PALHAÇOS MUDOS REVOLUCIONAM PELA POESIA E SIMPLICIDADE
Não é de hoje a parceria entre o La Mínima, de Fernando Sampaio e Domingos Montagner, e Laerte. Em “Piratas do Tietê – o Filme”, de 2003, tendo Rogério Lopes como co-roteirista e Beth Lopes na direção, o universo do quadrinista teve uma adaptação muito bem sucedida, quase uma superprodução, com elenco grande e ilustre no palco do Teatro Popular do Sesi.
Agora, com os “Palhaços Mudos” como protagonistas, a estratégia não poderia ser a mesma. A exuberância dos Piratas, que já mereceram revista própria e até hoje nomeiam a tira de Laerte na Folha, dá lugar a um humor contido, ao mesmo tempo ingênuo e melancólico, cuja delicadeza exige uma encenação minimalista e uma técnica apurada.
Surgidos na revista Circo número 4, em 1987, foram considerados “personagens de uma história só” pelo próprio Laerte, depois de uma seqüência não tão boa três números depois (“Os Palhaços Mudos e a Ameaça Nuclear”), mas permaneceram vivos na memória dos fãs.
São como uma alegoria felliniana à resistência contra a repressão militar. Com uma trama extremamente simples – dois palhaços invadem uma espécie de fortaleza do TFP para impedir a execução pública de um deles – a história vale como uma antologia de piadas essenciais, como se vê nos filmes mudos: pulam um portão que estava aberto, usam guarda-chuvas como para-quedas, etc.
O grande trunfo do La Mínima foi o de ter convidado Álvaro Assad para dirigir e adaptar o espetáculo. Diretor do “Centro Teatral e Etc e Tal” do Rio de Janeiro, que desde 1993 desenvolve a exigente técnica da pantomima, Assad acerta ao manter a simplicidade da trama original, mudando apenas a premissa: os palhaços se arriscam para resgatar o nariz emblemático de um deles, mutilado na primeira cena. A imagem de Sampaio desamparado, com um curativo no lugar do nariz, querendo se matar desajeitadamente, remete ao Baptiste de Jean-Louis Barrault no “Les Enfants du Paradis”: uma pantomima clássica, entre o melodrama e o teatro de bonecos.
Fiel escudeiro de Sampaio, Montagner se beneficia com um grande achado do roteiro: seu personagem leva consigo um despertador que, quando acionado, obriga seu dono a executar um número de circo, sejam quais forem as circunstâncias. Completa o elenco, se desdobrando no papel de todos os inimigos de terno, Fábio Espósito, um dos melhores clowns que o Cirque du Soleil pôde ter, agora acessível a todas as platéias.
Embora a situação dramática única se dilua um pouco ao longo da peça, os achados cênicos, que anarquizam poeticamente os excelentes recursos de trilha sonora, luz e cenário, conseguem o mais difícil: reproduzem fielmente o clima non-sense de Laerte, que vem revolucionando diariamente a técnica de humor, sem fazer alarde e de peito aberto, como as crianças e os heróis da resistência política. (ótimo)


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