Na Moita


03/04/2008


GÊNERO DE COMÉDIA AMPLIA OS LIMITES DO HUMOR

 

Como no “one man show”, gênero que marcou em décadas passadas a carreira de José Vasconcelos, Chico Anísio e Jô Soares, a “stand up comedy” supõe um ator com um microfone em punho se dirigindo diretamente à platéia, munido de piadas, frases de efeito, imitações e, a rigor, um mínimo de adereços para se multiplicar em cena.

Mas o humorista de stand up tem o orgulho de se arriscar muito mais. Seu “material”, mais que um mero improviso mas não fechado como um monólogo, consiste em textos do próprio punho (comprar ou imitar pode desgraçar reputações) no qual ele se expõe como personagem principal, assumindo suas inadequações físicas e inabilidade diante do mundo.

O jogo consiste em ganhar a empatia do público comentando pequenos incidentes do cotidiano, tão específicos que não raro cada performance deve ser adaptada de acordo com o endereço do show ou de um acontecimento marcante da véspera, ostentando a capacidade de contracenar com a platéia. Por isso, seu grande parceiro é o “heckler” o chato da platéia que quer ser mais engraçado e se presta a uma queda de braço de insultos.

Como nos Estados Unidos, onde nasceu o gênero, rastrear a história do stand up comedy no Brasil é fazer uma lista de pioneiros. Tudo começa com o número de cortina do vaudeville, no qual um ator tem que entreter a platéia na boca de cena, enquanto que por trás dele o cenário é trocado. Basta reler o “Mambembe”, de Arthur de Azevedo, para checar como o caipira se dirige diretamente à platéia, comparando-a às mulas tropeiras, em uma provocação típica do gênero. Na era do rádio, Noel Rosa era mais humorista do que cantor –sendo a crônica provocadora dos costumes a essência de seus sambas- e a televisão se adapta perfeitamente a esses esquetes curtos (é só lembrar que “A Praça É Nossa” e o professor Raimundo começaram no rádio).

Tendo entrado em decadência na virada do século, a nova mídia da Internet volta a consagrar esses camicases do humor. Que o diga Rafinha Bastos que tinha seu site já em 1999, tendo baseado seu enorme público unicamente no boca-a-boca.

Em São Paulo, tendo como pioneiro o “Terça Insana” de Grace Giannoukas, proliferam grandes comediantes como Marcelo Mansfield, Danilo Gentili e Danny Calabreza. Em Curitiba, o “Risorama”, criado há cinco anos por Diogo Portugal como um apêndice do Festival de Curitiba se consagrou este ano como atração principal; enquanto que no “Janeiro Brasileiro da Comédia” de São José do Rio Preto, festival específico no rasto do FIT, a partir deste ano instituiu um “open mic” para descobrir talentos locais.

Democrática e insolente, a “Stand Up” é garantia de renovação – ou, pelo menos, de boas risadas – desde que os performers sobrevivam à dura prova de fogo de se expor ao ridículo, de cara limpa.

Escrito por Sérgio às 18h49
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31/03/2008


Velório na casa dos Drummond. Enquanto um piano triste inunda a casa, crianças brincam furtivamente na penumbra. A primeira imagem da montagem de Antunes Filho para a mais maldita peça do maldito Nelson Rodrigues faz pressentir que estaremos diante de uma obra prima.

Não é, infelizmente, e não por culpa do diretor. Depois de anos destilando técnicas para a tragédia grega, construindo regras para a impostação não realista e a evolução do coro, e uma montagem para por tudo de lado e reencontrar a brasilidade, com “A Pedra do Reino” de Suassuna, com “Senhora dos Afogados” Antunes faz a síntese entre a carnavalização e o arquétipo.

Para isso, afina seu vocabulário como se tudo antes fosse um esboço do que vem agora. O grupo que evolui em bloco desde “Macunaíma” se torna o coro de vizinhos, malsão e cômico como um tropel de ratos. A dicção minuciosamente artificial desta vez não redunda a solenidade do texto, mas dá uma dimensão alucinatória aos diálogos aparentemente naturalistas. Mesmo Shakespeare, visitado regularmente pelo encenador, se faz presente na cena do assassinato do Noivo, de economia exemplar, horror puro.

Sinal das grandes montagens, resumir o enredo seria dar uma impressão errada do espetáculo, que plasmado em imagens síntese vai além do que possa ser descrito. Incestos, suicídios, assassinatos, mortos que voltam fazem parte do universo rodriguiano – mas talvez nunca com tanto despudor, tanta confiança em uma lógica própria, como só se vê em Lorca (a avó louca de “A Casa de Berrnarda Alba”) ou O’Neill de “Electra Enlutada”. A luz elegantemente precisa de David de Brito e Robson Bessa e a trilha de Pedro Abdhul, cantada com segurança pelo elenco, os figurinos de Rosângela Ribeiro, assombram por muito tempo a memória do público.

Mas não é suficiente: ainda faltam atores para Antunes. Todos cumprem à risca as requintadas marcações, aspirais para a morte que ronda, diagonais apolínicas recortando planos de alucinação; todos usam a voz gutural como uma máscara que afasta a anedota esvaziadora. Mas poucos criam a partir disso.

Assim, Valentina Lattuada, como D. Eduarda, reproduz com desenvoltura o padrão indicado, mantém uma beleza solene, mas se torna previsível muito rápido em seus efeitos. Fred Mesquita é muito romântico como Paulo, Eric Lenate muito comezinho como Noivo. Angélica di Paula, em um personagem que possibilita maior evolução, a de Moema, a secreta protagonista da tragédia, se sai melhor; falta-lhe porém uma maior explosão na catástrofe final.

Lee Thalor é aquele que faz entrever o que poderia ser um espetáculo de Antunes Filho se todos no palco tivessem a mesma genialidade que o encenador. Faz das marcas uma brincadeira pessoal, e com um dom inato para a pausa e a ironia se mantém no limite entre a comédia e a tragédia. Mais jovem que seu personagem Misael, traz o sombrio e assombrado patriarca logo em sua primeira aparição, com um riso sinistro que gela a platéia, clichê de melodrama que, distanciado pela técnica, volta de repente a ser eficaz.

Como cobrar Antunes por ter apenas um ator à sua altura? Mestre, lapida cada ator em cena, com a mão pesada talvez de seu mestre Celli, mas sem ceder ao psicologismo nem ao arbitrário. Exige alta erudição dos que estão em seu Centro de Pesquisa, para que possam compartilhar suas inquietações. Mas nada disso supre o que seja talvez uma deficiência de formação, ou de expectativa, dos que escolhem o duro ofício de ser ator. Antunes faz suas encenações para atores do futuro. Que seja alcançado por Lee Thalor, é um ganho inestimável.

(três estrelas, bom)

 

Botão: “Senhora dos Afogados”, peça que narra as estranhas mortes por afogamento das filhas de Misael, ministro que é assombrado por um assassinato no passado, e que, tal como Macbeth, é perseguido pelo fantasma da prostituta que matou, exige tanto do encenador que já foi considerada uma peça maldita. A atual montagem de Antunes foi acalentada há décadas; espera-se em breve uma versão de José Celso Martinez Correa.      

  

Escrito por Sérgio às 13h29
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