SATYROS TIRAM NELSON DO MUSEU
“Vestido de Noiva”, relido pela Companhia Os Satyros, não é um espetáculo sem defeitos. Seu elenco é desigual: se a Lúcia de Nora Toledo costura com firmeza a peça, surgindo aos poucos, a beleza cinematográfica de Cléo de Paris ainda se revela insuficiente, sobretudo em maturidade de entonação, para assumir a protagonista Alaíde. O elenco de apoio, coro ampliado de jornalistas, cirurgiões e delírios em geral, é simpático e divertido, mas acaba roubando a cena algumas vezes. Contidos, os outros atores fixos da companhia exercem bem a sua função, mas a encenação de Rodolfo Vazquez peca por excesso de idéias que às vezes dão um tom descabelado de show de variedades, efeitos que fazem sorrir por um minuto em sucessão vertiginosa e sem muita consistência.
E no entanto, essa sem cerimônia faz com que o grupo prove dois pontos essenciais, que podem se tornar um divisor de águas no teatro brasileiro. O primeiro, é que é possível se fazer uma leitura que, sem desrespeitar o universo rodriguiano, se livre da referência obrigatória à encenação de Ziembinski.
O fato é curioso, já que a origem do projeto, pelo Itaú Cultural, foi o de justamente homenagear os três planos – memória, fantasia, realidade – da montagem histórica com uma leitura quase improvisada pelo grupo, meses atrás. O resultado agradou tanto que rendeu um convite de Milú Villela para inaugurar teatralmente o seu espaço na Avenida Paulista – e o resultado foi que as longas filas que costumavam se formar em frente ao teatro Popular do Sesi agora mudaram de endereço.
Duplo lucro: teatro grátis de qualidade para o público, e a prova definitiva que Os Satyros não dependem de seu feudo na Praça Roosevelt para funcionar. A falta de recursos, para nenhum grupo, aliás, é ponto de honra, e se espera que a iniciativa de Villela de misturar guetos seja seguida por outros empresários de visão.
Livres do ensimesmamento das suas últimas encenações auto-referenciais, mas sem se intimidar por medir forças com uma encenação consagrada, o grupo demole tabus sem fazer alarde. Não fazem falta os planos: a história se passar toda dentro da cabeça da protagonista Alaíde apenas faz com que “Vestido de Noiva” fique mais próximo de “Valsa n° 6”. Ao mesmo tempo mais expressionista e mais pueril, Hamlet de Craig e Alice no Pais das Maravilhas, “Vestido de Noiva” sai do museu, e já era hora.
O outro grande ponto demonstrado é que Norma Bengell, ao contrário do que tinha se murmurado maldosamente, vai muito bem, obrigado, e segue sendo uma das melhores atrizes do país. Fundamental para a referência multimídia da direção ao glamour do cinema, tornando plausível uma divertida metalinguagem com trechos da peça projetadas em forma de filme (com legendas em inglês), Bengell sabe se manter a musa de voz melodiosa e precisa, dos gestos elegantes, do enorme encanto pessoal. E sabe também saltar fora disso, com uma auto-ironia de criança.
A puerilidade assumida pela encenação faz com que o mergulho em Nelson seja tão atraente como uma vitrine na Rua São Caetano. Claro que haverá outras com profundidades diferentes. Mas talvez nenhuma com tanto prazer de estar vivo – tema fundamental, talvez, de “Vestido de Noiva” (bom)


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