Na Moita


25/04/2008


Peça de Leilah Assumpção reforça clichês feministas

Conflito entre quarentão em crise e sua mãe estaciona em tese rasa e rançosa

SÉRGIO SALVIA COELHO
CRÍTICO DA FOLHA

Leilah Assumpção, desde a sua estréia com "Fala Baixo Senão Eu Grito", de 1969, é uma dramaturga de importância inegável. Vendo do ponto de vista feminino, em geral com humor ferino, as incoerências de sua geração, tem uma carreira internacional de respeito. Márcio Aurélio é um encenador meticuloso que não costuma fazer concessões e é responsável por obras-primas como "Agreste", peça de grande risco e beleza.
Por isso, nos primeiros momentos de "Ilustríssimo Filho da Mãe", ao ver dois grandes atores iniciarem uma longa cena em tempo real, de um conflito pouco explorado -o choque de gerações entre um quarentão em crise conjugal e sua mãe que se recusa ao clichê de "velha mãe", apesar de seus 70 anos- diante de um belíssimo cenário, com uma enorme tela que puxa a trama para o simbólico, há a impressão de que nada pode dar errado. E, no entanto, o tempo passa, e o conflito não se aprofunda.
Inúmeras alusões a fatos anteriores e acusações genéricas e categóricas ("Vocês, homens...") vão confirmando o beco sem saída de uma peça de tese que chove no molhado. Na dupla condição patética de machista, logo infantil diante das mulheres, e quarentão que não soube dar um rumo à sua vida, o personagem pouco tem a oferecer, e Jairo Mattos só consegue alguma verossimilhança ao ironizar os clichês que tem a dizer -truque que já usara recentemente em "Don Juan" e que o vem marcando como um ator que economiza seus recursos.
Miriam Mehler, por sua vez, aos 40 anos de carreira, tem um carisma inegável e é perfeita para defender uma personagem que se mantém atraente sexualmente após os 60 anos. Porém muitas vezes parece se constranger diante do que tem a dizer e acaba também por parodiar seu personagem.

Bandeira
Diante da falta de ação, e da falta de conflitos reais, Márcio Aurélio tem pouco o que fazer. Os personagens circulam a esmo pelo apartamento, triangulam com a platéia evidenciando o tom farsesco dos seus argumentos, mas o tom logo enjoa. A surpresa final, com a chegada de um terceiro personagem, não ajuda.
A questão é que a atual bandeira de Assumpção -o direito de sua geração a não se tornar "respeitável", mantendo uma provocadora vulgaridade nos diálogos, como que celebrando uma segunda adolescência-, longe de ser contagiante, acaba se afundando em narcisismo. Não rompe clichês, como "Ensina-me a Viver", mas os reforça despudoradamente, não acrescentando nada a uma discussão feminista já rançosa.
O homem atual não merece a nova mulher, que se libertou, e que mesmo assim se enternece diante de sua primariedade. A conclusão já estava pronta nos primeiros minutos. Acaba ficando a impressão de um grande desperdício de recursos para uma tese tão rasa.


ILUSTRÍSSIMO FILHO DA MÃE
Quando: sex. e sáb., às 21h; dom., às 19h
Onde: Jaraguá - Novotel (r. Martins Fontes, 71, tel. 3255-4380)
Quanto: R$ 60
Avaliação: ruim


Escrito por Sérgio às 13h44
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

21/04/2008


O BEM AMADO É TELEVISÃO AO VIVO

 

Dias Gomes construiu sua carreira de dramaturgo driblando a censura com fábulas metafóricas, e a partir de 1969, como também fizeram Jorge Andrade e Vianinha, se adaptando à linguagem da televisão. Responsável direto pelo prestígio internacional da teledramaturgia brasileira, “O Bem Amado” é um marco da televisão brasileira, embora originalmente escrito para os palcos.

Transformadas em novela em 1973, as aventuras do prefeito corrupto Odorico Paraguaçu querendo inaugurar o cemitério de sua cidade lançaram a televisão colorida e apresentaram Lima Duarte para o grande público, em um papel que o marca até hoje: o cangaceiro Zeca Diabo, contratado para produzir um defunto. Em 1980, “ressucitado” em um seriado que durou até 1985, Paraguaçu manteve a função de ser um espelho deformante da caricata política brasileira.

Produzida por Guel Arraes, camaleão de mídia da nova geração, que também assina a adaptação junto com Cláudio Paiva, esta versão se mantém fiel a este espírito do teatro de revista: toca com bom humor em temas eternos como as invasões do MST e a polícia assassina, as pizzas das CPI, e a longa lista de mazelas que mais divertem do que provocam indignação, no país de Mão Santa e Severino Cavalcanti.

 Este humor que questiona sem ferir foi feito sob medida para Marco Nanini, e para seu público fiel, que o conhece sobretudo da televisão. A impressão de televisão ao vivo predomina desde as primeiras cenas, com a solicitação explícita para que a platéia se converta em claque de auditório, vaiando e aplaudindo a cada tirada. A platéia não se faz de rogada, claro, encantada pelo timing e pelo cinismo de Nanini, que torna claro o maquiavelismo do seu personagem.

A onipresença de Nanini, reforçada pelo voluntariamente kitch e excessivo cenário de Gringo Cárdia, satiriza bem o egocentrismo do político brasileiro, mas compromete o equilíbrio do espetáculo. A narrativa, bem construída pela hábil carpintaria de Dias Gomes, é sacrificada pelos bordões, na verve barroca de Paraguaçu, e a passagem de uma cena para outra é feita por vinhetas meramente decorativas, que parecem cobrir o intervalo comercial.

Enrique Diaz é um dos principais diretores brasileiros, e sua Companhia dos Atores tem prestígio mundial com espetáculos que tratam Shakespeare e Tchekhov de igual para igual. Aqui, são coadjuvantes que se apagam para não ofuscar a atração principal. Voluntariamente medíocres, divertindo-se com estereótipos mas cuidando para não roubar o cartaz de Nanini, não fazem um trabalho representativo do grupo, para dizer o menos.

Por outro lado, Nanini não precisa da companhia para brilhar sozinho, e não parece disposto a abrir mão disso. Fez por merecer um público fiel, e não precisa se arriscar mais.

A platéia veio para se divertir e se diverte. A Companhia dos Atores atinge um público que normalmente não atingiria, mesmo que para isso sacrifique momentaneamente o seu projeto original. A pizzaria continua vendendo pizzas, e não há nada que o crítico possa acrescentar. (duas estrelas)

 

  

Escrito por Sérgio às 14h33
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Histórico