INTERVENÇÃO URBANA PROMOVE O ESTRANHEMENTO DO COTIDIANO
Quando finalmente anda a fila que vinha se formando desde o início da tarde, um morador de rua insulta os que entram na passagem da Xavier de Toledo, como se fosse uma profanação. É mais uma aventura urbana arquitetada pelo Teatro da vertigem, desta vez em cumplicidade com a companhia Zikzira, de mineiros londrinos, e os peruanos do Lot. Apresentada entre os dias 12 e 15 deste mês, terá reprise dia 26, durante a virada cultural.
Mas que é este “A Última Palavra é a Penúltima”? Baseado no mote do “esgotamento” de Deleuze o espetáculo se apresenta como uma intervenção cênica: o público, por trás de uma antiga vitrine do Mappin ao longo da passagem subterrânea há anos fechada, observa secretamente gente passando. São carregadores de água de uma banalidade estranha, e seres mascarados de uma familiaridade perturbadora. A ação é minuciosamente controlada, mas pouco ou nada acontece: uma garrafa que se espatifa no chão ganha a dimensão de uma catástrofe.
Incorpora o acaso, mas em pequenas doses. Ao fluxo de transeuntes não faltam convidados anônimos e quase desavisados, mas é composto sobretudo de atores que se prepararam minuciosamente para o evento, como provam pequenos solos em que parecem ensaiar, sentados em uma cadeira, com um preparador corporal a guiar a emissão de textos, fragmentos de sentidos – “testemunho amnésico”, propõem.
Sabemos também, pela revelação de pequenos vídeos gravados instantes antes, quando avançava a fila, que são atores ansiosos com o aqui agora da apresentação, mas não têm nenhum personagem reconhecível, quase não precisariam serem atores. Fusão de grupos, nem mesmo se pode esperar um estilo de representar. O tempo de apresentação é mantido vago: informações prévias desencontradas variavam de 30 minutos a quase duas horas.
Trata-se então do esgotamento do espetáculo, diante do excesso de rupturas e rótulos da modernidade? Cria o espetáculo que vê. Mas qual o personagem do observador? Um vizinho voyeur olha com desconfiança minha capa preta e pergunta se sou um ator disfarçado. Respondo que sou crítico. “Não gosto de você então”, conclui à queima roupa.
No ingrato papel de provador público, tentando relatar um nexo, a lembrança das freiras emparedadas do Mosteiro da Luz não ajuda em nada a minha claustrofobia. Como uma múmias observado os visitantes de um museu, fantasma urbano como Graphic Novel de Eisner, estranho o mundo.
Na saída, cumprimento uma atriz: “Não sei o que é, mas é bom”. “É?” se espanta ela: “também não sei o que é”. Consulto o relógio: foram 50 minutos de espetáculo. A não ser que conte o estranhamento que persiste na lenta volta ao mundo normal. Vendo os manequins do Shopping Light que gritam como no quadro de Munch, sei que isso vai demorar. (bom)


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