Na Moita


18/04/2008


INTERVENÇÃO URBANA PROMOVE O ESTRANHEMENTO DO COTIDIANO

 

Quando finalmente anda a fila que vinha se formando desde o início da tarde, um morador de rua insulta os que entram na passagem da Xavier de Toledo, como se fosse uma profanação. É mais uma aventura urbana arquitetada pelo Teatro da vertigem, desta vez em cumplicidade com a companhia Zikzira, de mineiros londrinos, e os peruanos do Lot. Apresentada entre os dias 12 e 15 deste mês, terá reprise dia 26, durante a virada cultural.

Mas que é este “A Última Palavra é a Penúltima”? Baseado no mote do “esgotamento” de Deleuze o espetáculo se apresenta como uma intervenção cênica: o público, por trás de uma antiga vitrine do Mappin ao longo da passagem subterrânea há anos fechada, observa secretamente gente passando. São carregadores de água de uma banalidade estranha, e seres mascarados de uma familiaridade perturbadora. A ação é minuciosamente controlada, mas pouco ou nada acontece: uma garrafa que se espatifa no chão ganha a dimensão de uma catástrofe.

Incorpora o acaso, mas em pequenas doses. Ao fluxo de transeuntes não faltam convidados anônimos e quase desavisados, mas é composto sobretudo de atores que se prepararam minuciosamente para o evento, como provam pequenos solos em que parecem ensaiar, sentados em uma cadeira, com um preparador corporal a guiar a emissão de textos, fragmentos de sentidos – “testemunho amnésico”, propõem.

Sabemos também, pela revelação de pequenos vídeos gravados instantes antes, quando avançava a fila, que são atores ansiosos com o aqui agora da apresentação, mas não têm nenhum personagem reconhecível, quase não precisariam serem atores. Fusão de grupos, nem mesmo se pode esperar um estilo de representar. O tempo de apresentação é mantido vago: informações prévias desencontradas variavam de 30 minutos a quase duas horas.

Trata-se então do esgotamento do espetáculo, diante do excesso de rupturas e rótulos da modernidade? Cria o espetáculo que vê. Mas qual o personagem do observador? Um vizinho voyeur olha com desconfiança minha capa preta e pergunta se sou um ator disfarçado. Respondo que sou crítico. “Não gosto de você então”, conclui à queima roupa.

No ingrato papel de provador público, tentando relatar um nexo, a lembrança das freiras emparedadas do Mosteiro da Luz não ajuda em nada a minha claustrofobia. Como uma múmias observado os visitantes de um museu, fantasma urbano como Graphic Novel de Eisner, estranho o mundo.

Na saída, cumprimento uma atriz: “Não sei o que é, mas é bom”. “É?” se espanta ela: “também não sei o que é”. Consulto o relógio: foram 50 minutos de espetáculo. A não ser que conte o estranhamento que persiste na lenta volta ao mundo normal. Vendo os manequins do Shopping Light que gritam como no quadro de Munch, sei que isso vai demorar. (bom)   

  

 

Escrito por Sérgio às 13h21
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16/04/2008


MONTAGEM DE YACONIS PROMOVE CONSAGRAÇÕES

 

Se a vitalidade de um criador deve ser medida por seu entusiasmo em encarar desafios, Cleyde Yáconis, 84, é uma das mais jovens atrizes do Brasil. Passa de um trabalho para outro como quem troca de brinquedo, sem levar a sério a idolatria que sua carreira permitiria. Em geral encarna mulheres fortes, em encenações de longo fôlego, que a mantém em cena por horas, como em “Longa Jornada de um Dia Noite Adentro” de Eugene O’Neill ou “Cinema Éden” de Marguerite Duras.

Este “O Caminho para Meca” está à altura de Cleyde por duas razões. Primeiro, por seu tema: homenageia Helen Martins, uma artista plástica que, tendo descoberto a vocação após os cinqüenta anos em um vilarejo próximo ao deserto na África do Sul, tem uma importância equivalente ao de Gaudi. Visionária e revolucionária, sua excentricidade e integridade a levaram a cometer suicídio em 1975, ao sentir que completara seu trabalho: um jardim com centenas de esculturas de camelos, corujas e budas.

Em seguida, a montagem tem o grande mérito de estrear no Brasil um texto de Athol Fugard. Para narrar um momento decisivo da vida de Martins, ninguém melhor que este escritor sul africano, que começou com teatro de protesto entre os negros das “townships” para se consagrar internacionalmente ao ver seu único romance transformado em filme, “Totsi”, ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2006. Com uma delicadeza feminina, contrapondo a brutalidade da intolerância racial ao enternecimento pela revelação de frágeis segredos, Fugard faz por merecer o Nobel de Literatura, se não o da Paz.

“O Caminho para Meca” é uma longa cena em tempo real que contrapõe Martins a uma amiga mais jovem e igualmente inconformista, Elza, e o pastor do vilarejo. Com um tom que lembra “A Festa de Babette”, quebra maniqueísmos e inverte chavões, sem sair do naturalismo. Yáconis, com sua generosidade habitual, joga de igual para igual com Lúcia Romano, que se consagra assim no primeiro time, em uma alta sintonia difícil de ser alcançada pelo competente Cacá Amaral.

A diretora Yara de Novaes tem pulso e sensibilidade para levar o ritmo difícil da peça, uma longa desaceleração, amparada pela bela luz de Telma Fernandes e cenário de André Cortez, que no entanto são mais cinematográficos que teatrais. Não compromete: a montagem atinge com despojamento uma grande profundidade, façanha rara em teatro. (três estrelas).    

 

 

 

 

Botão: Além de ostentar Cleyde Yáconis no pleno domínio de sua arte e lançar um importante dramaturgo no país, a montagem lança um novo teatro na cidade. Bonito e bem aparelhado, vale a pena ir até Vila Guarani descobrir o Teatro Cosipa Cultura.

Escrito por Sérgio às 13h39
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