MARTINI PRESTA DELICADA HOMENAGEM AO TEATRÃO

 

Com um humor mais sutil do que o que costuma marcar sua parceria com Marcos Caruso, Jandira Martini faz uma delicada homenagem a Eleonora Duse. Partindo de uma sólida pesquisa (que chega a ficar explícita demais em cena) Martini imagina um provável encontro entre a diva do novo teatro realista, deslocada na provinciana São Paulo de 1907, e o empresário Francisco Serrador, que apresentava no mesmo hotel a novidade do cinematógrafo.

Um bom mote para o conflito entre entretenimento e arte, que a autora desenvolve em uma narrativa linear, aproveitando para levantar temas polêmicos e atuais (o teatro deve ser caro, porque custa muito para quem o faz). O contraponto com o anônimo Pietro, um humilde compatriota, cozinheiro do hotel, que gastou seu salário para vê-la, traz à ribalta o teatro como encontro entre indivíduos, e não como exposição de celebridades, o que sempre é bom de se ouvir.

Enquanto atriz, Martini empresta seu carisma para o sarcasmo amargo de Duse, já desencantada com a carreira, sabendo alternar grandiloqüência e tiradas mais prosaicas. Roney Facchini, como o simpático Pietro, faz um contraponto importante para a peça, enquanto que Maurício Guilherme faz um Serrador sem muita profundidade, como que para ressaltar a trivialidade de seus propósitos.

Há algumas deficiências incômodas no espetáculo: o cenário naufraga entre o realista e o simbólico, definindo mal um local de ação um pouco improvável (um saguão de hotel no qual um cozinheiro trabalha), e um figurino que veste a supersticiosa Duse de verde. A direção de Jô Soares procura brincar com as marcações hieráticas do teatrão, mas ainda deixa os atores soltos demais em cena, andando a esmo, além de introduzir passagens de tempo desnecessárias por meio de luz e trilha, cacoete já presente em “Às Favas com os Escrúpulos”.

Curiosamente, a inovadora Duse acaba se impondo como a defensora do teatro tradicional, que resiste à triviliazação do sucesso fácil. Que contagie a platéia do teatro Jaraguá. (três estrelas)     

Escrito por Sérgio às 11h56
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Atendendo à campanha da Bacante....

Voltei!!!!!

 

Na verdade, foi uma falha técnica que nem o técnico do uol soube explicar. Há mais mistérios na net do que pode explicar o Wagner Moura.

Mas você, leitor amigo e que passa sem deixar traços, não perdeu nada. Faz tempo mesmo que não escrevo na Folha. Tinha sido convidado simultaneamente pela Ilustrada e o Guia para escrever sobre Nossa Vida não Vale um Chevrolet (sou arlequim terceirizado por dois amos). A Ilustrada não liberou para o Guia (que também me pediu para escrever sobre a versão opala para cinema), morreu o Dorival e eu fiquei sem espaço nenhum. É doce morrer na praia.

Mas ainda bem, porque ia dar merda. Achei exatamente o contrario do crítico de cinema que disse que vale pelas personagens Magali e Silvia. Nada contra (essa é para o Roveri) as atrizes. Mas Magali tecladista de churrascaria, boa moça que tem que dar para o patrão, é de doer. Esse melodrama maniqueista não tem nada a ver com o Bortolotto. Tem chavão e chavão. Os do Mário estão afinados com Miller, o Harry e o Frank, e as caracterizações padrão do Leo Medeiros e do Milhem (não adianta eles se disfarçarem de guerrilheiro ou de padre, são sempre eles e está bom assim) têm tudo a ver com esse universo. O Gabriel Pinheiro tem o desplante de funcionar nos dois (moleque marrento!) Mas qual a necessidade do Pereio de terno bancando o pai do Hamlet? E para que essa "genial" montagem fora de sequência das cenas da Silvia? Não bastava a doçura triste da Maria Luiza Mendonça? Se o diretor acha o naturalismo do Mário pouco para ele, porque não fez um remake do "Corra, Lola, Corra?" As intromissões cretinas da edição pioram ainda mais as intromissões cretinas do roteiro, e o filme afunda (ao contrário do filme do Zé do Caixão, que é salvo pela edição esperta).

Ok, eu não entendo nada de cinema, vou ficar quieto. Mas aqui do meu galinheiro, fico feliz que o verdadeiro "Nossa Vida Não Vale um Chevrolet" possa ser ainda visto nesta meia-noite de sexta feira nos Parlapa. Essa peça é o Help, o Love me Tender do Mário, e ver o próprio fazer o Lupa com a Fernanda fazendo a Silvia, brincando de tirar 15 anos das costas lucrando o ágio do distanciamento irônico, é como tomar um black label. Não tem jeito de dar errado. Pode ler em francês, que a Luciana Botelho vendeu pra Comédie Française (googa aí pra ver se eu estou mentindo), mas tem gente que prefere dizer que o Mario "pegou carona" no Opala. Deleitem-se com merda, gente, um milhão de moscas não podem estar erradas, enquanto eu vou lá na praça ter certeza que o Cristo Redentor não vai cruzar os braços. Que desabe o Cultura Artística, os cortiços underground da praça vão continuar de pé, passando a muamba.

Pronto, Uol, pode me suspender de novo.



Escrito por Sérgio às 16h24
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