Na Moita


22/03/2008


MÃE CORAGEM DO ARMAZÉM FAZ O DISTANCIAMENTO PELA SUTILEZA

 

Louise Cardoso é conhecida por sua generosidade em relação ao teatro de grupo: ao patrocinar a Cia Livre de Cibele Forjaz, por exemplo, garantiu um importante “Um Bonde Chamado Desejo”. Para protagonizar “Mãe Coragem e Seus Filhos” quis contar com o grupo Armazém, que já havia feito com Paulo Autran, na “Tempestade” de Shakespeare, uma fecunda parceria.

Ambos ganharam com o encontro. Cardoso faz uma Mãe Coragem com grande simpatia, enfrentando as vicissitudes da guerra com um riso feroz, sedutora e odiosa quando preciso. Ao visitar o universo de Brecht, menos lírico do que o costumeiro no repertório da companhia, o Armazém provou ter conquistado uma posse plena da palavra (ajudados pela boa tradução de Maurício Arruda Mendonça), sem perder o humor e o aprofundamento, evitando assim o didatismo que tanto mal faz às encenações brechtianas ortodoxas.

Mas algo desandou na receita. Mesmo contando com Simone Mazzer, cuja voz poderosa acaba fazendo sua Ivete ofuscar o canto mais contido de Cardoso, as canções brechtianas, atrações fixas do texto, acabam se tornando um apêndice incômodo no espetáculo. Embaraçadas em uma indefinição de arranjo, que embora contando com músicos ao vivo tem na percussão seu maior apoio, não cumprem a sua maior função de distanciamento.

É porque o grupo, ao seu estilo, garante o distanciamento de modo mais sutil, nas pausas cômicas, como na impagável cena em que a fila de reclamações vai se desfazendo aos poucos, ou nos elementos simbólicos abertamente assumidos, como quando Sérgio Medeiro faz o papel do pato a ser vendido ao cozinheiro do regimento.

O lado mais expressionista de Brecht está garantido pelo cenário, mais uma parceria entre o diretor Paulo de Moraes e a cenógrafa Carla Berri. Concretizando a degradação do tempo, obsessão de Brecht, através do pó e da ferrugem, os personagens evoluem tendo uma estranha paisagem no painel de metal ao fundo, com duas portas de tragédia grega, enquanto que no proscênio um arqueólogo narrador (a eficiente Verônica Rocha) vai desenterrando caveiras, reforço da morte predestinada pelo sorteio das cruzes no papel, mandinga da Mãe Coragem.

O passado obscuro, não histórico, está igualmente concretizado pela carroça, carcaça reaproveitada de um avião da Primeira Guerra, que embora tenha a grandiloqüência um pouco datada de Patrick Chéreau, diretor cenógrafo que introduziu Brecht na França, resolve bem as locações múltiplas ao ser deslocado no espaço.

O Armazém se mostra uma companhia sólida ao permitir o rodízio de seus atores. A grande Patrícia Selonk faz o papel menor da filha muda, o que lhe permite um extraordinário estudo expressionista, enquanto que Ricardo Martins, um marcante Queijinho, e Marcelo Guerra, um vigoroso Eilif, vêm á linha da frente com firmeza. 

Depois do ápice de “Toda Nudez Será Castigada”, “Mãe Coragem” figura como uma montagem menor do Armazém, mas não decepciona. (bom)

Escrito por Sérgio às 14h37
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20/03/2008


CYMBELINE É UM CONTO DE FADAS EM FORMA DE ROCK OPERA

 

Tragédia e conto de fadas, trash movie e paródia, com o cinismo amargo de uma história em quadrinhos para adultos, Cymbeline permanece a mais problemática e menos montada das peças de Shakespeare.

Resumir sua trama leva a uma espécie de antologia de momentos favoritos shakespeareanos. Cymbeline é um rei fraco e amargurado que, instigado por uma rainha ambiciosa como Lady Macbeth, manda para o exílio Póstumo, com quem sua filha Imogênia havia casado em segredo, como Julieta. Na Itália, Póstumo encontra Iachmo (“Iaguinho”), que, invejoso de um amor tão puro, convence-o da infidelidade da amada. Seguem-se fantasmas, decapitações, guerras, irmãos perdidos reencontrados, com uma verve barroca que rivaliza com Titus Andronicus.

“Um material perfeito para o Kneehight”, pensou a sua diretora Emma Rice, quando foi desafiada pelo Royal Shakespeare Company a descascar esse abacaxi, três anos atrás, no quadro de uma reavaliação completa das obras de Shakespeare. A companhia, uma “estranha família” na definição do membro fundador Mike Shepherd, foi criada há vinte e cinco anos em uma comunidade da cornualha na qual os celulares não pegam e os palcos são ao ar livre.

Em geral trabalhando com o universo infantil, ampliaram temas e territórios sem perder o olhar ingênuo e anárquico, passando de alternativos ao posto de transgressores oficiais, em uma trajetória análoga ao também britânico Cheek by Jowl (que, curiosamente, também montou um Cymbeline ano passado).

Talvez o fascínio pelo desafio de montar Cymbeline venha do fato de que, para compor esse esboço multiforme, uma companhia tenha que usar seu melhor material, expondo a essência de seu trabalho. Visto assim, tendo Shakespeare quase como mero ponto de partida, e a partir de um irônico e inteligente texto de Carl Grose, (que está em cena como Póstumo) o Kneehight montou uma ópera rock com um corifeu drag queen (o carismático Shepherd, que também faz Cymbeline), uma espantosa gaiola de metal, criada por Michael Vale, que se desdobra em vários territórios e sobretudo um elenco talentoso e ágil, daqueles que parecem se multiplicar em cena.

Tirando o pó do velho bardo, a companhia no entanto não o deforma pelo deboche. Aos poucos, no segundo ato, o humor negro vai cedendo a uma melancolia delicada, que, quando ninguém mais esperava, torna a trama terna e verossímil. Giulia Innocenti, no papel de Imogênia, tem a façanha de se manter ao mesmo tempo engraçada e comovente, provando que reverência e irreverência estão intimamente ligadas, quando o assunto é Shakespeare. Ponto para o British Council, que, trazendo essa montagem para cá, prova estar atenta para o que há de melhor nos palcos ingleses. (ótimo)

Escrito por Sérgio às 19h04
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19/03/2008


A PRAÇA ROOSEVELT VOLTA AO SOFÁ

 

Décadas atrás, membros da Ópera Seca de Gerald Thomas, pioneiros do teatro alternativo paulista, davam entrevistas com menosprezo jocoso pelo “teatro de sofá e whisky”, o convencionalismo a derrubar. Passagem de tempo: em “Amor e Restos Humanos”, montagem de Marco Antônio Pâmio para o texto de Brad Fraser, o menosprezo jocoso vai para o personagem ingênuo que olha para o futon da descolada protagonista e o chama de tofu.

Do sofá ao futon, o alternativo acabou reencontrando assento em um novo convencionalismo, com moldes tão previsíveis quanto o antigo – que aliás continua vendendo bem, como os móveis da Casa Bahia.

A Praça Roosevelt passou de gueto a plural ponto de encontro, e vem lotando com invejável fôlego a quase dezena de salas de seu entorno, porto seguro e base de lançamento de artistas criadores que vivem à margem do reconhecimento do sistema.

Mas toda essa abundante produção continua sendo experimental? Basta ver em seqüência “Amor e Restos Humanos” e “O Arquiteto e o Imperador da Assíria”, montagem de Haroldo Costa para o “clássico” de Arrabal, para reconhecer um protocolo do alternativo.

A falta de dinheiro e a fé no ator criador fazem do ator a medida de todos os cenários, com o constante exercício da sugestão, como nos psicodramas. Entre a arquitetura em módulos (como o futon que se desloca em “Amor...”) ou a decoração alegórica (como os eletrodomésticos sucateados e victorgarcianos de Costa), sobra pouco espaço para a pesquisa cenográfica.

Os atores, no entanto, pulando a etapa da interiorização do texto, jogada fora junto com a água sujo do psicologismo, ganham a cumplicidade do público só na recitação performática, dividindo o palco com projeções, pagando aqui e ali uma nudez breve e uma alusão à drogas e homossexualismo, como numa cartilha da transgressão.

Juntando-se à receita uma trilha de hits de pista e uma luz que se espreme em efeitos que pouco iluminam o texto, o aplauso está garantido para uma platéia fiel e autoreferente que, aos poucos, vai perdendo o ânimo de levantar da mesa do bar para ir até a platéia.

Domina o déjà vu. Costa, liberto da tutela do Oficina, se mantém fiel no entanto ao procedimento da alegoria do noticiário. Na sua última aparição, o Arquiteto surge fantasiado de China: não só os revolucionários se tornam colonialistas, mas os alunos devoram o mestre para se tornarem seu clone.

Cumprida com louvor sua primeira tarefa, a de se provar sustentável, resta à Praça agora voltar à experimentação. Um outra platéia, nova e ávida de novo, talvez seja a saída do impasse.

Escrito por Sérgio às 17h37
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17/03/2008


A ALMA IMORAL LIMITA-SE A UMA LEITURA DE BOM SENSO

 

A pedido de seus discípulos, um rabino moribundo transmite seu veredito final sobre o mundo: “a vida é uma xícara de chá”. Perplexos diante da enigmática revelação, estes ousam pedir maiores explicações ao mestre. Ele reúne suas últimas forças para dizer: “está bem. Então a vida não é uma xícara de chá”.

Bem aventurada a cultura judaica, que transmite sua tradição através do senso de humor e do questionamento irrestrito. De Jesus Cristo a Freud, sempre é útil consultar um rabino, e esse tênue limite entre o óbvio e o profundo está na essência também do budismo, outra fonte de paz em tempos ambíguos.

Nilton Bonder sabe explorar esse filão com boa fé e sucesso editorial, em um democrático semear de bom senso. Em “A Alma Imoral”, por exemplo, a acurada observação que, no Êxodo, Deus não abre o mar vermelho para o povo escolhido passar, mas o faz só depois de se comover com sua travessia suicida, pode servir tanto de inspiração para um empresário em falência quanto para um líder do MST. “Te ajude, que Deus te ajudará” poderia ser um provérbio de qualquer cultura, na sua simplicidade. Clarice Niskier, budista e judia, quis fazer disso um espetáculo.

Seduz sobretudo pelo despojamento. Nua, em um palco quase nu, tendo como figurino um único tecido preto que se molda em referências das várias culturas evocadas, Niskier se dirige diretamente ao público. Não é de se estranhar o grande sucesso que mereceu em meio a um mercado tão sufocado por deboches e melodramas. Como uma lufada de ar fresco, a dramaturgista-atriz encarna a própria alma descrita por Bonder, livre por essência, cheia de uma imoralidade cordata, contribuindo com a tradição através da transgressão.

Infelizmente, essa ousadia não escandalosa acaba sendo material escasso para a teatralidade. A nudez impressiona nos primeiros momentos, mas logo depois se adequa e se torna quase previsível; uma marcação a princípio coreográfica e sensual se torna quase um cacoete depois de muita repetição. Limita-se a uma leitura em uma livraria, o que é um filão importante, mas menor, do mercado teatral.

O premiado figurino de Kika Lopes tem a solenidade e a elegância gregas, mas se limita a um só efeito. Entre o cio e o luto, professora que explica sem sofrimento os torvelinhos de sua própria alma, Niskier se impõe como uma Fedra serenada pela somaterapia. Procura fugir das vulgaridades da auto-ajuda, mas também não visa uma busca dialética.

“Alma Imoral” não impõe verdades, mas também não levanta polêmicas. Não dialoga com a platéia: atendendo a pedidos, repete suas frases de efeito, talvez imaginando elucidar pela exasperação. Cristalizando bom senso em ditos populares, o espetáculo aos poucos soa como a xícara de chá do rabino: não é nada, não é nada, acaba não sendo nada mesmo. (MEDIANO)

Escrito por Sérgio às 12h10
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