seguindo uma fórmula rentável.

Acontece que nada é por acaso no Espanca. Basta checar no blogger do grupo o detalhado e bem escrito diário de criação de “Por Elise” (http://www.porelise.blogger.com.br/2005_01_01_archive.html). Desde o primeiro ensaio de 2005 o grupo busca em conjunto uma linguagem não necessariamente nova, mas que sirva para eles contarem o que precisam contar.

Por isso, mais do que comparar um espetáculo com o outro, é revelador comparar a atual temporada de “Amores Surdos” com a de 2006, no Sesc Pompéia. O texto nunca deixou de evoluir, as marcas se tornaram mais essenciais e precisas. O que parecia uma referência excessiva ao universo de Ionesco  (uma espécie de síntese entre “Rinoceronte” e “Amadeu ou Como se Livrar dele”) tornou-se uma fábula orgânica, extremamente pessoal, combinando o pueril com o visceral – como “Por Elise”.

Desta vez a direção não é mais da autora Grace Passô, mas de Rita Clemente. Com isso, o grupo ganhou uma estética um pouco diferente, com incorporação de um cenário quase realista – e um pouco desajeitado- e marcações mais abstratas. No entanto, a interpretação dos atores não deixa nunca o espetáculo se tornar hermético ou aleatório.

Assim, Paulo Azevedo, um ator de grande altura, faz o papel de “Pequeno”, o frágil irmão mais novo, sem evitar o grotesco mas sem cair no ridículo, em performance inesquecível. Passô reitera sua função materna, com a força habitual, mas dessa vez a função de narrador é feita sobretudo por Gustavo Bones, o irmão que, sonâmbulo, se dirige à platéia, em divertido truque metalingüístico.

Marcelo Castro, com um personagem menos definido (o irmão que não consegue sair de casa) e Mariana Maioline (a irmã alheia), com menos experiência de atriz, completam o elenco de grande cumplicidade em cena.

Comédia? Tragédia? Bufonaria? A dificuldade de se por um rótulo em “Amores Surdos” é a garantia de que muito ainda virá do Espanca! Um conselho apenas: não se apresse em aplaudir na cena final, no escuro.(bom)  

Escrito por Sérgio às 18h41
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