Na Moita


15/02/2008


SATYROS TIRAM NELSON DO MUSEU

 

“Vestido de Noiva”, relido pela Companhia Os Satyros, não é um espetáculo sem defeitos. Seu elenco é desigual: se a Lúcia de Nora Toledo costura com firmeza a peça, surgindo aos poucos, a beleza cinematográfica de Cléo de Paris ainda se revela insuficiente, sobretudo em maturidade de entonação, para assumir a protagonista Alaíde. O elenco de apoio, coro ampliado de jornalistas, cirurgiões e delírios em geral, é simpático e divertido, mas acaba roubando a cena algumas vezes. Contidos, os outros atores fixos da companhia exercem bem a sua função, mas a encenação de Rodolfo Vazquez peca por excesso de idéias que às vezes dão um tom descabelado de show de variedades, efeitos que fazem sorrir por um minuto em sucessão vertiginosa e sem muita consistência.

E no entanto, essa sem cerimônia faz com que o grupo prove dois pontos essenciais, que podem se tornar um divisor de águas no teatro brasileiro. O primeiro, é que é possível se fazer uma leitura que, sem desrespeitar o universo rodriguiano, se livre da referência obrigatória à encenação de Ziembinski.

O fato é curioso, já que a origem do projeto, pelo Itaú Cultural, foi o de justamente homenagear os três planos – memória, fantasia, realidade – da montagem histórica com uma leitura quase improvisada pelo grupo, meses atrás. O resultado agradou tanto que rendeu um convite de Milú Villela para inaugurar teatralmente o seu espaço na Avenida Paulista – e o resultado foi que as longas filas que costumavam se formar em frente ao teatro Popular do Sesi agora mudaram de endereço.

Duplo lucro: teatro grátis de qualidade para o público, e a prova definitiva que Os Satyros não dependem de seu feudo na Praça Roosevelt para funcionar. A falta de recursos, para nenhum grupo, aliás, é ponto de honra, e se espera que a iniciativa de Villela de misturar guetos seja seguida por outros empresários de visão.

Livres do ensimesmamento das suas últimas encenações auto-referenciais, mas sem se intimidar por medir forças com uma encenação consagrada, o grupo demole tabus sem fazer alarde. Não fazem falta os planos: a história se passar toda dentro da cabeça da protagonista Alaíde apenas faz com que “Vestido de Noiva” fique mais próximo de “Valsa n° 6”. Ao mesmo tempo mais expressionista e mais pueril, Hamlet de Craig e Alice no Pais das Maravilhas, “Vestido de Noiva” sai do museu, e já era hora.

O outro grande ponto demonstrado é que Norma Bengell, ao contrário do que tinha se murmurado maldosamente, vai muito bem, obrigado, e segue sendo uma das melhores atrizes do país. Fundamental para a referência multimídia da direção ao glamour do cinema, tornando plausível uma divertida metalinguagem com trechos da peça projetadas em forma de filme (com legendas em inglês), Bengell sabe se manter a musa de voz melodiosa e precisa, dos gestos elegantes, do enorme encanto pessoal. E sabe também saltar fora disso, com uma auto-ironia de criança.

A puerilidade assumida pela encenação faz com que o mergulho em Nelson seja tão atraente como uma vitrine na Rua São Caetano. Claro que haverá outras com profundidades diferentes. Mas talvez nenhuma com tanto prazer de estar vivo – tema fundamental, talvez, de “Vestido de Noiva” (bom)  

Escrito por Sérgio às 14h56
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NELSON RODRIGUES É O REVELADOR DE CADA GERAÇÃO

 

“Homero do subúrbio” para Hélio Pellegrino, Shakespeare brasileiro para muitos, inclusive a própria Bárbara Heliodora, como ainda se referir a Nelson Rodrigues sem cair na louvação redundante, honrar sua irreverência sem chafurdar na burrice da unanimidade?

Primeiro, é preciso definir o que é ser Shakespeare. A exaltação patriótica de termos um gênio universal e atemporal em teatro, em desagravo triunfante dos percalços que Nelson conheceu em vida, por ter obsessivamente remado contra a maré da moral e bons costumes da direita e da esquerda, encerra sua insolência em um pedestal incômodo.

Ora, Shakespeare não é grande porque esteve acima de sua época. É grande porque, atolado até o pescoço nas mesquinharias de seu tempo, soube sublimá-las em situações dramáticas fundamentais. Se formos seguir uma tendência atual de ler suas peças pela luz dos duplos sentidos da gíria da época, Shakespeare escrevia mais indecências que Nelson Rodrigues, o pornógrafo que nunca escreveu um palavrão. Quem ousa censurá-lo por isso, a não ser os franceses do século 18?

Maldito em vida, e porta-voz de cada geração subseqüente, nosso Shakespeare passou pelo rótulo de pioneiro da modernidade, de vulgar, de cult, de revisteiro, de junguiano, até conquistar o último estágio que um dramaturgo pode atingir: a de ser uma espécie de revelador químico, que expõe a essência de quem encosta nele.

Assim, montado por Eduardo Tolentino com elenco polonês, “Vestido de Noiva” tomou uma cor de profunda e amarga auto-ironia. A famosa frase de efeito (entre tantas outras) “nunca fui tão feliz! Levei uma bofetada e não reagi” parecia saída de um filme de Bergmann – reza a lenda que Tolentino tinha que berrar de vez em quando da platéia, durante os ensaios: essa peça é comédia! Comédia!

Ai de quem dissesse isso perto de Antunes Filho, décadas atrás, quando reabilitou o sublime por trás do escacho de Nelson, em montagem antológicas como “Nelson 2 Rodrigues”, em 1984, nos primórdios do CPT, que ganhou crítica até no New York Times. É que “Mister Filho” lutava contra um barateamento do humor rodrigueano, que ameaçava prendê-lo nos limites estreitos da pornochanchada do cinema da época.

Com a obsessão sexual consagrada enquanto arte, os incestos e crimes de Nelson puderam entrar no horário nobre da Globo, de volta aos braços do folhetim que os gerou. Demônio familiar da nova geração, atualmente são raros os alunos de teatro que não treinem seus méritos com alguma cena de Nélson Rodrigues. E por que a grandiloqüência de “pai, não irei a teu enterro!” de "Toda Nudez Será Castigada" seria menos instigadora que o “A moi, Conte, deux mots” do Cid de Corneille?  

Escrito por Sérgio às 13h35
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