TAPA FAZ UMA MORATORIA PRIMOROSA MAS PRUDENTE
Após consagrar Nelson Rodrigues e reabilitar Plínio Marcos como bem mais que um “repórter de um tempo mau”, resta ainda para aqueles que têm como missão passar a limpo o teatro brasileiro do século passado a delicada e importante tarefa de reatualizar Jorge Andrade.
Contraponto paulista e apolínico do dionisíaco universo rodriguiano, tendo sustentado os anos dourados do teatro brasileiro de Comédia com seus maiores sucessos (Os Ossos do Barão) e seus mais geniais fracassos (Vereda da Salvação), a obra de Andrade segue um ambicioso projeto de criar um painel histórico e social do homem brasileiro, com a amplidão cronológica de Shakespeare e a profundidade essencial de Tcheckhov.
Antunes Filho já serviu bem à causa ao fazer sua segunda versão de Vereda da Salvação, sublimando uma montagem que, estreada logo após o golpe de 1964, fracassou ao ser bombardeada à esquerda e à direita, o que levou ao fechamento definitivo da fábrica de sonhos que era o TBC.
É que a serenidade do distanciamento racional é fundamental para o projeto andradiano. Andrade não faz um teatro para espalhar a peste, como Nelson, mas para entender e perdoar. Elegante no comedimento dos diálogos, dosando a ousadia na quebra progressiva do realismo psicológico, foi muito bem servido em vida por diretores, atores e crítica.
E isso, desde sua estréia em 1955, no engajado e luxuoso teatro de Maria della Costa, com essa marcante “Moratória” que lançou Fernanda Montenegro ao estrelato, com uma direção de Gianni Ratto que mereceu elogios contundentes de Décio de Almeida Prado e uma antológica análise de Gilda de Mello e Souza.
Foi em torno de homenagens à Gilda, aliás, que surgiu a presente montagem do Grupo Tapa. Eduardo Tolentino já havia feito um excelente Jorge Andrade em “O Telescópio”, e seu estilo de dirigir serve muito bem ao comedimento do autor.
Ninguém mais indicado que o Tapa, portanto, para retomar a “Moratória”, que surpreendentemente mantinha-se longe dos palcos profissionais desde sua estréia. Esteve à altura da tarefa? Não totalmente.
O essencial foi feito: com a longa prática do realismo teatral, que está longe do simplismo da televisão, a montagem constrói tipos verossímeis e marcantes. Zécarlos Machado faz um Joaquim entre a arrogância e o desamparo com rara clareza. Atualmente, a ousadia do autor de fazer ações em dois tempos simultâneos (antes e depois da bancarrota familiar) dispensa um cenário didaticamente dividido em diagonal: bastam sutis elementos simbólicos sobre a mesa de jantar, a cuidadosa mudança de postura de Machado e o distanciamento épico está posto.
Augusto Zacchi tem o mérito de expressar a fraqueza de Marcelo escapando do clichê do filho amorfo: enfrenta o pai com amor e desespero, embora se mantenha em um tom constante. É o que limita a atuação também de Larissa Prado, uma Lucília forte mas quase sem ternura, enquanto que Lu Carion faz uma Helena mais ambígua, menos submissa que sua função de mãe aparenta.
“A Moratória”, no entanto, apesar dos requintes e da inteligência da presente encenação, ainda soa anacrônica, bem mais datada que “O Jardim das Cerejeiras” de Tchekhov que a inspira. É certo que o projeto do Tapa tenha sido quase que de uma restauração em suas linhas essenciais, mantendo a simplicidade que fazia a força da estréia de 1955, abrindo caminho talvez para futuras “desconstruções” mais radicais. Mas a concessão à estética do melodrama em momentos chave e o desenrolar lento, com informações reiteradas, lembram mais a prudência da novelas “de época” da TV que uma desafiadora semente do teatro simbolista.


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