Vesperais do Municipal têm o charme de um almoço em família
Quando há concerto no parque, o que atrai o cidadão, o sol ou a música? Nada melhor que um belo domingo, como o da semana passada, para fazer o teste: estaria lotado o Teatro Municipal, à sombra, só com o apelo de Wagner, Tchaikovski e a pianista russa Valentina Igoshina?
A resposta foi imediata: quase que o crítico interino fica de fora, chegando apenas meia hora antes na enorme e democrática fila da cultura a bom preço. Predominava um bom humor cordato, como se o encontro com a Sinfônica Municipal fosse um almoço na casa da avó, que mesmo sem a sofisticação da Sala São Paulo, acolhe os parentes de todas as classes com sua melhor louça.
Informal, mas nunca vulgar, o ritual envolve acenos discretos de violinistas à família na platéia, um luxo quase irônico no figurino, que inclui o lenço de pirata na cabeça de um oboísta, e a prontidão dos percussionistas, de pé no fundo do salão como garçons solícitos. O segundo violino afina os colegas, o primeiro ganha aplausos ao entrar, e todos de pé para a chegada do maestro (que inveja que um diretor de teatro sente disso!)
Então, após saborear o silêncio, José Maria Florêncio bate as asas da casaca e ergue todos ao céu do prelúdio de Lohengrin de Wagner, uma rápida e leve entrada para prato principal: precedida pelo piano, surge a convidada ilustre. Igoshina nem dá trela para sua beleza de superstar. Simpática e eficiente como uma hostess, faz a receita correta de uma rapsódia de Rachmaninov na ponta dos dedos, cantarolando como a Branca de Neve enquanto trabalha. Cobre-se de aplausos, e é intervalo.
Depois do caos do champanhe na cantina, a sobremesa: uma infalível quarta sinfonia de Tchaikovski, adoçada nos sopros e flambada nos metais, na qual Florêncio é protagonista. Braços cruzados, é mestre severo entre alunos aplicados em prova de pizzicato, para logo em seguida cavalgar à frente das tropas, grandiloqüência gestual que põe à prova o pacto de silêncio entre os movimentos.
Ninguém faz feio; tirando os inevitáveis solistas da tosse, a platéia é bem formada, e o crítico de teatro se dá conta que sequer foi necessário pedir o desligamento dos celulares. Decidi: já que nunca irei mesmo correr no parque, vou me aperfeiçoar cidadão nas vesperais do Municipal.



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