“CONFISSÕES...” CUMPRE SUA FUNÇÃO DE BLOG
SÉRGIO SALVIA COELHO
CRÍTICO QUARENTÃO DA FOLHA
“Confissões das Mulheres de Trinta” é absolutamente honesta na sua proposta: trata de confissões de e para mulheres de trinta anos, em forma de uma seqüência de depoimentos, com bom humor levemente escachado sem cair no vulgar, mas que não vão além do simpático bom-senso.
O trunfo de Domingos de Oliveira é explorar um filão praticamente inexplorado desde Oduvaldo Vianna Filho: as incoerências de uma classe média intelectualizada tão raramente representada na dramaturgia nacional que deve ir buscar um espelho no cinema argentino ou na televisão americana. Rara exceção (ao lado Da “Grande Família” de Vianninha) é o seriado Mothern, criado por Luca Paiva Mello a partir de um blog de Laura Guimarães e Juliana Sampaio, transmitido desde 2006 pela GNT.
A presente montagem paulista é um subproduto direto de Mothern: estrelado por três das quatro protagonistas da série (Camila Raffanti, Juliana Araripe, Melissa Vettore) e dirigido pela quarta (Fernanda D’Umbra, que se firma como diretora, depois do excelente “Roxo”) tem o mesmo bom gosto e despojamento de um bom blog de amigos, o que é o segredo da série. À vontade, cúmplices, as atrizes têm sensibilidade e precisão, e tocam em pontos incômodos sem incomodar muito.
Desarmando a armadilha do besteirol, a que o texto leva quase irresistivelmente, o figurino (uma monocromática e elegante ironia sobre a moda, de Marina Reis), a sofisticada luz (Marcelo Montenegro) e cenário minimalista (Valdy Lopes Jr) dão um verniz de inteligência a uma brincadeira entre amigas, divertida e rasa como um papo de bar, mas talvez justamente por isso tão bem recebida.
As mulheres de trinta, tão presentes nas crônicas urbanas desde Machado de Assis, no centro etário do imaginário masculino, sofrem de solidão. Tamanho desencontro justifica a ironia feroz com que se referem ao sexo oposto, que anda cada vez mais frágil, e que acaba estigmatizado quase que como um mal necessário. Contra-partida de um machismo que sempre imperou nas relações sociais, há no entanto uma mal disfarçada nostalgia nesse neo feminismo pelo tempo em que as coisas eram menos ambíguas: as mulheres eram sustentadas, burras e belas, confortáveis à sombra do poder do provedor que voltava à noite do trabalho.
Talvez por isso a última palavra seja dada ao autor Domingos de Oliveira, que de própria voz emana paternalismo por essas balzaquianas incompreendidas. Na platéia, o público alvo vibra. Todos acabam reconciliados. (três estrelas)
Escrito por Sérgio às 13h37
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ACQUA TOFFANA É BESTEIROL CULT
Entre a claustrofobia de Kafka e o deboche do besteirol, Patrícia Mello estreou na literatura com Aqua Toffana caindo nas graças de um público jovem e intelectualizado. Fulano de Tal tem um tipo especial de obsessão: quer eliminar sua gorda vizinha Clélia por representar uma intromissão inadmissível no seu universo de funcionário exemplar. O ódio se transforma em uma paixão pelo avesso, quase lírica, não fosse tão sórdida.
Além do mergulho tragicômico na mente homicida, Mello faz um jogo shakespeareano: em um universo no qual todo homem é canalha e toda mulher é burra, é uma mulher caricaturizando o homem que caricaturiza a mulher. O diretor Pedro Brício, cúmplice dessa intrincada ironia, põe inteligentemente uma mulher para encarnar Fulano, ao adaptar o texto para monólogo.
Dani Barros é a pessoa certa para isso. Apesar do pouco volume de voz, sabe variar tons e ritmos para levar sozinha esse tema e variações, em uma marcação precisa e eficiente em provocar o riso. A ambientação cênica um pouco excessiva de Rui Cortez, quase uma instalação, e a elegante luz de Tomás Ribas fazem da montagem um exercício atraente para uma atriz. Embora repetitivo, Aqua Toffana é uma diversão inteligente. (três estrelas)
Escrito por Sérgio às 15h06
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WAGNER MOURA FAZ O HAMLET DA SUA GERAÇÃO
Wagner Moura lançou-se na empreitada iniciática de “fazer seu Hamlet” anunciando a intenção que fosse apenas mais uma montagem. Falhou: é o Hamlet emblemático da sua geração. Espelho inesgotável, mas que reflete apenas o que se põe na sua frente, a obra prima de Shakespeare, síntese do Teatro, já teve o rosto compenetrado de Sérgio Cardoso, do Teatro do Estudante, que assumia a responsabilidade de construir o moderno teatro brasileiro; e no extremo oposto, um Marcelo Drummond se estraçalhando em uma entrega camicase ao caos dos anos 90, na montagem do Teatro Oficina.
Moura, Hamlet do milênio, tem pela frente um país que se reergue praticamente de ruínas, mas tendo aprendido importantes lições. Vestindo o personagem como uma armadura, consciente da batalha, Moura precisa primeiro exorcizar o fantasma da grandiloqüência com o humor adolescente que tanto o marcou. Não é pela melancolia, mas pelo deboche exasperado que ele rejeita a podridão de seu reino, e ganha a platéia nos trocadilhos e na marcação frenética. Mas há método nessa loucura: quando é preciso, triunfa pela simplicidade, e inesquecíveis monólogos marcam sua entrada definitiva no mundo adulto.
Com uma preciosa tradução dividida entre ele, Bárbara Harrington e o diretor Aderbal Freire-Filho, se faz compreender sem perder o frescor nem a beleza sonora. O “ser ou não ser” tem seu peso devido, ou seja, um devaneio entre parênteses, quando o mais importante está em suas considerações sobre o próprio teatro, e aí a bandeira de Shakespeare se desfralda com o vigoroso vento da sede por um teatro livre dos truques retóricos da autocontemplação.
Para isso, é preciso um diretor que ponha seu currículo inteiro em cena, como faz Freire-Filho. Não pode ser menos, com “Hamlet”: tudo o que o diretor já fez soa como uma preparação para o que se vê aqui. No cenário, retoma com Fernando Mello da Costa a experiência do “Púcaro Búlcaro”: coxias abertas, abarrotadas, com atores atentos, em contraste com o palco nu. Há o vídeo em cena, que esfriava “O Que Diz Molero”, e que agora acompanha passo a passo o texto, desdobrando suas leituras com grande impacto visual. Há sobretudo a soberania total do ator, que dispõe de todos os recursos do “romance em cena”, que lhe põe na mão instantaneamente tudo o que ele precisa.
Em uma das muitas metalinguagens, o pai de Hamlet, rei destronado por um canastrão, é uma entidade coletiva, feita por todo o elenco de apoio que se reveza na armadura: a verdadeira majestade é da trupe, não do indivíduo. Mas cada peça desse quebra-cabeças é precisamente ajustada.
Tonico Pereira, com sua bonomia que remeteria mais a Polônio, faz um Rei Cláudio extremamente simpático, e por isso perigoso: humano na sua fraqueza, Pereira atinge a maturidade como ator encontrando a tragédia no centro do cômico.
Georgiana Góes é uma Ofélia adolescente que se estraçalha na dor, por sambas e frevos que parecem improvisados na hora (façanha do autor da trilha, o hermano Rodrigo Amarante) para culminar no assombro do grito de Munch. Fábio Lago faz um Laertes transfigurado pelo ódio, que recobra a integridade no final; enquanto que Gillray Coutinho aproveita tudo o que Polônio pode lhe oferecer, na sua técnica espantosa, frenesi de tiques e pirotecnia verbal. Marcelo Flores e Cláudio Mendes, par de clowns meticulosos, sabem também honrar seus solos, enquanto coveiros e atores. Carla Ribas tem grande dignidade como Gertrudes, mas fica um pouco deslocada quando o desvario triunfa. Caio Junqueira (um Horácio carismático) e Felipe Kouri (que tira o máximo dos menores personagens) completam um elenco no qual ninguém faz sombra a ninguém, e é a história que prevalece.
A luz de Maneco Quinderé é sutil e precisa, enquanto que o figurino de Marcelo Pies sabe conciliar despojamento e requinte. Este Hamlet é indispensável e antológico justamente por sua essencialidade. Não busca ser original, mas eficiente, e faz um apelo emocionante e contagiante pela própria grandeza do Teatro. É para deixar qualquer um que tenha cedido à idéia da morte do teatro com vergonha. Na ratoeira de Hamlet, o que fica preso é o coração da platéia, com os olhos abertos para se ver refletido nesse espelho infinito. (quatro estrelas)
Escrito por Sérgio às 14h06
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