“BREVIÁRIOS” DEMONSTRAM A IMPORTÂNCIA DO ATOR
Há um fenômeno interessante na atual temporada de teatro paulista. Duas peças de um mesmo autor – Chico Buarque de Holanda -, dirigidas pelo mesmo diretor, Heron Coelho, com os mesmos objetivos e estratégias, pelo mesmo projeto “breviário”, tem resultados opostos: uma peça é bem sucedida, a outra não. A extrema disparidade da avaliação entre as duas é particularmente didática para desfazer a velha acusação de que uma opinião crítica depende inteiramente dos gostos pessoais e das amizades do crítico.
Pois bem: aqui se tem um procedimento comum, a épica brechtiana, que tem como ponto de honra valorizar o ator em detrimento do espetáculo, e promover o distanciamento crítico não só ao evitar a identificação entre ator e personagem como ao deslocar um episódio histórico ou mítico no tempo e espaço. “Gota d’Água”, de Chico com Paulo Pontes, é a arquetípica Medeia grega na favela; “Calabar”, parceria com Ruy Guerra, é a ambigüidade do conceito de pátria no Brasil Holandês ecoando as contradições internas da resistência armada à recente ditadura militar.
Ambas as peças se engajam em uma ideologia de esquerda, que questiona a ordem e promove a dúvida, tentando evitar o maniqueísmo. Na comunidade da primeira peça, é preciso ceder à autoridade para conquistar um prazo maior para pagar as dívidas – e a heróica intransigência da protagonista ameaça a todos. Na segunda, há um herói morto – Calabar, que nunca sobe em cena, e logo morre – e traidores de todos os níveis em acusações mútuas. Para dar conta do debate, a platéia cercando os atores, em disposição de arena – não por acaso, nome do teatro símbolo dessa época – e canções com raízes populares, estratégia para veicular idéias que marcou o engajamento político dos anos 70.
Ambos espetáculos são musicais, portanto, e no projeto de Coelho estão em formato de “breviário”, que sintetiza (mais em termos de custos de produção do que de tempo de apresentação, já que ambos são espetáculos longos, de mais de 100 minutos) “clássicos” brasileiros que andavam servindo como mero pretexto para experimentalismos vazios ou veículos para espetáculos puramente comerciais.
O que interessa, pois, é a discussão; mas mesmo o pior inimigo do gênero musical não ficaria indiferente à qualidade das músicas de Chico Buarque. Conteúdo e formas primorosas, dentro de uma estratégia adequada para os objetivos políticos das duas peças: o projeto de Coelho é inatacável, portanto.
Mas então por que um espetáculo funciona e o outro não? Pelos atores. Em teatro, eles são os donos do sentido do espetáculo, e independente do talento individual, uma postura equivocada põe tudo a perder. Quando se entra no teatro Fábrica, o “aquecimento” dos atores é compartilhado pelo público, truque de sedução que lembra o ‘te-ato’ Oficina: se os atores se dirigem diretamente à platéia, esta deve ser considerada colega, e não adversário. No Sesc Paulista, no entanto, o público é recebido fora da sala por um elenco que, tal grupo de rua, tem uma alegria que contrasta com a sisudez da música erudita que faz sala para os que ocupam seus lugares – somos a platéia burguesa européia a ser combatida.
O elenco de “Calabar”, defensor de uma causa que não é discutida, mas proclamada a priori com arrufos retóricos, aponta sua interpretação caricatural contra a platéia, como uma provocação. Atores com pouca experiência, ou mais preocupados com a performance individual, cantam com voz impostada, ou tocada fora de rotação em disco, quase uma paródia arrogante da música de Chico.
O elenco de “Gota d’Água” – no qual brilha, sim, Georgette Fadel, mas como uma goleadora à frente de um meio de campo de craques – se coloca vulnerável à improvisação de cada dia, e revitaliza cada preciosidade do texto de Chico Buarque, meio termo entre o diamante de Racine e o rubi de Nelson Rodrigues. Mas o texto, em teatro, é uma jóia que só aparece no dedo – o resto é intenção.
(Calabar, péssimo; Gota d’Água, ótimo).


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