MÃE CORAGEM DO ARMAZÉM FAZ O DISTANCIAMENTO PELA SUTILEZA
Louise Cardoso é conhecida por sua generosidade em relação ao teatro de grupo: ao patrocinar a Cia Livre de Cibele Forjaz, por exemplo, garantiu um importante “Um Bonde Chamado Desejo”. Para protagonizar “Mãe Coragem e Seus Filhos” quis contar com o grupo Armazém, que já havia feito com Paulo Autran, na “Tempestade” de Shakespeare, uma fecunda parceria.
Ambos ganharam com o encontro. Cardoso faz uma Mãe Coragem com grande simpatia, enfrentando as vicissitudes da guerra com um riso feroz, sedutora e odiosa quando preciso. Ao visitar o universo de Brecht, menos lírico do que o costumeiro no repertório da companhia, o Armazém provou ter conquistado uma posse plena da palavra (ajudados pela boa tradução de Maurício Arruda Mendonça), sem perder o humor e o aprofundamento, evitando assim o didatismo que tanto mal faz às encenações brechtianas ortodoxas.
Mas algo desandou na receita. Mesmo contando com Simone Mazzer, cuja voz poderosa acaba fazendo sua Ivete ofuscar o canto mais contido de Cardoso, as canções brechtianas, atrações fixas do texto, acabam se tornando um apêndice incômodo no espetáculo. Embaraçadas em uma indefinição de arranjo, que embora contando com músicos ao vivo tem na percussão seu maior apoio, não cumprem a sua maior função de distanciamento.
É porque o grupo, ao seu estilo, garante o distanciamento de modo mais sutil, nas pausas cômicas, como na impagável cena em que a fila de reclamações vai se desfazendo aos poucos, ou nos elementos simbólicos abertamente assumidos, como quando Sérgio Medeiro faz o papel do pato a ser vendido ao cozinheiro do regimento.
O lado mais expressionista de Brecht está garantido pelo cenário, mais uma parceria entre o diretor Paulo de Moraes e a cenógrafa Carla Berri. Concretizando a degradação do tempo, obsessão de Brecht, através do pó e da ferrugem, os personagens evoluem tendo uma estranha paisagem no painel de metal ao fundo, com duas portas de tragédia grega, enquanto que no proscênio um arqueólogo narrador (a eficiente Verônica Rocha) vai desenterrando caveiras, reforço da morte predestinada pelo sorteio das cruzes no papel, mandinga da Mãe Coragem.
O passado obscuro, não histórico, está igualmente concretizado pela carroça, carcaça reaproveitada de um avião da Primeira Guerra, que embora tenha a grandiloqüência um pouco datada de Patrick Chéreau, diretor cenógrafo que introduziu Brecht na França, resolve bem as locações múltiplas ao ser deslocado no espaço.
O Armazém se mostra uma companhia sólida ao permitir o rodízio de seus atores. A grande Patrícia Selonk faz o papel menor da filha muda, o que lhe permite um extraordinário estudo expressionista, enquanto que Ricardo Martins, um marcante Queijinho, e Marcelo Guerra, um vigoroso Eilif, vêm á linha da frente com firmeza.
Depois do ápice de “Toda Nudez Será Castigada”, “Mãe Coragem” figura como uma montagem menor do Armazém, mas não decepciona. (bom)


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